SUICÍDIO: FALTA DE SER
Acho que foi com uns 11 pra 12 anos que pensei em me suicidar.
A vida não tinha sentido algum pra mim. Eu me sentia estranha e era constantemente maltratada pelas crianças da rua, até parar definitivamente de brincar com elas e viver enclausurada em casa.
Mas o que me fez ter a vontade mesmo de acabar com a vida, foi um sofrimento afetivo. Eu gostava de um menino super popular na escola que só me esnobava e, vez ou outra, me ridicularizava. Fora isso, uma de minhas melhores amigas, sabendo de minha paixão, passa a gostar dele também, tendo mais sucesso na sua conquista. Se não fosse uma garotinha loira, considerada a mais bonita da escola, ter ficado com ele, essa "amiga" iria namorar o menino, sem peso algum na consciência.
Eu não queria mais viver, porém não tinha coragem de acabar com a minha vida. Não, por culpa, mas por medo da dor da morte, mesmo.
Ainda bem que fui covarde.
A paixão passou, tive outras mais. E, assim, fui crescendo com um vazio enorme em mim.
Pensando, agora, o que me salvou da depressão e das ideais de suicídio, após essa difícil fase inicial de adolescente, foi eu ter ido trabalhar no Japão. Sem querer passar a ideia de moralismo, dizendo que é o trabalho que dignifica, e que mente vazia é oficina do diabo... O que eu quero mostrar, na verdade, é que não foi o trabalho e nem o Japão que me salvaram, mas, sim, a minha individualização.
Enquanto garotas de 14 e 15 anos estavam sendo apenas garotas de 14 e 15 anos, estudando e seguindo o protocolo, eu era uma estrangeira ganhando o meu próprio dinheiro e tendo uma experiência que pouquíssimos tinham, de viver em outro país. Não é que eu ache errado seguir os ditames, na época escolar, mas apenas estou dizendo que no meu caso foi importantíssimo sair um pouco dos trilhos.
Posso ter perdido parte da minha adolescência, amadurecendo de forma muito abrupta, mas eu me sentia forte e de valor como um alguém diferente.
Talvez eu tenha sofrido muito mais lá do que se tivesse vivido uma vida comum no Brasil. Aqui, eu teria os meus dilemas de juventude, mas eu seria como todo mundo.
Ter saído dos padrões ou condicionamentos sociais fez fortalecer em mim uma identidade. Porém, não, uma identidade que quer se adequar, ser aceita, ser aclamada, ter prestígio; e sim, uma identidade que quer ser única, mesmo sendo rejeitada pela maioria.
É claro que eu não tinha consciência dessa identidade naquela época. Mas é fato que eu me sentia muito bem sendo diferente. Por mais que eu ainda tentasse me adaptar aos padrões, havia uma força em mim, me mostrando o tempo todo que o sentido estava em sair das tendências. E realmente: era o que me fazia internamente mais forte e confiante.
Eu não sabia, mas isso já era o início de um AUTOCONHECIMENTO.
Ainda que eu não tivesse qualquer conceito de espiritualidade ou filosofia de vida, eu já sentia o emergir de uma Consciência, que me faria cada vez mais singular.
Mas, em geral, as pessoas confundem singularidade com personalidade forte e marcante.
O mundo ensina as pessoas a desenvolverem o INDIVIDUALISMO, e não, a sua INDIVIDUALIDADE. Acham que ter características únicas de comportamento e aparência já fazem de um alguém, singular.
QUERER SER diferente para ser aceito e admirado é bem diferente de SER DIFERENTE e não se deixar esmorecer pelas reprovações da massa. Porque aquele que realmente é um diferencial no mundo, não é muito bem aceito pela maioria, tendo muito mais rejeição do que aprovação. O sujeito que é tido como diferente, mas é aclamado pela sociedade, geralmente é diferente apenas externamente, pois a mente funciona igual a todo senso comum.
Depressão e suicídio tem ligação direta com VAZIO EXISTENCIAL, ou seja, à falta de sentido na vida.
O problema é que as pessoas pensam que ter um sentido na vida é simplesmente ter um trabalho bom, do qual se goste e ganhe bem para se sustentar. Ou então, ter uma família, filhos e amigos.
Para a maioria, o sentido acaba sendo somente esse, não entendendo o porquê de ainda se sentir um vazio dentro de si.
Também não é a falta de Deus ou de uma religião. Longe disso.
Eu, como espiritualista, poderia dizer que é a falta de espiritualidade. Mas isso também seria superficial. Portanto, digo que não é isso.
Depressão ou falta de vontade em viver tem a ver com A FALTA DE VOCÊ.
MAS QUEM SERIA VOCÊ?
Você é essa personalidade adquirida com as experiências? Você é os seus conceitos, suas crenças, sua cultura, seus gostos, sua aparência, seus traumas, seus complexos?
Ou você de verdade está além de todas essas coisas passageiras?
O que é esse seu Coração e os sentimentos de empatia?
Onde está o seu altruísmo, sua honra, seu senso de justiça, sua humildade, sua coragem, sua integridade, sua moral, sua sabedoria e o seu autovalor que são você?
Não, seu autovalor não é autoestima, pois esta depende de qualidades e aprovações alheias. Autovalor é compaixão por si mesmo, que independe de qualidades e defeitos seus.
A compaixão não o julga, não o critica, não o condena... Pois ela compreende as suas limitações. Ela, no entanto, não as justifica, mas o acolhe nos momentos de dor e desamparo.
Essa compaixão não deve ser esperada de ninguém, além de si próprio. E ela só pode vir de dentro de cada um, da sua essência.
Eu poderia simplesmente ter dito que é Deus, a Espiritualidade, Cristo, Buda, Krishna que salva. Mas isso ainda é se basear em coisas externas; uma mera pregação.
O Ser ou a Consciência que somos é o que de fato nos faz ver um propósito maior de existência nesse mundo, e isso é independente de crer, pois está primordialmente ligada ao sentir.
E o propósito maior, com certeza, é nos descobrir, amar e espalhar sabedoria legítima e profunda aos outros. Eu disse espalhar SABEDORIA; não, preceitos e imposições.
Não estaremos livres das tristezas e dos desânimos nessa vida. Mas sendo Consciência e seres mais individuais, saberemos que tudo são ondas que vem e vão...
Basta apenas jogarmos nossas âncoras de autoconhecimento ao fundo do nosso ser, para não sermos mais arrastados por elas.



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