A CHEGADA DE SATURNO


      Uma coisa que percebo desde adolescente é o meu sentimento de não querer incomodar os outros, magoá-los ou envergonhá-los, sendo quem eu gostaria de ser.

      Eu sentia, na época, muita vontade de ser punk, de estilo meio gótico, mas sabia que isso iria alarmar e entristecer meus pais. Fui adotando, então, um jeito "invisível" de viver. 

      Tinha consciência de que era diferente, uma estranha no Sistema, mas fazia de tudo para parecer normal. Via as pessoas empenhadas em adotar todas as tendências da moda, e achava aquilo um absurdo. Isso porque quando era criança, um dos motivos de eu ter sofrido bullying, foi por eu não me vestir com roupas de marca ou ter o brinquedo "top" do momento. Não é que eu não embarcava na idiotice da moda, vez ou outra, mas parecia que sempre que isso ocorria, eu era muito mais rechaçada e humilhada por não ter o direito de fazer parte da "panelinha de elite" do bairro. Era um atrevimento eu querer estar à altura das patricinhas da rua.

      Fui crescendo e adotando um modo bem desleixado em me vestir, e o meu jeito de ser era o de não chamar a atenção de ninguém. Com dezesseis anos, o estilo dos adolescentes era o grunge, o que me fez sentir mais à vontade, pois refletia melhor o meu espírito. Era quase uma espécie de uniforme: calça jeans rasgada ou bailarina, baby look, camisa xadrez ou jaqueta amarrada na cintura, com um tênis preto. 

      No entanto, já com meus dezoito anos, fui ficando naturalmente mais vaidosa, me arrumando um pouco melhor. Só que o problema é que a maioria das minhas amigas ainda estava na onda grunge, me criticando e zombando por estar mais arrumada. Sentia-me um tanto policiada, já que se eu usasse uma pulseirinha de pedrinhas swaroviski, por exemplo, era taxada de "Paty". 

      Ninguém, exatamente, tinha culpa em me fazer sentir inadequada. Era eu que sempre estava "forasteira" de qualquer tendência grupal.

      Percebia que meu esforço de querer ser igual aos outros, era só por não querer me destacar e o de não contrariá-los; não, exatamente, o de querer admiração. Eu tentava ser diferente, sem que as pessoas notassem (e, incrivelmente, conseguia). A válvula de escape e o meu pretexto era a minha identidade esotérica. Todas as pessoas me viam como um alguém de estilo próprio diferente: a adolescente mística.

      Mas aquilo ainda era um personagem, pois o chamado espiritual que acontecia em mim, era muito maior e mais profundo do que um mero estilo e gosto pessoal. 

      Eu não encontrava ninguém como a mim, que sentia o que eu sentia. Procurava em instituições religiosas e esotéricas, e nada. Tanto é que numa escola iniciática gnóstica, praticamente fui expulsa, porque uma mulher, que era uma dos responsáveis da casa, observou minha empolgação quase fanática de iniciante, e na frente de todos os frequentadores, começou a me dar indiretas condenatórias e humilhantes. Lembro-me que um dos professores percebeu e, com dó de mim, chamou a atenção da colega. Analisando, agora, eu era aquela típica pessoa com síndrome do espectro autista que se empolga por um tema e não consegue parar de falar sobre ele. Era como se fosse um desabafo desesperado por pensar que ali encontraria indivíduos como eu, que me compreenderiam.

      O sentimento de inadequação se agravou quando fui morar no Japão. Lá, os colegas brasileiros eram todos de mentalidade fútil e materialista, além de competitivos e cruéis. Muitos, dos quais eu conhecia, me chamavam de (novamente o termo) "patricinha", mas, não, porque eu me vestia ou me portava como a uma, e sim porque simplesmente eu era paulistana - nascida e criada na capital. Havia um preconceito meio invejoso por lá, rotulando os paulistanos como "metidos" (vaidosos). Mas o que eu via, na verdade, era que os poucos paulistanos que encontrava, eram os mais flexíveis, mente aberta e não-bairristas, já que em Sampa há tudo quanto é tipo de gente. 

      Talvez pelo fato de eu namorar um rapaz, cuja origem era do interior de São Paulo, e por ele ter hábitos muito humildes e caipiras (nota: ele era sitiante), fui reprimindo e escondendo minha personalidade mais "cosmopolita" e despojada de ser. Não queira parecer superior a ele, no sentido de ser mais culta, estudada e viajada. Eu praticamente desaparecia como pessoa em qualquer lugar que fosse. 

      E minha vida foi assim, ainda que em altos e baixos, medíocre e invisível, até o dia do meu Despertar Espiritual da Consciência. Sem perceber muito, fui me assumindo como quem eu era de verdade, e isso foi chamando a atenção das pessoas na internet. 

