DESMISTIFICANDO O MISTICISMO
Daqui do andar onde me encontro, vai ficando cada vez mais impossível eu me encaixar e me rotular de alguma coisa, no que consiste o espiritual.
E ainda que eu tenha trilhado muitos caminhos - em grande parte, esotéricos -, já não existe qualquer definição do que eu seja, pois nesse ponto tudo passa a ser degraus passados. Tudo vai se tornando pequeno...
Talvez por ter descoberto o esoterismo aos meus dezesseis anos, nunca segui uma única doutrina religiosa. Nunca me considerei espírita, cristã, budista, taoista, etc. Eu, na minha procura por uma definição, acabei me intitulando como "mística". Até porque minhas amigas assim me consideravam.
Mas apesar do meu interesse sobre os mistérios antigos, sobre assuntos de planos espirituais, sincronicidades, energias, almas, seres de outras dimensões, e tudo o que adentra o mundo sobrenatural, eu me focava muito mais no desenvolvimento do ser e na purificação, do que em ritualísticas ou manipulações de energias. Tanto é que sempre me considerava leiga nesse meio.
Para se ter uma ideia, eu só vim a conhecer o que eram chakras, mantras, projeção astral, kundalini, reiki, radiestesia e tal, há cinco anos atrás, quando entrei num curso de terapias holísticas.
No entanto, me rotulava como "esotérica" muito mais porque eu tinha acesso frequente a esses tipos de informações e não me encaixava em nenhuma religião específica.
Por que eu não me encaixava em nenhuma religião?
Simplesmente porque conseguia ver a essência, a Verdade e a beleza em vários mestres espirituais, sem ao menos ter uma preferência discrepante em relação a um deles - como acontece com a maioria que tem uma. O que eu amava neles não era as suas personalidades, ainda que cativantes, mas, sim, a sabedoria de cada um.
Fui uma "mística" porque estudei algumas práticas e alguns de seus conceitos, mas nunca porque eu de fato incorporei o "modo de vida esotérico". Talvez o único vestígio que ainda restou em mim do esoterismo seja a minha afinidade com os oráculos, a astrologia e todas as ferramentas de autoconhecimento que nele existam. Já a parte de meditar, ser vegetariana, fazer dança circular, cantar mantras, fazer yôga ou tai-chi... Essas coisas não fazem parte da minha vida, mesmo que possam ser saudáveis.
O esoterismo, hoje em dia, aponta mais para uma vida de "bem-estar" (ou mesmo aquisições) do que a uma profunda interiorização consciencial-espiritual. No passado, com as grandes escolas iniciáticas, o desenvolvimento do ser em direção ao Sagrado era bastante comum e o principal. Hoje, as pessoas só procuram resoluções pessoais de vida, profanando e mediocrizando os ensinamentos místicos.
O que a maioria leiga não entende é que o conhecimento ocultista abrange, tanto princípios de aprimoramento espiritual - como a simbologia que a transformação de chumbo em ouro representa -, como práticas de manipulação de energias e a comunicação com dimensões extrafísicas. (O poder dessa última, talvez, foi o que fez com que as práticas tivessem uma conotação ruim).
Assim como uma descoberta revolucionária científica pode nos trazer benefícios, se usada para fins egoístas pode nos trazer desgraças, como foi a bomba atômica. Isso acontece com qualquer tipo de conhecimento nas mãos erradas. Qualquer instrumento inventado para nos ajudar a progredir, também será distorcido e transformado em arma letal.
Foi exatamente o que aconteceu com o ocultismo.
Dizer que o ocultismo é o grande culpado das mazelas do mundo, é quase que dizer que existe o mal no dinheiro. Quem faz mau uso do dinheiro é o homem, assim como para consegui-lo.
Pessoas sem escrúpulos pegaram conhecimentos de poder, jogando os princípios, baseados na moral e na ética de escolas de iniciação, no lixo.
Isso aconteceu com todas as religiões institucionais (ou quase todas). Se de início, todas as filosofias tiveram sua pureza, com o passar do tempo foram manipuladas para o controle de alguns.
Pessoalmente, nunca vi com bons olhos as manipulações energéticas (magia) para a obtenção de vantagens. Fui testemunha prática, já que eu adentrei a esse mundo, de que tudo aquilo era um controle para fins do Ego. Tentar criar uma imantação de coisas ou situações através de rituais, objetos, criações mentais, sem qualquer purificação da Alma, a mim soava como "magia cinzenta". (Nota: magia negra são os pactos feitos com seres inferiores ou elementais para a realização dos desejos, em prejuízo de alguém). Aliás, quando há de fato uma purificação, não existe a vontade de manipular nada, e, sim, a de conhecer mais profundamente a si, se desapegar das coisas do mundo e confiar no fluxo da Vida.
Podemos utilizar ferramentas de autoconhecimento para equilibrar coisas internas em nós e, assim, fazer as energias fluírem de forma positiva e natural, mas grande parte dos esotéricos atuais vão direto aos fins, desconsiderando, escondendo ou disfarçando o seu aprisionamento ao Ego e seus desejos.
Se eu acredito que os grandes poderosos do planeta são ocultistas? Sim, acredito. Mas isso porque eles se aproveitaram de informações (poder) para uso individualista de controle das massas - associando-se também a seres espirituais (ou pra quem crê: extraterrestres) obscuros.
As práticas ocultistas originais ou primordiais estavam associadas a um desenvolvimento espiritual, mental-emocional e físico - por isso a razão dos simbolismos, arquétipos e geometria sagrada. Tudo vibra, tudo reverbera nos conectando ao superior, assim como a mentalização e a oração.
Uma imagem, um som, uma cor, um movimento... Tudo isso emite sinais e mensagens, mesmo que só captemos a nível subconsciente. Quando usados de forma correta, emitem coisas positivas; quando usados de forma distorcida, emitem coisas ruins. A suástica é um bom exemplo disso, já que foi uma inversão de um símbolo oriental sagrado. Pode ter acontecido com o "olho que tudo vê".
É preciso muito critério antes de apontarmos a raiz de algum mal, pois sem sabedoria geramos todo tipo de preconceito. O mal sempre foi, é e será o egoísmo de qualquer ser, já que até os ensinamentos dos mestres são utilizados para fins próprios de poder e dominação.
Eu não me classifico em nenhuma definição espiritualista, portanto não defendo bandeiras como a um time de futebol. Mas defendo em todas as situações, a justiça; não importa a qual seguimento se está sendo julgado injustamente.
Existem as filosofias por trás de várias tradições, mas existem também somente as práticas neutras que são somente como a instrumentos.
A prática esotérica foi separada da filosofia sagrada pelo domínio de mãos erradas.
O ocultismo, como a própria palavra diz, de princípio, foi oculta na intenção de evitar que isso acontecesse. Porém, o que aconteceu foi o contrário: indivíduos mal-intencionados se apossaram do conhecimento e o ocultaram pra que a massa pudesse ser manipulada.
Eu não sou defensora do esoterismo, pois vejo muito mal uso dele e a banalização estereotipada que ele virou - até caricata (!). Mas defendo suas origens bem-intencionadas, assim como a de muitas vertentes atuais, com o intuito de fazer-nos conhecer a nós mesmos, profundamente.
Não posso dizer nem mesmo que seja "espiritualista", pois isso ainda me limita num rótulo de estereótipos.
O que eu sou é espírito numa alma e num corpo em busca de "mim"...
Retornando ao lar, subindo os andares - me afastando cada vez mais das muletas.







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