A INDIFERENÇA DOS "DIFERENTES"
Sabe a maior dificuldade que eu vejo na mente humana?
A de ser razoável.
Mas a questão de ser razoável não significa que devamos ser o tempo todo "meio-termo", "caminho do meio" ou "em cima do muro". Isso nunca foi ser razoável. Razoável é saber ponderar, refletir, ver os dois ou vários lados, pesar os pós e os contras, questionar, perceber o momento, a situação e a pessoa do assunto abordado.
Isso porque devemos ser razoáveis até com a ideia condicionada de "ser razoável".
Só que as pessoas não têm a sensibilidade para saber como e quando agir em determinada situação, simplesmente porque formam um conceito padronizado de como deveríamos ser ou agir.
É óbvio que há comportamentos e atitudes em que não há a necessidade de refletirmos. Sabemos que em alguns momentos deveremos agir pela lógica, por puro bom senso e sanidade. (Ainda que eu me pergunte "quem hoje em dia é são").
Mas as pessoas estão completamente apartadas do senso de justiça, discernimento, harmonia e ética, que para facilitar seus julgamentos do que seja correto, copiam modelos de comportamento daquilo que consideram virtuosos, ou mesmo, verdadeiros, porém, criando uma inflexibilidade mental.
Elas engessam padrões de como deveriam ser as coisas, para qualquer circunstância em geral, cristalizando, assim, visões.
O porquê de eu estar escrevendo disso, numa introdução longa, é pela crítica que a maioria tem sobre atitudes enfáticas, eloquentes e radicais... já que se acredita que o bem está somente nas atitudes pacíficas e generosas.
É certo que grande parte dessas atitudes são sempre sem sabedoria, consciência e reflexão. Os instintos e as emoções frequentemente são guias cegos das pessoas, causando muitos transtornos.
Mas as emoções existem, não, para serem abafadas, extintas, eliminadas... as emoções são indicadores de que é preciso fazer algo, agir, mudar, entender... e muitas vezes, tomar uma atitude brusca. (Por que não?).
Assim como as emoções, o sofrimento é um aviso de que devemos MUDAR. Porém, os espiritualistas em geral acham que ele deve ser somente eliminado da vida, através de uma conduta passiva ou introspectiva. Mas onde está escrito isso? Quem falou? Por quê?
Está escrito nas escrituras sagradas? Algum mestre iluminado disse? Um guia espiritual ou ser extraterrestre ensinou?
É aí que eu volto novamente com a questão de sermos razoáveis... Enquanto um lado da humanidade quer resolver os problemas agindo no externo, no físico e na matéria, com revoluções, ativismos e tudo mais... o outro lado da humanidade acha que a mudança é única e exclusivamente interna, que devemos meditar, orar, se autoconhecer, se observar, ver só o "seu" e tal, e o mundo que exploda...
E o pior de tudo é que os lados opostos da humanidade se criticam, em vez de enxergar os dois lados e constatar que as duas ações são importantes.
Você não pode achar que só agindo no mundo, querendo mudar as coisas e as pessoas, sem se lapidar internamente e se tornar um sujeito melhor e mais sábio (não, exatamente informado), irá resolver alguma coisa de efetivo.
Tampouco você deve achar que somente e exclusivamente a introspecção, o trabalho interno, o mergulho em si, irá mudar alguma coisa concretamente, já que 90% da população está em ignorância espiritual-consciencial. Ficar indiferente aos acontecimentos do mundo é dar apoio, incentivo e força aos que abusam, violentam, exploram e manipulam os bem-intencionados.
Seria como você presenciar uma agressão covarde de um valentão na rua a um desfavorecido fisicamente e nada fazer... simplesmente fingir que não vê e seguir em frente. As pessoas acham que não fariam isso, mas é o que elas estão fazendo o tempo todo: favorecendo os trapaceiros, covardes, injustos, ególatras, corruptos, mentirosos e sendo indiferentes com os que são prejudicados por eles.
E ninguém faz nada porque o conceito formatado na mente dos espiritualistas é o de que "cada um recebe o que merece"; "o indivíduo é responsável por tudo o que lhe acontece"; "todos devem aprender sozinhos com as circunstâncias ruins"; "o agressor ou aquele que prejudica é só um instrumento divino de aprendizado"; "ninguém deve se vitimizar, mas assumir sua culpa com o mal que lhe acontece"; e assim vai...
