A SACADA DO PRIMEIRO ANDAR



      A vista do primeiro andar não é lá muito agradável. De cima enxergamos poluição e muita sujeira; coisas que de perto não são perceptíveis.

      Quando moramos no primeiro andar, corremos o sério risco de cairmos da escada, já que as subidas e as descidas dos degraus são constantes. Tanto a pressa em subir quanto a distração de onde pisamos nos levam a quedas e machucados.

      Do primeiro andar enxergamos a agitação agressiva da massa e ouvimos o seu burburinho contínuo. Constatamos dolorosamente que fazíamos parte dela e que perdemos metade de uma vida ou mais para, só depois de muito "ralar", nos mudarmos para o pavimento de cima. 

      Descobrimos também nesse andar, às duras penas, que existe um propósito de vida. Saber de uma existência significativa pode ser motivo de alegria ou de frustração. Alegria por se ter finalmente um sentido de estar aqui; frustração por ter dado voltas, até então, sem sair do lugar.

      Estar num andar superior, não nos faz superiores, porém nos faz enxergar além. Isso nos dá uma posição de maior responsabilidade devido à perspectiva ampla do cenário e ao distanciamento da ilusão que nos prende à vida térrea. O morador do primeiro andar sabe de suas obrigações básicas terrenas, mas não vê mais o mundo de forma superficial ou racional-materialista. O seu sentido de vida torna-se unicamente consciencial-espiritualista.

      As pessoas do térreo não vivem; elas sonambulam. Perseguem suas cenouras da "felicidade" penduradas em suas cabeças e acham que o sentido é esse. Mas há os moradores do subsolo que acreditam estar aqui para terem poder, luxúria e ostentação. Essas acham que a humanidade deve servi-las ou que os outros são meros objetos de uso, não importando a dor e o prejuízo alheio. Os subsolenses são mais do que sonâmbulos; são zumbis predadores em busca de perpetuação no prazer.

      Ainda que observar isso seja desagradável, galgar um andar acima é muito mais confortável e de certa forma um alívio. Não ficamos imunes aos ataques dos sonâmbulos e muito menos dos zumbis, pelo contrário, é aí que atraímos mais a atenção e a raiva deles. No entanto, vemos que não fazemos mais parte de um mundo tão robótico e obscuro. Ficamos mais sozinhos, porém mais lúcidos e libertos.
      
      E é exatamente essa lucidez o nosso instrumento de trabalho no Despertar. Não podemos acordar os sonâmbulos à força e no susto, mas podemos conduzi-los a um local propício para que possam acordar por si mesmos. Essa é a grande ironia do andar de cima: ajudar justamente aqueles que não nos compreendem e que muitas vezes nos hostilizam. Jogar pérolas aos porcos pode ser inútil, porém, jogar sementes sem esperar germinar deve ser o nosso dever.

      Viver no primeiro andar é, sim, desgastante. Mas quem já subiu as escadas não pode - e nem mesmo consegue - ser indiferente ao mundo cego e perdido. Talvez consigamos subir andares mais altos, somente quando auxiliarmos certo número de pessoas a transpor alguns degraus de sua consciência, de sua ética e de seus valores. 

      Morar na cobertura espiritual não é privilégio, dom ou sorte de ninguém. É, sim, destino inevitável a todos nós... Seja subindo de escadas ou de elevador.

      Eis a minha visão daqui da sacada.
      Eis a percepção de um primeiro andar consciencial.

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