AS CORRENTES DA LIBERDADE
Foi disseminada uma mentalidade egocêntrica, travestida de liberdade e direito: "faça o que bem entender na vida, contanto que não me prejudique".
Eu já acreditei muito nessa máxima. Forçava a mim mesma a ser extremamente flexível e mente aberta. Sim, eu me forçava a ser algo contrário aos meus princípios intuitivos.
Não, que hoje eu seja a favor da censura impositiva da expressão das pessoas, com proibições através de um decreto. Mas acho, sim, que o protesto e a indignação aos limites ultrapassados do bom senso devam também ter o seu espaço e liberdade.
O problema é que o bom senso não é um senso comum à todos, pois cada um tem o seu grau de requinte ou depuração. Então, talvez por isso, com o pensamento voltado a uma "democracia", a maioria acredite que todos devam ter o direito de fazer o que bem querem, mesmo que fira a ética e o costume de uma cultura.
Mas será que não há um limite a essa "liberdade" que tanto as pessoas querem conquistar à força? É realmente justo, benéfico e construtivo achar que cada um tenha o direito de fazer o que bem entende com a sua vida, desconsiderando o todo ou o coletivo?
Até onde um comportamento é saudável e a partir de que ponto ele já é uma contaminação egoica e doentia a toda uma sociedade?
Não há como enxergar isso, se o indivíduo ainda vive através de seus instintos individualistas, suas dependências psicológicas ou de seus conceitos condicionados a preceitos. Isso porque sua visão está embaçada por ideias egocêntricas, revestidas de "altruísmo".
Será que realmente tudo vale e é permitido, mesmo que não nos influencie diretamente?
A Vida nos permite qualquer coisa, claro. Temos as ilusórias escolhas de fazermos o que achamos conveniente. Porém, o que ninguém enxerga é que uma ação nossa, mesmo que ela não tenha um efeito visível e direto aos outros, inconscientemente afeta suas vidas.
O que fazemos a nós mesmos cria uma atmosfera e repercute, positivamente ou negativamente, a todos ao redor.
Sou daquelas que acredita muito mais que um direito se conquista com o respeito e o exemplo grandioso de alguém (ou de um determinado grupo social). Não, que todas as conquistas sejam, necessariamente, pacíficas..., mas por detrás de uma luta justa deve haver princípios elevados. Pois fora disso, é apenas uma imposição autoritária ou uma culturalização insana.
É preciso admitir que a maior parte da humanidade é como uma criança ainda muito imatura e mal-criada. Para se educar uma criança devemos permitir que ela faça o que bem quer? Não deve existir limites a ela? Se ela bate no amiguinho, devemos lhe dar a liberdade de fazer isso? Se ela quer comer só doce, o dia todo, é certo deixar, com o pretexto de que a dor de barriga será exclusivamente dela?
As pessoas pensam que são maduras, mas elas só cresceram em tamanho e em suas funções sociais. O que ainda querem é se "satisfazer de doces" à vontade e ter o direito de "bater" em quem elas quiserem.
Só que essas crianças que querem seus desejos satisfeitos são apenas marionetes de sujeitos que também querem satisfazer os seus desejos; mas um desejo de poder e dominação.
Não é um poder político que deve limitar ou permitir as ações dessas crianças, mas a consciência elevada de um povo... Se a maioria do povo é essa criança mimada e birrenta, a sociedade decai; se a maioria do povo está mais maduro, sensato e responsável, a sociedade progride. Portanto, os mais sensatos devem se posicionar e não permitir que a mentalidade egoica e mimada se alastre aos mais suscetíveis.
A guerra no mundo é cultural, e por detrás dela há fatores morais e espirituais.
Enquanto nos isentarmos de fazermos parte dessa guerra, veremos a decadência ser vitoriosa. E mesmo que se queira evitar fazer parte disso, você já estará dentro, apoiando a sociedade adoentada e dando poder aos ignorantes, ao ser indiferente.
A mudança deve acontecer dentro de nós, mas quando mudamos de fato internamente, agimos também externamente, nos posicionando em altos valores diante de aberrações e absurdos.
A liberdade não deve estar acima da consciência ética e moral...
Pois a verdadeira liberdade está no desprendimento do que os instintos ditam como liberdade de ser e fazer.
Como escravos se humilham perante um tirano e o louvam, apesar de ele maltratá-los.
Sim, no interior do templo e nas sombras da cidadela, vi os mais livres entre vós usar a sua liberdade como uma corrente e um par de algemas.
E meu coração sangrou dentro de mim; pois vós só podereis ser livre quando o desejo de buscar a liberdade tornar-se uma canga e quando cessardes de falar de liberdade como um objetivo e uma meta a ser atingida.
Só sereis verdadeiramente livres, não, quando vossos dias não tiverem uma única preocupação, e vossas noites não tiverem uma única necessidade e uma tristeza;
mas quando estas coisas sujeitarem a vossa vida e mesmo assim vos elevardes sobre elas, sem vestes e sem amarras.
E como vos elevareis além de vossos dias e de vossas noites a não ser que quebreis as correntes que vós, na aurora do vosso conhecimento, amarrastes em torno do vosso meio-dia?
Na verdade, o que vós chamais de liberdade é a mais forte dessas correntes, apesar dos seus elos brilharem ao sol e ofuscarem vossos olhos.
O quê, além de fragmentos de vós mesmos, descartareis para que sejais livres?
Se for uma lei injusta que abolireis, esta lei foi escrita com vossa própria mão em vossa própria testa.
Não podeis apagá-la queimando vossos livros de lei, nem lavando a fronte dos vossos juízes, mesmo que derrameis o mar sobre elas.
E se é um déspota que destronareis, assegurai-vos que o seu trono, erigido dentro de vós, esteja destruído.
Pois como pode um tirano governar os livres e os orgulhosos, a não ser pela tirania de sua própria liberdade e pela vergonha de seu próprio orgulho?
E se é de uma preocupação que quereis livrar-vos, esta preocupação foi escolhida por vós, e não imposta a vós.
E se é um medo que quereis abandonar, este medo está em vosso coração e na mão dos que são temidos.
Verdadeiramente, todas as coisas movimentam-se em vosso ser em um abraço constante, o desejado e o odiado, o repugnante e o amado, o perseguido e aquilo que quereis fugir.
Estas coisas se movem dentro de vós como luzes e sombras, em pares que se unem.
E, portanto, quando vossa liberdade perder suas algemas, ela se tornará a algema de uma liberdade maior."
(Khalil Gibran - "O Profeta")



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