O CAOS EVOLUTIVO
Talvez exista algo muito sutil que a maioria de nós ainda não esteja enxergando:
Os estereótipos.
Há na mentalidade humana uma formatação de ideias do que seja o modo ideal, perfeito e hegemônico de ser.
Se ainda estamos mergulhados numa mente racionalista ou materialista, o ideal é ser bem-sucedido, ter status, ter reputação, "troféus", aplausos e prestígio.
Mas se adentramos numa mente espiritualista, passamos a idealizar um modo certo e perfeito de ser. Formamos a imagem de um sábio ou iluminado como um alguém pacifista, indiferente e com um ar de "tô nem aí".
É nessa fase que nos confundimos muito, pois a imagem criada de um Ego é a de ser única e exclusivamente reativo - e a do Ser, dócil, ou então, frio. (O Ego também é omisso e autocensurador). Portanto se existe uma reação (ou ação) que seja para uma causa "revolucionária" de elevação de consciências, a mente "espiritual" condicionada enxergará somente como algo ruim.
É óbvio que a reação ainda é uma atitude baseada na personalidade, e não uma verdadeira ação do Ser. Mas será que toda reação do personagem é exatamente maléfica? (Já pude escrever num livro que a raiva é necessária em situações de abuso e perigo). Será que a Vida ou a Consciência Una não se utiliza indiretamente de certas atitudes inconscientes para gerar QUEBRAS DE PADRÕES?
Penso que muitos homens e mulheres estiveram neste mundo ajudando a elevar o padrão consciencial e vibratório em diversos pontos da humanidade, e que não eram exatamente um modelo ideal de humano. (Será que Jesus, em sua época, era considerado como um?). Não penso que tenha existido uma unanimidade em relação a todas as questões da vida. Existiram, sim, pessoas que apontaram ao cerne de todas essas questões - uns se aproximaram mais e outros um pouco menos, mas isso não importa; o que importa é que apontaram.
Mas o que eu tenho percebido no meio espiritualista é que se um alguém não demonstra ter o padrão dos monges, gurus indianos, santos imaculados, toda a Consciência, vivência e apontamento são jogados na lata do lixo. Ou senão, tende-se a ir ao outro extremo: a de ser completamente descrente de qualquer legado que homens e mulheres (além senso-comum) deixaram aqui na Terra, por não se acreditar em transcendência, altruísmo genuíno, amor e sabedoria no ser humano.
A mente condicionada é totalitária; ou seja, não sabe discernir, peneirar, ponderar, e absorver o essencial para o crescimento do ser. Não; ou ela rechaça tudo, ou ela abraça tudo.
Fico pensando nos grandes filósofos que estiveram por aqui e provocaram questionamentos onde ninguém sequer conseguia olhar ou perceber... Sem querer justificar a mente conflituosa e pessoalista que, esses, na sua maioria tinham; mas só porque o tinham, toda a sua contribuição de questionamento deve ser desprezada?
As pessoas, em geral, refutam uma sacada, um insight, uma clareza de visão de um indivíduo, por uma inflexibilidade de olhar ou um mero preconceito. E isso não se encontra somente nos debates políticos e religiosos, mas em TUDO. Onde existir uma única discordância, já não haverá mais olhos e ouvidos para o que seja verdadeiro no outro.
Porém tenho consciência de que há casos em que um alguém ou grupo está tão mergulhado em apegos, rigidez e deturpações adquiridas, que não há mais a mínima condição de atenção. Nessas situações a melhor atitude é o distanciamento.
Como venho dizendo, a mente é separatista e só enxerga pontos isolados. Ela não consegue ver o ponto profundo em comum em superfícies diferentes, porque está presa em seus pré-julgamentos baseados num fundo cultural e psicológico.
Também observo os pioneiros e visionários que revolucionaram conceitos. Será que eles eram todos "certinhos", "zen", "equilibrados"? Não estou defendendo condutas imorais, criminosas e insanas de alguns que até deixaram suas obras - e nem condenando aqueles que eram mais corretos -, mas questionando se realmente há um padrão unânime de comportamento para se quebrar paradigmas a uma real elevação de consciência?
Confesso que não consigo entender bem, tanto a idolatria e a veneração por um indivíduo, quanto a total rejeição e o descrédito por alguém. Isso porque eu consigo enxergar o essencial e proveitoso em muita gente (quando genuíno), sem precisar colocar ninguém num pedestal. Talvez por isso mesmo é que eu não crie estereótipos de nada.
Contudo, na espiritualidade isso se agrava... Simplesmente porque as pessoas querem um santo ou iluminado para poderem seguir e aceitar tudo o que ele diz, já que elas não querem refletir ou perceber a si e a vida por elas mesmas.
Eu já estou percebendo e dizendo faz algum tempo que o momento atual é de IRMÃO PRA IRMÃO, DESPERTANTE PRA DESPERTANTE, juntos, de mãos dadas, ajudando um ao outro (mutuamente) a caminhar em frente... Não mais a relação "mestre-discípulo", ainda que essa tenha sido de muita ajuda às pessoas no passado. Porém, já não há mais como isso continuar. Sabe por quê? Exatamente porque isso aprisiona a maioria na dependência e no comodismo. Grande parte dos "buscadores" não consegue se desprender do mentor, não dando abertura ao verdadeiro mestre: o Ser.
