A DITADURA DO BEM-VIVER


      Sempre tive o costume de ficar observando as pessoas pelas ruas ou quando estou tomando uma condução. É interessante que, por mais "autista" muitas vezes me sinta, reparo que, na verdade, a população em geral é que é fechada em seu próprio mundinho ordinário.

      Muito mais agora, cada um com seu smartphone, bitolado nas suas futilidades (ou não-futilidades). Eu, definitivamente, não consigo ser igual e fazer o mesmo. Sigo observando o "autismo" alheio.

      Mas, hoje, admito que não consegui ficar serena ao observar as pessoas. Talvez ande mais sensível ou sensitiva... Não sei. Só sei que as conversas banais, tão comuns de se ouvir, a mim causaram uma verdadeira angústia.

      Minha vontade foi descer do ônibus e sair correndo longe da muvuca. Eu não estava nem um pouco poética, vendo beleza e profundidade nas fofocas de Beltrana, e nem mesmo achando fofas as últimas novidades de Sicrano. Fiquei, ao contrário, sentindo uma enorme tristeza por constatar tamanha falta de sentido na vida daquelas pessoas.

      Elas, no entanto, não sentem essa falta de sentido. Talvez nunca sintam vazio existencial - pois se sentem, mal se apercebem, achando apenas ser um mau-humor comum e corriqueiro.

      Foi então que me perguntei: "Como as pessoas vão despertar suas consciências, se estão num nível tão primitivo dela? Como o mundo poderá se transformar? Como será a elas, caso comece de fato a aparição e a interação pública de seres de outros planetas?"
As pessoas não estão preparadas a uma mudança factual de realidade. 

      Senti como se estivesse literalmente em meio a uma multidão de sonâmbulos ou de pessoas hipnotizadas.




      Estar exclusivamente feliz e contente com nossas vidinhas pessoais, vendo um mundo tão degradante e artificial, seria um egocentrismo tremendo. Num nível personístico, podemos estar satisfeitos com nossas aquisições, posses, conquistas, profissão, família, amigos, etc. Não é errado sentir gratidão e estar contente por essas coisas. Porém quando nossa Consciência alcança um patamar mais amplo de ver e sentir a vida, automaticamente a tristeza e o cansaço humano coletivo batem em nós. Não é ingratidão, pessimismo ou negatividade... É integração maior com o todo - um sentimento de que a vida é muito mais. 

      Mas apesar do cansaço, já não é algo que nos deprime, no sentido de termos desespero ou ódio... Até podemos ter raiva, só que é uma raiva questionadora e conscientizadora; não exatamente uma revolta. 

      Acredito que não nos deprima mais porque já existe uma integração maior na Consciência, transformando tristeza, cansaço e raiva em Percepção Contemplativa.

      E ao percebermos as artificialidades do mundo, doamos conscientização aos outros; diferentemente daqueles que percebem, mas só reclamam ou culpam as autoridades e a "Deus". Enxergar as mazelas humanas e não se revoltar, é simplesmente estar conectado consigo mesmo e descobrir o seu papel aqui neste planeta; não há a necessidade de explicações e crenças baseadas em "provas e expiações" ou em "providência divina" para o mal que nos assola. Não há necessidade de teorias para se amar e aceitar a vida.

      É por isso que concordo com aqueles que veem a autoajuda como uma "furada". 

      Não tirando o mérito dos verdadeiros e sérios terapeutas que nos ajudam a enxergar e interpretar as emoções e a nos reequilibrar energeticamente e das pessoas que querem nos ajudar com toda boa intenção, porém vejo claramente que criou-se uma DITADURA DO BEM-VIVER no meio holístico e na Psicologia.

      Hoje há um nítido preconceito nesse meio em relação aos nossos naturais sentimentos considerados negativos - como os já citados: cansaço, raiva, tristeza, assim como o medo. A ditadura do bem-viver exige um estado permanente de satisfação humana que não existe - já que até os ditos seres iluminados tinham seus maus momentos.




      Mesmo que eu repita há anos que SOFRIMENTO É DIFERENTE DE DOR, dificilmente as pessoas conseguem diferenciá-los. Sofrimento é contrariedade ou fuga à dor; já a dor é o que ocorre inevitavelmente na vida, assim como o prazer. 

      A ditadura do bem-viver rotula aquele que assume seu natural estado de ser, de NEGATIVO ou desequilibrado, formando um exército de pessoas que se autodenominam "realizadas".

      Infelizmente, muitos se iludem de tal forma, que realmente chegam a pensar estar sempre plenos e felizes. E quando há um instante de mudança de humor, se punem ou punem os outros. Eles mesmos, inclusive, condenam a culpa, mas não percebem que ela vive em seu encalço, quando algo não sai de acordo com o que se queria. 

      Será que as pessoas estão conscientes da sutil diferença entre a co-criação e o controle sobre a vida? Creio que na maior parte, não.

      Alimentar emoções negativas é totalmente diferente de aceitá-la, quando acontece. Forçar-se a ver a vida de forma positiva não tem nada de natural e saudável. O enxergar um sentido positivo por trás de eventos ruins está além de criar automaticamente e artificialmente um otimismo. Pra se tirar sabedoria do que é negativo, é importante antes de tudo vivenciá-lo de Coração aberto. Ser "positivo" ainda faz parte de uma dualidade mental, pois é só a TRANSCENDÊNCIA que transforma o ruim em libertação e integração no Amor.

      Ser um "doutor da autoajuda" e formar uma reputação, com todo o seu prestígio na "área", é um veneno. Isso porque quem trabalha como "exemplo" de bem-estar, pra poder sustentar a imagem e a clientela, precisa mostrar-se sempre bem-realizado aos demais. E nos maus dias precisará fingir, interpretar ou se esconder de todos. 

      Pior ainda quando pessoas que trabalham no comércio da autoajuda não estão satisfeitas com sua própria vida pessoal... Pra que não sejam vistas como impostoras, passam a sustentar a vida fictícia anos e anos de suas vidas. Algumas levam isso até a morte, pela enorme estrutura construída e solidificada. 

      É por isso que descobrir e VIVER QUEM SE É DE VERDADE requer muita honestidade, humildade e coragem para abandonar o falso; principalmente uma base psíquica muito forte. Pois se perderá seguidores, admiradores, "amigos", apoios e até mesmo ganhos financeiros. 

      No entanto, sentirá liberdade e leveza. Sentirá satisfação e amor em apenas ser autêntico.

      Eu vejo a miséria do mundo, a mediocridade da população, a minha vida limitada, o meu propósito de vida não-realizado, a rejeição das pessoas à verdade profunda nelas... E com isso sinto tristeza e insatisfação. 

      E é exatamente essa minha insatisfação que me estimula e impulsiona a fazer a diferença na Terra.

      Agora me diz: onde está a negatividade nisso?

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