ONDE ESTÃO OS JUSTOS?


      Muitas pessoas não me compreendem, simplesmente porque estão acostumadas a enxergar somente o óbvio daquilo que a mente automaticamente julga. O óbvio que eu digo, é em relação a esse automatismo estereotipado das coisas.

      Quase não existe percepção mais ampla e minuciosa. O que existe é um critério baseado na simpatia ou na antipatia em relação a algo ou alguém.

      Há anos eu aponto para o fato de que a afinidade grupal - ou as chamadas "panelinhas" - estão sempre se sobrepondo à verdadeira justiça e ao discernimento do que é de valor. O ser humano é constantemente levado pelas suas paixões, exatamente porque se deixa conduzir muito mais pelas amizades, pelo grupo de crença ou por aqueles que simpatizam por ele (ou vice-versa), do que ter uma honesta reflexão para ver se o seu "oponente" está, ou não, sendo injustiçado.

      Eu não sei quanto aos outros, mas a mim é comum eu imaginar uma situação em que o meu maior "inimigo" (aquele que intencionalmente me fizesse mal) estivesse sendo maltratado e condenado por coisas que não tivesse culpa. Como eu reagiria? Ficaria satisfeita, pensando que ele, apesar de não ser culpado, merecesse aquele julgamento injusto? Ou defenderia a ele, porque a mim o que vale primordialmente é a verdade, e que o mal que me causou não justificaria essa condenação errada dos outros?

      Por mais que ainda possa existir ego e reações em mim, não consigo fazer vista grossa a qualquer tipo de injustiça, mesmo que tal pessoa injustiçada seja sem escrúpulos.

      Tenho certeza que muitos são levados a crer - mais por condicionamento da mente - de que se o mal (ou a injustiça) está ocorrendo com alguém é porque Deus ou a Vida está castigando ou retornando todo o mal que ele fez; e que portanto, tal injustiça, na verdade, é "justiça divina".

      Confesso ter bastante dúvida quanto a esse tipo de pensamento automático, pois aqui não estou falando de se receber o mal pelo mal que se faz, mas de se estar sendo julgado (maltratado ou condenado) por alguma coisa que NÃO SE FEZ.

      Tentar interpretar a justiça divina através dos nossos conceitos limitados é muito arriscado. Interpretar tudo aquilo que nos acontece como sendo totalmente justo e na medida perfeita, é cair novamente na ideia de culpa, castigo e punição.

      Muito do mal que nos ocorre não, necessariamente, quer dizer que fizemos algum mal a alguém. Pode, sim, muitas vezes significar que estávamos inconscientes, distraídos, no piloto automático, ingênuos, despreparados, confusos, vulneráveis... E, então, atraímos pessoas, energias ou seres negativos que simplesmente se aproveitam disso. O resultado positivo que tiramos dos revezes, é que nos tornamos mais conscientes e fortalecidos. Saber transformar dor em sabedoria não é pensar de forma simplista de que tudo está certo na nossa vida, mas atingir uma compreensão aprofundada de que é você que consegue TRANSCENDER O SOFRIMENTO, quando se abre ao Ser verdadeiro que é. 

      Comecei a questionar essa crença cristalizada do "MERECIMENTO", quando me deparei com "dedos acusadores espiritualizados" que diziam, como preceito estático, de que TUDO o que nos ocorre é por responsabilidade nossa. Se sofremos o mal é porque fizemos o mal; se atraímos coisas negativas é porque somos ou estamos negativos; se enxergamos algo ruim e falso nos outros é porque temos a mesmíssima atitude em nós... 

      Esse tipo de mentalidade formatada é que me fez começar a questionar veementemente todos os sistemas de crenças, principalmente os dos espiritualistas ditos "mente aberta".

      O que a grande maioria não vê é que geralmente se pega uma afirmação verdadeira e a transforma em VERDADE ABSOLUTA pra tudo. Uma afirmação verdadeira pode ser verdadeira em vários aspectos, mas haverá em outros, que não fará nenhum sentido.

      A injustiça constantemente nasce disso.

      O mal acontece com TODOS OS TIPOS DE PESSOAS - das mais espiritualmente ignorantes às mais santas e sábias. Se tudo fosse por merecimento, os maiores homens e mulheres sábios e altruístas desse planeta não sofreriam todo tipo de injustiça, ataque ou maledicência. A questão não é que eles não passavam por dor e dificuldades, mas, sim, que essas coisas não os abalavam por estarem totalmente entregues e centrados no espírito.

      A coisa da ressonância (energia e vibração), a mim, é uma realidade, mas nem sempre algo negativo nos acontece meramente porque estamos negativos ou fizemos o mal, mas porque a densidade obscura vibracional do meio reage violentamente à sua vibração de Luz, Verdade e Consciência.

      É aqui que eu volto à questão de a maioria enxergar só o óbvio das coisas e pessoas...

