O REAL DESPERTAR DA FORÇA
O Despertar Espiritual pode ser gradual ou não a um indivíduo.
Dependendo do "choque" de realidade, ele pode ser tão intenso a ponto de causar uma total integração da mente com a Consciência.
Mas em geral, o que ocorre com a maioria que desperta, é uma integração por etapas.
A cada desafio enfrentado em nosso caminhar, temos a oportunidade de galgar um novo patamar consciencial, nos tornando mais lúcidos, maduros, sábios e equilibrados.
O início do Despertar comumente acontece com o conhecimento de algum ensinamento espiritual genuíno, um livro filosófico ou uma informação impactante que nos liberta do modus operandi convencional do mundo.
Nossa mente de repente constata que funcionávamos de forma mecânica, condicionada ou artificial, e que nem sequer questionávamos esses padrões.
Passada a fase de constatação, adentramos em um processo mental de desconstrução de identidade, ou seja, nos desidentificamos com tudo aquilo que acreditávamos, fazíamos e vivíamos. É a fase mais conflituosa, pois nos vemos pela primeira vez sem os esteios ilusórios que antes nos apoiávamos. Nosso mundo fictício desmorona e junto dele, nossas relações, profissões, crenças e objetivos de vida.
Aquele que de verdade entra no processo de despertar vai aos poucos se apartando da mente coletiva, com seus grupos e dogmas. Ele vai saindo da massa com seus modismos, ideologias e tendências.
Como um descascar de uma cebola, ele vai abandonando camadas de conceitos formatados até se tornar um indivíduo autônomo em percepção e sabedoria. As camadas maiores seriam as instituições convencionais de ideias, e as menores as não-convencionais - porém todas camadas.
É um caminho que vai se tornando cada vez mais estreito e, portanto, solitário. Um caminho em que não há mais volta... porém há estagnação, quando existe apego a alguma "camada", por medo da solidão e da não-adequação social.
Essa integração gradual de Consciência não, necessariamente, traz sempre eventos bons, facilidades, alegrias e ganhos (materiais e afetivos). O que ela traz é a força, a sabedoria, o discernimento, o altruísmo e a natural pureza do ser que somos, para um viver benéfico conosco e com o meio. O fluir espiritual, na realidade, é a compreensão daquilo que é necessário ao nosso crescimento interno (até mesmo as dificuldades) e ao retorno à Essência. Bens materiais, pessoas e eventos surgem de acordo com o nosso real propósito de vida... no entanto, nem sempre sabemos o que de fato é importante a nós.
As dores - assim como as alegrias - sempre surgirão a todos nós. A diferença está na pessoa que sabe lidar com elas sem se deixar dominar pelos seus apelos. O não-sofrer com a dor que surge está em aceitar e compreender essa dor, sem qualquer julgamento ou identificação.
Pois no momento em que desejamos mudar de um estado para outro oposto, já sofremos, e assim, ficamos presos na estrutura mental, indo de um extremo ao outro como a um pêndulo. De início é útil a constatação da razão, mas a verdadeira mudança acontece naturalmente com o espírito desperto.
Não devemos medir nosso grau de elevação consciencial-espiritual com os eventos positivos e nem com as emoções positivas que nos vêm. Mas sim, com a compaixão e a aceitação que sentimos por nós, diante de eventos e emoções negativos. Essa aceitação de situações negativas não significa conformar-se com elas ou nada fazer, mas sim, compreender sua presença sem se identificar. É dessa forma que os insights vêm para, então, agirmos.
Pode parecer um desestimulante dizer que quanto mais despertos, mais desafios e "dificuldades" nos acontecem. Mas a verdade é que quanto mais despertos, mais fortes, poderosos e habilitados nos tornamos para enfrentarmos esses desafios. Por isso, enquanto a maioria ainda sofre em enfrentar crises menores, os que galgam níveis com maior grau de dificuldade, tornam-se líderes, orientadores e visionários.
As fases vão se tornando mais complexas, os obstáculos e adversários maiores, mas a sua soberania também cresce e a sua luz se torna mais abrangente.
Aquele que desperta espiritualmente de verdade não se condena por qualquer sofrimento que esteja passando, não se cobra e nem se critica. Ele não se culpa por sofrer, apenas compreende que está num processo de desenvolvimento e que logo irá se superar. Ao se aperceber disso, imediatamente sai do fluxo de pensamentos e emoções e, por conseguinte, do sofrer. Isso ocorre porque ele sai da mente, ou seja, se desidentifica dela, surgindo assim o amor ou a compaixão por si mesmo.
Quem se conscientizou de que não é mais a sua mente racional-emocional e não mais se dedica a alimentar seus desejos, já não "peca" por egoísmo e vaidade... mas apenas por desatenção.
O sério "buscador da Verdade" desiste de seus desejos pessoais egoicos, passando a seguir a Vontade do Coração, que sempre visa o bem, o amor verdadeiro, a paz, a harmonia, a justiça, a moral e a sabedoria. Essa Vontade de seu ser está sempre em consonância com o bem maior, portanto, sempre de acordo com seu bem-estar e equilíbrio individuais. É a mente egoica ou o Ego que pensa que sairá perdendo ao escutar a voz da sua alma ou Coração. Mas nunca poderá haver perda quando escutamos a Consciência e a Deus-Amor.
Já desejos pessoais e egoicos sempre causam conflitos, atritos, ódios, posse, controle, manipulação, carências, dependências e abusos. Promovem satisfações pessoais momentâneas, mas com o preço do sofrimento que nada mais é vazio, medo, frustração, raiva e inveja.
No Despertar Espiritual existem graus de integração com a Consciência.
Assim como os heróis da ficção que enfrentam seus desafios, perdem batalhas e se veem presos em alguma situação, eles estão sempre se superando e adquirindo mais poder. Essa é a vitória deles. Na vida real também somos heróis ao nos dedicarmos ao aprimoramento do ser. Não por ganhos ou méritos, mas pela natural vontade da alma de crescer e se libertar.
Aquele que sabe distinguir os desejos do Ego da vontade do Ser está num estágio avançado de desenvolvimento espiritual. Esse, já chegou no patamar da montanha, onde sua luz brilha, reverbera e eleva a Consciência da humanidade como um todo. Ele ainda erra e tem suas fraquezas, como todo herói, mas já não age instintivamente ou mecanicamente, pois tem disciplina e responsabilidade para manusear sua espada e ser exemplo.
O herói da Consciência desperta não esconde seus pontos fracos, não finge superioridade ou iluminação... pelo contrário, ele mostra a todos que é humano e tem dificuldades, mas que já cultiva em seu viver, de forma autêntica, a nobreza do espírito.
O reconhecimento real de um indivíduo desperto só pode ocorrer por alguém igualmente desperto... pois neles há cumplicidade de almas... não, de mentes e conceitos.



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