A CULTURA DO EGO PASSIVO-AGRESSIVO
Existe uma história Jataka - cujo tema é sempre uma vida anterior do Buda - em que se dá em uma passagem dele no inferno:
"O guarda responsável pelos presos do inferno não tinha qualquer compaixão. Ele carregava um grande forcado e, sempre que alguém fazia alguma coisa errada, o enfiava no peito da pessoa. Embora os presos sofressem muito com o tratamento que recebiam, não podiam morrer. Este era o castigo deles. Eles sofriam, mas não morriam.
Certo dia foram forçados a carregar cargas pesadas nas costas. O guarda, com o forcado em punho, começou a pressioná-los para que andassem mais rápido. O Buda (nessa encarnação anterior) percebeu que um dos presos não estava conseguindo acompanhar os outros e que o guarda estava começando a implicar com ele, ameaçando-o com o forcado para que apressasse o passo. Naquele momento, algo nasceu no Buda. Ele teve vontade de intervir, de enfrentar o guarda, mesmo sabendo que este se voltaria contra ele. Se essa intervenção resultasse em mais sofrimento ou até mesmo em sua morte, ele a teria praticado de bom grado.
Corajosamente, então, se aproximou do guarda e perguntou: "Você não tem coração? Por que não dá a ele o tempo de que precisa para carregar a carga?" Ao ouvir essas palavras, o guarda cravou o forcado no peito de Buda, que morreu instantaneamente e renasceu como ser humano.
Foi preciso coragem para que Buda se erguesse de frente para o guarda, para favorecer um companheiro de prisão. Ele presenciou a injustiça, e, como resultado desse sofrimento, a compaixão brotou em seu coração. Sua intervenção nasceu da compaixão. Foi por isso que ele morreu imediatamente e nasceu como ser humano. A partir daí, o Buda passou a praticar, tornando-se, mais tarde, uma pessoa iluminada, um Buda. Como se vê, até mesmo o Buda - em uma das suas vidas pregressas - havia atingido o limite do sofrimento. Mas graças à compaixão que nasceu no seu coração, ele foi capaz de se libertar da situação que se encontrava."
(Trecho do livro "Sinta-se livre onde você estiver" de Thich Nhat Hanh)
É interessante, mas sempre quando percebo algo ou alguém sendo injustiçado, geralmente no começo tento ser amena. Muitas vezes fico calada, e outras eu tento alertar o erro, sendo generosa em achar que aquele que o está cometendo apenas não está muito atento. É como se, inconscientemente, eu desse alguns toques leves... Dou o primeiro, depois o segundo, até o terceiro eu consigo dar...
Mas o fato é que isso não adianta nada. As pessoas continuam a ser injustas e cruéis eternamente.
Até que num surto desenfreado e inconsequente de injustiças da pessoa, eu realmente não consigo ficar omissa. É algo de minha natureza deflagrar as falsidades e os abusos dos outros.
Vejo claramente, por todos os cantos, as pessoas sendo desonestas. É incrível como a maioria não enxerga que a desonestidade vem de camadas muito mais sutis; não, somente da ganância e da corrupção que vemos tão facilmente por aí.
Existe, sim, muita falha em mim, mas uma coisa é certa: há muitas coisas pelas quais eu brigo que não têm relação alguma em DEFENDER uma opinião particular minha. Minha indignação é pela distorção dos fatos que a maioria não percebe, não faz nada e, principalmente, acredita.
Há um condicionamento muito forte, do qual venho notando, que é a condenação automática àquele que age de forma mais dura. É como se só o fato de estar agindo agressivo já fosse errado e ponto final. Em geral, todo mundo acha que é pecado ser contundente; que é preciso sempre "ficar na sua".
Antes eu achava que isso fosse um padrão só dos meus pais - o de nem sequer escutar ou tentar entender as razões de quem reage -, pois a eles, não importa o quanto você fosse humilhado ou moralmente violentado pelos outros, se sentisse raiva, você é que estava errado. Vejo, no entanto, que é um padrão geral.