Por isso elas se deixam levar por mentes (egoicas) de aparência, trejeitos, fala mansa de um "iluminado", sendo enganadas e contaminadas por crenças. Não procuram perceber e discernir por si só o que é benéfico, proveitoso e realmente integrador. A única coisa que conseguem é perceber o comportamento estereotipado dos gurus (ou entidades) e a partir disso concluir o que é "bom" e "verdadeiro".
Vale lembrar mais uma vez, no entanto, que enxergar esse fato não nos coloca no outro extremo, que é o de achar que TODO ensinamento é inútil e que TODOS os mestres eram uma farsa ou uns hipócritas. Percebe, novamente, a armadilha pendular do Ego? Há muitos falsos profetas, mas há também os autênticos sábios.
Minha sabedoria da Alma vem de eu ter a flexibilidade em ouvir qualquer tipo de pessoa ou conceito (da mais sábia até a mais leiga); e com isso alcançar a essência de algo que a Consciência Maior está me transmitindo. Dizem alguns que isso é ter uma mente intuitiva; outros, que é ter acesso à nossa mente abstrata (superior).
É essa mente abstrata que enxerga elevação onde ocorre o caos. Muitas coisas só se movimentam e se transformam através do encontro das diferenças, pois onde há hegemonia, há estagnação camuflada de paz e equilíbrio.
Eu sempre quis deixar claro que eu não ensino nada a ninguém: uma receita, uma metodologia, um modo exato de ser e fazer... (Ainda que o fato de haver "stalking" na minha vida, faça os outros pensarem que eu seja uma espécie de "guru"). O que eu percebi e venho percebendo cada vez mais é que o meu papel é o de provocar reflexões, mesmo que elas causem certo desconforto ao meio. Eu disse "percebo" porque não é algo premeditado que eu faça por querer (algum motivo de ganho). Não há um desejo calculado de fazer os outros questionarem as coisas por vaidade, mas uma vontade inata de apontar os pontos cegos, simplesmente por ver que são cegos.
Já pude fazer essa analogia, mas sempre procuro escrever para ficar claro: não apontar o falso é como me isentar de socorrer uma vítima de um acidente (ou de deixar um alguém cair no buraco que eu enxergo). E o que eu fiz quase sempre na vida foi o de me isentar. Porém tenho consciência que ainda caio em total inconsciência (rima irônica) e reajo quando "tomo as dores dos outros". Mas isso porque a "dor que eu tomo dos outros" é a "dor" de ver a separação por todos os lados que eu olho. Isso, admito, me aflige (sei que é a mente, mas não me culpo ou condeno por isso). Consegue se imaginar como lúcido e são (não-partidarista) dentro de um sanatório com pessoas fragmentadas? (Sem tom pejorativo na palavra "sanatório" - é só uma comparação do sentimento que há).
Muitos não compreendem essa visão que eu tenho e muito menos a atitude que me vem, achando que é uma utopia infantil de querer "unir a humanidade" ou de impor o que vejo. Eu não desejo unir ninguém exatamente, mas há quase um impulso em mim de apontar e QUESTIONAR O PORQUÊ de todo mundo estar se separando em partidarismos, pois no fundo ninguém sabe o motivo. E olha que esses partidarismos muitas vezes são muito sutis e imperceptíveis às pessoas por serem "espirituais" - confunde-se fraternidade e unicidade com posicionamento amoral. Pois é sutil o autocontrole do ego espiritualizado em querer parecer espiritualizado e nobre. E nessa de querer parecer, cria-se artificialmente um comportamento frio, indiferente, isento, sem posicionamento moral (discernimento de Alma), e "sem emoção".
"Coincidentemente", pessoas e palavras me vem para fortalecer a Consciência exatamente no momento em que projeções conceituais do coletivo estão sendo criadas pelos estereótipos de ser "ideais", me fazendo lembrar que o Universo se expande não de forma passiva e nem sempre organizada. As explosões ocorrem, estrelas morrem e a vida acontece nesse vai e vem. "O criativo nasce de energias emocionais (primariamente caóticas) bem canalizadas" me comunica Algo Maior. (Até mesmo das negativas).
A vontade do Ser é a de "se expandir" nessa mente limitada. E essa expansão não será em paz e harmonia como muitos creem. Por isso não vejo essa observação como justificativa dos conflitos, mas como uma constatação de um fato, que não julga isso de certo ou errado; não defende ou critica. Apenas vê o fato e transcende.
Há a compreensão de que quando a INTENÇÃO de elucidar não é pessoal, não tem o desejo de se promover, não quer causar o caos pelo caos, não é de imposição e autoafirmação - mas sim o de provocar reflexões e quebras de conceitos estabelecidos -, nada se torna em vão e algumas sementes, então, germinam...
Mesmo que essas sementes demorem pra brotar ou estejam do outro lado do mundo:
A energia da "bomba consciencial" reverbera no Cosmo... E um dia a casca dos estereótipos se quebram.




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