Ora... sabemos que estamos todos aqui para aprender, nos fortalecer, ficar mais conscientes e sábios, superar as adversidades... Mas isso não significa REDIMIR, ISENTAR, AMENIZAR os erros e a ignorância alheia, sendo condescendentes e neutros.
Ser justo e saber dar a cada um o que é necessário, nunca foi ser rígido ou frio... nunca foi deixar de perdoar. Porém o perdão também nunca foi ser passivo, indiferente, bonzinho com o erro dos outros. Perdoar é ter consciência das falhas alheias, sabendo que todos estão sujeitos a elas, mas que o arrependimento sincero é a chave para o perdão. De nada adianta estar arrependido e continuar a cometer os mesmos erros, pois isso já demonstra que não se arrependeu de fato.
Contudo, as pessoas são compreensivas em demasia com os que erram - e que insistem no erro -, e críticos e severos com aqueles que reagem com raiva e indignação.
No contexto político e econômico, isso está extremamente claro. Aqueles que não se sentem afetados pelo aumento do combustível de forma abusiva, ou de todos os outros produtos e serviços, julgam negativamente aqueles que não querem mais ser explorados, devido ao "caos e transtorno" causado pela greve e paralisação dos caminhoneiros. Isso porque não querem sair de suas zonas de conforto. É óbvio que todos saem prejudicados, mas há de se ter um sacrifício em prol da maioria.
E ainda que se diga que nada disso irá mudar as coisas, muito melhor se manifestar, dizer que não está satisfeito, mostrar que não tolera abusos, se indignar, se revoltar, do que ficar inerte, aceitando tudo e baixando a cabeça a quem não merece o nosso respeito.
No entanto, as pessoas preferem ficar na sua... preferem dizer "de nada adianta se indignar", "que nada muda", "que o que importa é fazer, eu, o meu trabalho (e dane-se o mundo)", "que é perda de tempo, pois o que importa é ser zen"...
Não estou exatamente dizendo para todo mundo se obrigar a fazer algo... não estou falando nem mesmo de uma AÇÃO EXTERNA como revoluções, ativismos ou protestos nas ruas... não se trata disso. Estou dizendo que, mesmo que não façamos nada de físico, é dever nosso ESTAR CONSCIENTE DO QUE É JUSTO E CORRETO, ter um POSICIONAMENTO entre abusadores e abusados, manipuladores e manipulados, malfeitores e bem-feitores.
E não mais ser INDIFERENTE com as injustiças.
Porque é isso que a ESPIRITUALIDADE está fazendo com as pessoas... tornando-as indiferentes, frias, injustas, amorais, passivas, preconceituosas e com ar de superiores.
Espiritualista também paga imposto; espiritualista também tem que trabalhar; espiritualista também tem direitos e deveres sociais; espiritualista também come, compra e consome. Resignar-se dos abusos dos outros, dizendo que "não liga", "não o atinge", "não o afeta", é a maior forma de arrogância velada que existe. E dizem que o Ego Espiritualista é o mais difícil de vencer...
Acho interessante tirar o corpo fora, enquanto milhares ou milhões de pessoas juntas estão sendo exploradas, sendo que eu e você estamos no meio delas.
Mas não é apenas no contexto sócio-econômico... não é só no contexto político que essa resignação e indiferença acontecem... mas em todos os contextos possíveis.
Pois quando você é lesado por algo ou alguém, a maioria quer lhe acusar e dizer que você está se fazendo de vítima; que você atraiu; que foi merecedor. Será? Não, que muitas vezes isso de fato ocorra, mas será sempre, incontestavelmente? É preciso CRITÉRIO para se saber se é vitimismo ou uma justa indignação com sua razão. Porque como eu já disse, pega-se um conceito e se formata em tudo na vida, sem reflexão alguma, disparando a metralhadora de opiniões.
Você pode muito bem aprender com as dificuldades e os eventos adversos, se superar e se fortalecer, sem necessariamente achar que você é responsável ou culpado por eles. Você pode crescer com as crises, sem precisar achar que está tudo correto e perfeito fazerem o mal a você, e que sem isso você não aprenderia. Não há necessidade de redimir ou tentar esquecer os erros alheios para aprender a ser mais maduro e sábio. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
É preciso mais discernimento do meio espiritualista. É preciso mais sensibilidade e percepção do meio espiritualista.
Mas as pessoas continuam programadas, achando que estão livres e transcendidas...
Enquanto isso, o mundo cai, cada vez mais, nas mãos dos sem escrúpulos.




Comentários
Postar um comentário