Certa vez, um amigo japonês me contou que o seu colega de quarto na universidade era constantemente maltratado e até agredido por um grupo de estudantes ("ijimê" em japonês e "bullying" em inglês). Ele me disse que não fazia nada, pois se fizesse, o grupo se voltaria contra ele também. Aliás, esse era o comportamento geral dos estudantes japoneses: todos ficavam indiferentes e nada faziam. Lembro-me que quando ouvi aquilo me indignei e disse: "O quê?! Você não fazia nada?? Se fosse eu, com certeza enfrentaria os agressores, nem que saísse machucada e fosse perseguida por eles!" Aquilo deixou meu amigo admirado e, pelo que senti, envergonhado.
As pessoas, em sua maioria, se omitem para não gerar conflitos. Não é que eu seja a favor de brigas e discussões, onde cada um defende com unhas e dentes seus próprios interesses, crenças e conceitos. Claro que não. A questão é que ninguém mais diz nada - ou nem ao menos vê - quanto as injustiças, mentiras, sadismos, dissimulações e incoerências acontecendo o tempo todo. E ninguém falando ou fazendo nada, a inconsciência geral só vai se expandindo.
Outra situação que me lembro, da época em que trabalhava no Japão, foi que uma colega que era novata começou a achar que tinha o direito de mandar e desmandar em mim, como se eu fosse uma funcionária particular sua. Ela não tinha cargo superior e mesmo assim cismou que eu tinha que servi-la. Para acabar com aquela situação, eu decidi conversar educadamente com ela. Fui super honesta, tomando todo o cuidado para não ofendê-la, mas dizendo que não era serviço meu aquele a que ela estava exigindo de mim. O que aconteceu? A garota me compreendeu? Não. Ela simplesmente virou a cara e nunca mais quis falar comigo. Conclusão: grande parte das vezes não é nem o seu jeito de falar com alguém que fará com que ele o compreenda. A verdade por si só machuca e ninguém quer ouvir.
Criou-se uma aversão generalizada dos que "botam a boca no trombone" de forma direta e honesta. Muitos, eu vejo, querem evitar os confrontos, mas sem perceber tornam-se indivíduos "PASSIVOS-AGRESSIVOS", ou seja, não discutem com ninguém, não enfrentam ninguém, mas vão dando as indiretas ácidas, os cutucões inquisidores e os discursos belos, porém cheios de mágoa.
O "passivo-agressivo" está em quase todo mundo, pois ninguém quer dar "bandeira" de sua raiva. É mais fácil descontar, ridicularizando, humilhando, injustiçando de forma disfarçada como um mero comentário "inofensivo", uma opinião, uma piada ou uma comparação cruel e infeliz. (Sim, eu percebo claramente as comparações, sabia?).
Queremos paz e harmonia com todos, mas as indiretas correm soltas pela internet, com todo tipo de sarcasmo e alfinetadas raivosas.
Seria hipocrisia? Não sei... Pois acho realmente que as pessoas não percebem suas contradições camufladas de "boas intenções".
A Filosofia veio para me fazer cair uma ficha: a de que não se pode "queimar etapas" de elevação espiritual. Todo mundo quer tornar-se iluminado sem antes conseguir ser um herói. O herói é aquele que tem várias imperfeições, mas se entrega a valores superiores de honra, justiça e coragem. Não há como ser um deus, sem antes ser um Aquiles. Não há como alcançar o Amor, se não sacrificamos a nossa imagem de "boa pessoa" em prol de defender o bem maior. "Dar a outra face" não é deixar que os outros o abusem, mas se pôr à disposição de enfrentar o que for pela Verdade.
Assim como Buda, em uma de suas supostas vidas passadas, enfrentou o guarda cruel, mesmo sabendo que seria agredido... E devido à sua coragem e compaixão, morreu para renascer (mais) humano.





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