BUDA CONVENIENTE



      É bem verdade que eu nunca pertenci a nenhuma religião, no entanto, desde muito nova fui extremamente espiritual.

      Espiritual no sentido de LIGAÇÃO com a minha alma - sem entrar no âmbito da mediunidade... Ou seja, uma forte ligação com a voz do Coração.

      Mas mesmo eu não estudando ou pertencendo a nenhuma crença institucionalizada, é como se em um breve contato com uma dessas crenças espirituais, eu captasse o mais profundo e essencial dela. Posso desconhecer qualquer preceito religioso, não saber nada das escrituras sagradas, mas compreendo o significado principal e sintetizado do que uma filosofia está tentando passar.

      Como consigo, eu não sei dizer. Só sei dizer que há uma natural ressonância dentro de mim com tudo o que é puro, fazendo com que o falso ou as superficialidades caiam gradualmente.

      Nosso maior erro é captar aquilo que é verdadeiro e achar que TODO conceito de uma crença ou visão de vida também o é. Isso é o que chamamos de CREDIBILIDADE AUTOMÁTICA. Assim como a maioria, eu também já fui hipnotizada por ideias errôneas, sem nenhum questionamento, quando ainda não tinha autonomia consciencial. Contudo, isso ocorre justamente porque enxergamos algo profundamente verdadeiro, e que por sua causa, ingenuamente pensamos o mesmo de todo resto do conceito ou comportamento de alguém.

      Os grandes mestres espirituais, porém, vieram e nos passaram o essencial, mas no decorrer dos tempos, a mente humana foi deturpando cada vez mais os seus ensinamentos. Cada indivíduo interpreta de acordo com o que a sua consciência alcança e, principalmente, com aquilo que mais lhe convém. 

      Minha mente abstrata fica observando as inúmeras interpretações que as pessoas, aqui no ocidente, fazem das filosofias orientais. E confesso que ainda não consegui entender aquilo que elas entendem delas. (Já que é totalmente incoerente). 

      É extremamente triste constatar que a filosofia oriental é usada de forma distorcida, no intuito de confrontar as ideias cristãs. Na intenção de se sair da dualidade, pegam o taoismo ou o budismo para a isenção do mal (ou ilusório) em si, nos outros e no mundo. 

      Por mais que os orientais não disseminem a ideia de DEUS X DIABO, BEM X MAL, ANJOS X DEMÔNIOS, como na visão bíblica cristã, eles batem na tecla da VERDADE X ILUSÃO. E o que seria a Verdade a eles? E Ilusão?

      Tudo o que nos faz sofrer (incluindo a obsessão pelo prazer) e que nos afasta da Compaixão é ILUSÃO. Tudo o que nos transcende da dor e do prazer e nos integra à Compaixão é VERDADE. A identificação cega e ferrenha (inconsciência) com o Ego é ILUSÃO. O desapego desse Ego e o descobrimento (consciência) do nosso Ser é VERDADE. A transitoriedade é ILUSÃO. A incondicionalidade é VERDADE.

      Enxergar a vida como um mar de ilusões do qual temos que nos retirar, através da Consciência, nunca significou NÃO CONSTATAR OS FATOS como eles se apresentam, como por exemplo: a de que a Ilusão é o mal de todo ser. Um indivíduo comete atos ruins, prejudiciais ou maldosos porque está ADORMECIDO para a Verdade (Deus-Amor). É a ilusão que afasta um sujeito da Essência Pura que está potencialmente dentro de cada um de nós.

      Dizer que a dualidade é Ilusão, não quer dizer que o negativo em si deva ser visto como positivo, MAS, SIM, QUE A VERDADE TRANSCENDE O BEM E O MAL CRIADO CONCEITUALMENTE PELA MENTE RACIONAL HUMANA. Retirar lições positivas das situações negativas é bem diferente de transformar uma coisa em outra.

      Transcender o bem e o mal do conceito humano seria conhecer o sentimento da Verdade em nós, que é o natural estado de ser, vivenciado no Amor, na Sabedoria e na Consciência. Portanto, o DESAPEGO AOS DESEJOS (ilusão) é tão salientado por eles, orientais, pra que se descubra a Verdade.

      Os orientais não falam de Deus como indivíduo antropomórfico, mas como a Fonte de tudo, o incomensurável... Eles não falam de Satanás, mas com toda certeza falam de espíritos malignos, demônios e entidades obscuras. 



      A observação das polaridades negativas e positivas existentes na vida e na natureza não devem ser confundidas com a MORAL-ESPIRITUAL do ser humano. Constatar que em tudo há energias positivas e negativas não tem relação alguma em sermos indiferentes ou neutros às condutas morais das pessoas (amoralidade). Yin e Yang se refere a energias; de forma alguma ao caráter: à ignorância ou à Consciência do indivíduo.

      Quando Buda não mencionava Deus em seus ensinamentos, isso nunca significou sua DESCRENÇA Nele. O simples fato de não mencioná-lo era justamente para não criar imagens ou projeções pessoalistas que impediam os indivíduos de descobrirem Deus (Verdade) dentro deles mesmos. Buda não ignorava o mal dos homens, apenas sabia que não era verdadeiro em nosso ser.

      Mas o que a maioria confunde, é que por se falar em Verdade ou Ilusão, pensa que se está a dizer que certas coisas EXISTEM ou NÃO EXISTEM. Verdade e Ilusão, na filosofia oriental, quer dizer que o falso existe como um "filme" - vemos a imagem projetada acontecendo, mas é só uma imagem, não a realidade do espirito. É preciso que acordemos dentro desse filme e passemos a nos ver como atores; ou seja, não mais identificados com os personagens. Compreender que todo o mal é uma hipnose NUNCA FOI CONDESCENDÊNCIA OU ISENÇÃO dele... Compreender que o mal é hipnose é compreender o mal como o não estar desperto para a Verdade (Deus-Amor).



      É preciso uma mente muito contemplativa e abstrata para entender a filosofia oriental. Pegá-la e distorcê-la é a coisa mais fácil do mundo, ainda mais para justificar comportamentos impróprios e hedonistas. Já tive a oportunidade de dizer isso e repito: como achar que o taoismo, budismo, ou qualquer outra filosofia do oriente prega o liberalismo moral, se o povo oriental é muito mais rígido em seu comportamento ético? De onde tiraram que a filosofia deles não faz distinção do benéfico e do maléfico na vida humana?
De onde tiraram que todo oriental é passivo, imparcial ou indiferente?

      Talvez por isso grande parte dos cristãos esteja se fechando cada vez mais à expansão de consciência e à interiorização do ser, idolatrando Jesus e demonizando Buda, Krishna, Lao Tse... 

      Mas a intenção dos manipuladores foi exatamente essa...

      Já que tudo o que nos liberta e nos potencializa espiritualmente é distorcido e difamado por essas mentes obscuras, ardilosas e, portanto, ignorantes.

      O egoísmo está em todos nós e é por isso que somos controlados por sujeitos ainda mais egoístas. Não é questão de "vitimismo", mas é questão de FATOS.

      E enxergar os fatos é verificar que a RESPONSABILIDADE é recíproca entre todos, já que um alimenta constantemente a inconsciência alheia e vice-versa, numa eterna roda de sansara.

      Só não venha se utilizar da cultura filosófica oriental para dizer que o mal ou entidades mal-intencionadas não existem.

      A Ilusão existe. E ela está nos destruindo por influenciação massiva da ignorância.


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