      A mente é extremamente autômata e superficial; ela acha que as coisas se definem num simples "preto ou branco". As pessoas pensam: se fulano tem sucesso, é admirado pelas pessoas, tem uma vida saudável, é bem-sucedido, tem muitos conhecimentos, então, ele é do bem. Ou senão: se fulano ajuda as pessoas, não fala mal de ninguém, passa informações que despertam a consciência, é desapegado, então, ele já é um mestre ou iluminado.

      O que quase ninguém percebe é que tudo isso ainda pode estar num nível artificial e dissimulado do Ego; não entendem a gravidade de que, ainda que o comportamento aparentemente seja bom e prestativo, o que está por trás é sempre vaidade, autoidolatria e interesses individualistas.

      A indiferença quanto à intenção verdadeira de alguém tornou-se corriqueira. O que importa a maioria é o que esse alguém faz, não, ao que ele realmente é. As pessoas só valorizam os fins, sem se preocuparem com o caráter por detrás da boa imagem. Mas isso acontece porque elas associam a índole pela sua imagem, não conseguindo ver os artifícios do Ego.

      Existe uma diferença fundamental em se ver a Essência (ou o Coração) em um indivíduo confuso, perdido, ingênuo, sem noção, ou cego, e ver a Essência (ou Coração) em um indivíduo que, apesar de internamente perdido e cego, se veste de uma imagem de sábio, bondoso, espiritualmente elevado, desapegado, sincero e honesto. A diferença e o perigo, é que esse último, leva muitas outras pessoas à ilusão, causando muito mais desorientação e estragos - ou seja, o Coração está soterrado, não por uma só camada de Ego, mas de duas ou mais.

      O julgamento de bom ou ruim, benéfico ou prejudicial, acabou se tornando uma confusão em que quase ninguém mais consegue discernir o que realmente é válido. Como sempre tento esclarecer, não é exigir perfeição de ninguém ou uma especie de santidade; o problema não é ter falhas... O problema, no caso, é todo mundo valorizar somente o resultado e aquilo que um indivíduo faz aos outros, desconsiderando seus padrões egoicos, em que, inclusive, faz questão de transformar em virtudes ou qualidades.

      Se uma pessoa me fez algum favor, me ajudou em algum aspecto, tem o mesmo conceito que o meu, porém age de forma narcisista, duvidosa, imoral e arrogante, farei vista grossa a essas características? Serei uma simpatizante incondicional dela só porque acho que ela me fez um "bem"? Dane-se sua conduta moral, pois o que importa é o que ela fez ou faz a mim? Lembrando que ter gratidão não faz isentar as falhas e os enganos dos outros. "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". 

      A justiça deve estar sempre acima de nossas simpatias ou aversões. Apoiar pessoas ou grupos, única e exclusivamente, por preferências, desprezando suas condutas e seus conceitos deturpados, é estar constantemente contra a Verdade e a Sabedoria. É por isso que eu tenho muito mais afinidade com alguém pela sua força de caráter e moral, do que pelos seus conceitos e opiniões, propriamente ditos. Em contrapartida, um alguém que tenha os mesmos conceitos que os meus, e que seja gentil e agradável, pode ter um caráter duvidoso... Minha balança sempre pesará mais para o que é mais profundo. E o que é mais profundo: o conceito ou a moral da alma?

      Na maior parte das vezes, exatamente por causa de suas simpatias e preferências, as pessoas não enxergam a sutileza do falso. Olham apenas para a imagem de um sujeito e dela já fazem uma análise, conseguindo transformar qualquer distorção em "filosofias espiritualistas". Como sempre gosto de citar, os famosos clichês são: "O Amor é livre", "Viva somente no aqui e o agora", "Casamento é prisão", "O humano não ama", "Ser frio é ser espiritual", "Ter sentimento afetivo (paixão) é doença", "O mal não existe", "Só existe egoísmo no ser humano", "Aquilo que você julga dos outros é o seu próprio reflexo", etc.

      Afirmações que em certas perspectivas são verdadeiras acabam sendo usadas para conveniências ou fuga do Ego. A tradução das frases acima seria: "Faça sexo à torta e direita", "Viva de forma inconsequente e aproveite o agora", "Lealdade e compromisso são imposições", "É impossível ao humano amar de verdade", "Ser espiritualmente elevado é ser indiferente", "Ter sentimentos amorosos por um alguém é ilusão", "O egoísmo não existe", "Só o ser humano em todo o Universo é maldoso e interesseiro", "O mal e a imoralidade que o outro comete não podem ser alertados por você".

      Poucos são os que enxergam as distorções que o Ego de muitas pessoas (ou de seres mal-intencionados) pregam como verdades. Mas isso porque a afinidade e a confraternização falam mais alto que a Consciência e a Justiça.

      E assim, a humanidade vai se deixando levar por mentes doentias e astutas, com imagem de bem-feitores conscienciais.

     

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