      Nunca sequer poderia imaginar ter algum tipo de notoriedade. Nunca. Era algo impossível, na minha concepção. Todos ao meu redor sempre me achavam uma "ninguém", uma "morta-viva", uma insignificante... Por que achar, agora, que teria algum tipo de atenção e admiração? 

      Mas, conforme o tempo foi passando, eu fui entendendo... Eu tinha um dom oculto e desprezado, que foi se revelando junto com o meu Despertar: a escrita. Era como se o meu próprio autodescobrimento colocava naturalmente pra fora o meu verdadeiro potencial. 

      Não foi só a escrita que foi se revelando com a Consciência, mas um forte espírito de liderança. Só que uma liderança de inspiração; não, de comando ou ensino prático. Esse espírito veio com tanta força e radicalidade, que, sem querer, o olhar crítico e a língua afiada eram "tratores", arrasando quarteirões. Descobri, a pouco tempo, que no meu mapa astral, Saturno está no meio-do-céu junto com o signo de Leão, o que dá um poder muito forte e austero no campo social. Eu realmente sinto em mim como uma força extrema, da qual é preciso conduzi-la com rédeas firmes e controle. 

      A mudança de energias foi muito grande. Foi, na verdade, um baque. É como se você vivesse a vida toda como uma ovelha e de repente se descobrisse como a uma leoa; vivesse sempre como uma pomba e se descobrisse como a uma águia.

      E o tempo de processo dessa minha mudança é de apenas sete ou oito anos; ou seja, muito pouco tempo pra tamanha "incorporação" de energias. Ainda estou tentando equilibrar a Consciência Maior com o meu pequeno personagem, esse, sem status e valor social. 

      Quando, muitas vezes, critico e questiono a reputação ou a respeitabilidade social, é no sentido de que essas coisas geralmente encobrem o real potencial de alguém, este, sim, de grande importância na sociedade. Quantas pessoas não são realmente boas e competentes no que fazem, mas não há Coração ou algo profundamente genuíno nelas? Podem ser perfeitas na ação, mas não haverá Alma e doação sincera. Bom, e como a mim é fato que emitimos vibrações aos outros, o serviço bem feito e competente de alguém terá sua função, mas lhe passará um mal-estar inconsciente, posteriormente. Enquanto isso, o verdadeiro dom é reprimido e sufocado dentro de si. 

      O sucesso provindo de uma real vocação nossa é louvável, no entanto, o status e a reputação não devem ser o "cartão de visita" e o selo inquestionável de crédito, ficando acima do essencial. Em geral, confunde-se a vocação ou o potencial com meros ganhos e méritos. É preciso sabedoria e equilíbrio ao se discernir valores. Isso porque, muitas vezes o reconhecimento recebido nem sempre corresponde à verdadeira potencialidade de alguém; já que nossa sociedade se pauta e se baseia em aparências, propaganda midiática e modismos. Basta a mídia dizer que tal pessoa é um gênio, que a população automaticamente acaba considerando um.

      Muitos podem comparar essa minha suposta "ascensão" consciencial com um alguém que de repente é descoberto pelo seu talento e tem uma subida meteórica de sucesso. (Vide: artistas, atletas, escritores). O estresse traumático (ainda que por boas causas) é o mesmo, mas diria que é diferente em termos de função e FACILIDADES.

      Quem, em pouco tempo, se descobre com uma missão de vida na Terra, com o sentido espiritual de atuação, sente muito mais o peso da contrariedade e a ferocidade reativa do Sistema. Não é o mesmo que se descobrir como um gênio da música ou da tecnologia, coisas das quais o mundo quer, aprova e sente-se atraído. Não. A sociedade não dará brechas, oportunidades e muito menos incentivo a alguém que tenha a função de quebrar os paradigmas e o status quo do Sistema - a alguém que questione o modus operandi, a cultura vigente e a religião. Você terá que aceitar sua condição de viver sempre à margem dele... E quanto mais sensível, diferente e profundo for, mais dificuldade sentirá de fazer parte do mundo. 

      O caminho mais comum dos mais sensíveis e voltados à espiritualidade, é adotar o modo de viver mais alternativo, voltado às práticas mais saudáveis, às terapias e meditações. Não deixa de ser bom e melhor adaptável ao nosso ser, porém a função espiritual fica limitada ainda nos corpos ou camadas superficiais do humano, não alcançando a verdadeira integração com o Ser (Eu Superior). Nesse campo, o Sistema também conseguiu se apropriar para tentar nos colocar na fôrma.

