SISTEMA "LIVRE"


      Era uma vez, uma sociedade chamada "Sistema Livre", onde todos eram livres para fazer o que bem quisessem.

      Todas as drogas eram legalizadas, o álcool era livre a todas idades, assim como a pornografia e qualquer tipo de orgia.

      Se, inclusive, uma criança consentisse em ter relações sexuais com um adulto, era um direito dela, já que com quatro anos de idade, as crianças eram submetidas à intensa educação sexual e ao erotismo.

      Devido ao aumento progressivo da gravidez, até mesmo antes dos quatorze anos, o aborto era prática corriqueira no dia a dia, criando, assim, uma enorme ala médica especializada só nesse ramo e a fabricação em massa de inúmeros remédios abortivos.

      As drogas de todos os tipos eram consumidas diariamente, no café da manhã ou à noite. Elas proporcionavam muito pique, força e energia, sendo que também anestesiavam qualquer tipo de emoção, como a tristeza, a raiva, a culpa, a paixão e o amor afetivo. A única coisa que sentiam era um ânimo instintivo e estimulante que não permitia nenhuma insatisfação ou vazio existencial.

      Não existia mais a monogamia. O casamento era polígamo, consistindo na união de três a dez pessoas, incluindo jovens de no mínimo doze anos. Em uma família, seus membros eram compostos de: um marido e várias esposas; ou uma esposa e vários maridos; ou, o mais comum de todos, de vários homens e mulheres juntos, compartilhando entre si suas intimidades sexuais, inclusive os membros do mesmo gênero. Todos, então, tinham vários pais e várias mães, assim como inúmeros irmãos, com ou sem relação consanguínea. 

      A "moeda de troca" era baseada na popularidade ou reputação dos indivíduos, comércio, empresa, ou qualquer atividade profissional. Quanto mais "likes", visualizações de página e compartilhamento de suas peculiaridades, mais valores em números eram adicionados na conta. Pessoas eram propagandas ambulantes de si mesmas e outdoors de outras. E quanto mais populares fossem, mais patrocinadores importantes as promoviam.

      A regra de ouro era: "seja o mais integrado, útil, dinâmico possível ao Sistema Livre, que mais "liberdade" você obterá".

      Não existiam mais crimes de roubo, assalto e tráfico, pois todos tinham e faziam o que quisessem - contanto que participassem da Rede. Os crimes passionais eram passado, porque já não havia nenhum tipo de ligação afetiva ou sentimento amoroso que gerasse ciúmes. Todos eram de todos e, ao mesmo tempo, ninguém de ninguém. A cultura dizia que quanto mais livre sexualmente, mais amor um indivíduo doava a todos, de forma universal.

      No entanto, existiam ainda os homicídios, porém somente cometidos por psicopatas. Eles não eram presos, pois eram vistos como integrantes de uma ordem natural da Vida. A "Filosofia Una" - a religião única do Sistema Livre - dizia que eles tinham como missão ser instrumentos de justiça cármica. As vítimas dos psicopatas eram apenas devedoras de outras vidas passadas, portanto mereciam, como destino já determinado, sua morte violenta. Toda tragédia ou desgraça estava em sua plena ordem universal de amor.

      À margem do Sistema Livre, contudo, havia os sujeitos chamados de "reacionários". Dizia, a população, que eles eram contra os direitos de liberdade e ao progresso, sendo, assim, inimigos da Grande Rede do Sistema. Eles não eram presos, mas quase não tinham recursos por não terem a reputação e a aprovação de ninguém. Somente entre eles podiam obter "likes", mas era limitado, já que a pouca aceitação dos mais populares os permitia a um número baixo de avaliação. Tinham o pouco somente para a troca de alimentos, mas se caso algum grupo dos "reacionários" se rebelasse, era banido completamente da Grande Rede e do sistema de avaliação, ficando sem poder obter cotas de seus companheiros de afinidade. Assim, muitos já viviam de forma rústica e primitiva, comendo apenas aquilo que plantavam e colhiam. Sua filosofia de vida, na verdade, consistia em defender um modo de viver alicerçado na moral e na Consciência do Ser. Mas toda a sociedade taxava essa filosofia como demência e fanatismo espiritualista, por dizer que a verdadeira liberdade se encontrava no espírito.

      Havia uma espécie de Governo, mas ele era praticamente oculto, por ninguém sequer notá-lo. Sua função era de administrar a Grande Rede do Sistema Livre. Seus membros eram todos programadores e mentes brilhantes de informática, e eram os únicos que não dependiam de "likes", já que todos aprovavam o Sistema.

      Assim era a sociedade do Sistema Livre... Todos integrantes "livres" viviam em "paz" e "harmonia", tinham todos seus desejos realizados e eram muito "felizes". (Ênfase nas aspas). 

      FIM

      MORAL DA HISTÓRIA: Quanto mais o instinto humano é alimentado, menos sentimento e emoção natural humana ele tem. E sendo, nós, escravos dos nossos instintos, mais susceptíveis ao controle e à manipulação seremos. O homem (ou a mulher) livre é aquele(a) que está liberto(a) dos seus desejos.

      Fontes de inspiração da história:

      "Admirável Mundo Novo" - Aldous Huxley.
      "Black Mirror" - Charlie Brooker.
      Realidade moral-espiritual da atualidade.



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