FELIZ ANIVERSÁRIO! ENVELHEÇO NA CIDADE


Dia 9 de julho fiz quarenta anos.

Um dia anterior ao meu aniversário pude visitar minha cidade natal: São Paulo.

É incrível como a Vida prepara as situações para que nos deparemos com símbolos, momentos e locais significativos a nós, desde a infância, justamente no momento de um fechar de ciclo de quatro décadas.

Fazia uns cinco anos que eu não a visitava. 

Cada vez que eu ia para São Paulo, após o meu retorno definitivo do Japão, menos vontade eu tinha de ficar lá. Era triste pra mim, pois eu amava - e amo - a minha cidade natal.

A sensação que eu tenho quando chego nela é extremamente dual. A impressão é de que ela está cada vez mais maltratada, descuidada, suja e explorada. Toda vez há um choque em mim, que me deixa indignada e melancólica. Mas outro sentimento surge também: uma nostalgia e uma estranha sensação de acolhimento.

Sim, por mais esquisito seja, sinto como se a cidade me reconhecesse e me recebesse de braços abertos, querendo matar as saudades de mim. Sampa, como carinhosamente a chamo, é uma mãe que se emociona e fica feliz quando um filho dela volta pra casa. Apesar de também sentir saudades, emoção e alegria ao revê-la, o que eu sinto, na verdade, é exatamente a alma da cidade se fundindo com a minha. Por isso digo sem receio que a sinto como a uma entidade com seus sentimentos.



Foi uma visita rápida, porém. E nessa visita ela pôde me mostrar a sua enfermidade. A mãe Sampa estava ficando paralítica com os inúmeros congestionamentos sem fim; estava com uma virose de gente que só aumentava e entupia seus canais respiratórios; e cada vez mais adquiria uma alergia que a deixava cheia de manchas pichadas em sua pele.

Havia partes do seu corpo sujos e muito visíveis a quem a conhece e vê pela primeira vez. Mas, como filha sua que sou, sabia que sua parte limpa, imponente e bonita encontrava-se mais ao centro do peito, no seu coração.

Ela, porém, me mostrou o seu lado culto, intelectual e científico, dessa vez. Me surpreendeu quando contou que, logo ao lado do quintal onde eu costumava ficar com ela (Ipiranga), tinha uma atração cheia de animais vindos do mundo todo. Talvez, não com tantos como tem hoje, mas o lugar já existia e eu nem sabia.

A vontade que eu tive foi de tentar salvar mãe Sampa da doença... Ela, na sua grandiosidade, importância, cultura e riqueza não merecia aquilo. Mas, eis que me abriu um sorriso e disse para não me preocupar, pois o que a fazia feliz era ver os seus filhos crescidos por dentro, espalhando amor e consciência pelo mundo afora.

Uma lágrima escorreu dos meus olhos e dos olhos dela. Mãe Sampa sabia que eu nunca mais voltaria a morar em seu colo, debaixo de suas asas. Mesmo assim, me abençoou e disse para eu continuar procurando o meu lugar.

Ao se despedir de mim, me parabenizou antecipadamente pelos meus quarenta anos e me presenteou com uma faixa escrita:

"Eterna e honorária filha de São Paulo".

Fui embora dela triste e feliz.



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