      Pude estudar e vivenciar as várias terapias que nos ajudam incrivelmente em vários aspectos, incluindo o físico, emocional e mental (o que é imprescindível ao bem-estar). Conheci de perto o mundo da magia e dos poderes extrassensoriais de manipular energias e situações. Frequentei centros espíritas e fiz vários tipos de curas espirituais - o que acredito que me ajudou, em partes. Resumindo: vi e vivi um pouco de tudo, nisso que chamam de "espiritualização" e, finalmente cheguei à conclusão: sem o Ser (Verdade) nada serei. Posso ter tudo na vida, mas será tudo vazio.

      A profundidade a qual me encontro consciencialmente já não me permite mais procurar fora, a solução da vida. E ainda que não exista uma solução, propriamente dita, a factual constatação dos meus Despertares, já me faz sentir colaborando verdadeiramente a todo planeta. Talvez, por isso mesmo, eu não acredite em "soluções", mas, sim, muito mais em "sentido de se estar aqui".

      É claro que gostaria de estar mais atuante na disseminação da Consciência, mas vi que o meu assumir como alguém em despertamento, requer cuidado, paciência e sabedoria... Já que, sem prepotência alguma, sinto uma força muito poderosa emergir em mim. Se eu não tiver cuidado, e me expor livremente, poderei rapidamente ser impedida e até assassinada por mentes controladoras que combatem qualquer revelação revolucionária influente. E, hoje, sabemos que é muito comum essa prática. 

      Há algum tempo atrás, eu dizia que preferia me manter no anonimato às pessoas mais próximas para não causar atritos. Eu dizia que era preciso ter uma espécie de "disfarce", pra que não criássemos conflitos desnecessários. Contudo, um insight me veio, depois de algumas reflexões...

      Existe um momento da vida, no qual precisamos assumir o nosso papel no mundo. Ainda que não precisemos causar polêmicas no nosso dia a dia, é importante mostrar a todos quem você é (ou se "transformou") e a que veio. Talvez, sem perceber, no intuito de não entrar em controvérsias com minha família, parentes e conhecidos, eu, na verdade, me escondia completamente, assim como sempre fazia desde criança e adolescente. 

      Quase ninguém que me conhece pessoalmente sabe quem eu sou realmente, o que penso, sinto e vejo da vida. A eles, sou uma "fracassada", uma "perdedora" e uma "zé-ninguém" que sente inveja da vida estável e promissora que levam. 

      A essas pessoas, eu me sinto inferiorizada por não ter adquirido bens e nem uma profissão admirável... Como se eu quisesse ter a vidinha NORMÓTICA e medíocre do ganha-pão ou da sobrevivência que elas sentem tanto orgulho.

      Não, eu desde nova, nunca quis ter esse tipo de realização na vida... Desde nova eu simplesmente fugia de ser comum, ainda que disfarçasse muito bem e andasse mais ou menos nos trilhos. Eu nem sequer TENTEI ser uma pessoa ajustada ao padrão e ao mercado de trabalho. Nem sequer TENTEI fazer vestibular, me formar e ser mais uma "escrava de sucesso" no grande teatro Terra.

      Dizer essas coisas fere, ofende e irrita a mente coletiva, mas não tenho a intenção disso. Eu apenas quero ser a Consciência que sou, dizer o que enxergo, sinto e penso, sem mais me esconder e interpretar um "disfarce" para não ter que incomodar. 

      Não é medo do que as pessoas vão pensar de mim, que me impede de agir com mais contundência no meu dia a dia. (Já que vivi a vida inteira sendo taxada de "louca", "idiota", "insignificante", "irresponsável"). Mas é medo de magoar, ferir, fazer os outros se sentirem medíocres, frustrados, irritados, vazios, assim como entrar em confronto com mentes obtusas, que só dão razão, credibilidade e confiança na mídia, no Governo, nos políticos, nos especialistas, nas instituições, na indústria farmacêutica, etc. 

      Entretanto, é o preço que talvez eu tenha que pagar. "Quanto mais nos é dado, mais nos será cobrado". Lógico... Me assumirei, sem impor a minha visão a ninguém, mas me posicionando naquilo que eu acredito e sou.

      O sentimento de mudança já vinha acontecendo em mim, há alguns meses atrás. Eu tinha a certeza de que tudo iria mudar, pelas situações que estão chegando e que serão inevitáveis - até mesmo antes de ver as previsões astrológicas e o quanto o ano de 2017 irá abalar as estruturas. 

      Não é à toa que estou falando tanto em REVOLUÇÃO... Não é uma simples dedução, mas um real sentimento em mim. Ela virá com força, de todas as formas e em todas as áreas humanas. 

      Muitos castelos de cartas cairão...

      O Sol já vem surgindo no horizonte. (Ou seria Saturno?). 

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