REBELDE COM CAUSA



      O padrão mediano de pensamento, em geral, é que se uma pessoa não está ajustada à sociedade – com todo o discurso de que ela precisa ser “assim e assado” pra ser aceita – é porque ela está pensando e agindo erroneamente.

      “É preciso ser mais gentil!”; “É preciso ser mais amoroso!”; “É preciso pegar mais leve!”; “É preciso ser mais compreensivo!”; “É preciso ser mais simpático!”. Resumindo: é preciso ser mais máscara e menos você.

      Um alguém não pode se sentir um alienígena em meio aos outros e nem achar o mundo uma bosta. (Eu disse “mundo”, e não, “vida”). Cairão matando nele, sem ao menos ter a empatia de se colocar no seu lugar.

      Dirão, de forma superficial, que tal sujeito apenas se sente assim porque é um fracassado, não construiu nada na vida e porque não tem ambição pra se alcançar um futuro promissor. Numa visão materialista, sim, isso pode até ser verdadeiro... Mas numa visão transcendente não faz sentido algum, pois o fracasso como sujeito normótico é uma vitória, o não construir nada na vida é uma liberdade pra se seguir o seu real propósito, e o não ter ambição em relação ao futuro é ter confiança e paixão pelo seu presente (Verdade).

      Será que precisamos mesmo ser sociáveis com um mundo de indivíduos robotizados pela mente medíocre adquirida? Eu não preciso ser sociável; não tenho a intenção de ser bem aceita pelos outros; meu “papel” é a de ser verdadeira.

      No entanto, o que é SER VERDADEIRO? Seria simplesmente falar o que bem entende, ser franco e dane-se os outros? Claro que não – e eu nunca pensei dessa forma. Acho, sim, que a gentileza seja importante. Mas o que hoje é muito comum, é as pessoas tentarem ser gentis por puro medo da rejeição. O que a maioria quer é ter aprovação e popularidade, do que verdadeiramente ser generoso. (E lembrando que generosidade nem sempre se manifesta de forma gentil e afetuosa).

      Existe uma forma correta de conviver em pseudo-harmonia com os outros? Acredito que sim. Mas eu não tenho vontade alguma de viver de sorrisos amarelos e fazer pose de família Doriana.

      SER VERDADEIRO não é pôr pra fora todos nossos instintos egoicos ou nossos impulsos melindrosos... Não é não ter consideração pelas pessoas e querer ter a razão absoluta de tudo. SER VERDADEIRO é estar além de se querer ter aprovações e além de se querer ser franco... É renunciar sua boa imagem ou reputação em nome da Verdade que impulsiona, estimula, provoca e movimenta consciências, tão acomodadas no fácil e prático senso comum.

      Quem de fato está despertando a Consciência não se conforma mais com o modo superficial e mecânico de se enxergar as coisas. E isso não está ligado somente com assuntos espirituais e religiosos, MAS COM TUDO. Na religião, na espiritualidade, na política, na economia, na cultura, na educação, na filosofia, na ciência, na ufologia, na mídia, na saúde, na arte... Ou seja, em tudo. Não há mais espaço para O MAIS DO MESMO; é preciso um sério questionamento pra se elevar o nível de compreensão.

      Mas a população em geral não quer investigar, refletir, ponderar... Ela quer respostas prontas de acordo com aquilo que a faz sentir mais segura em sua zona de conforto.

      E assim caminha a humanidade, de mediocridade à mediocridade, pensando estar fazendo uma grande contribuição ao mundo. Não que não estejam contribuindo com algo, mas somente com a estagnação e a continuação da estrutura podre e capenga.

      É mais fácil ser cético, pois isso dá respeitabilidade e aplausos. É mais fácil aceitar tudo o que as autoridades nos dizem, pois não é preciso pensar por si próprio. É mais fácil ser bonzinho, gentil e camarada, pois isso traz aceitação, adequação e popularidade.

      Uma pessoa que já está cansada de todos esses artifícios calculistas do Ego, é que é a errada? Se ela honestamente manifesta uma insatisfação com o modus operandi social, diz que prefere morrer por uma causa verdadeira do que ser mais um normótico de sucesso, e não fica fingindo positivismo, alegrismos, pose e “bons modos” pra se ter uma imagem interessante, é porque não está agindo de forma certa e apropriada??

      Essa é a inversão de valores que ninguém enxerga ou quer enxergar.

      O sucesso que eu critico, não é o sucesso vindo de uma vocação real de alguém; pois esse é louvável. O falso sucesso social pregado por todos, além da tão comum obtenção de dinheiro, é a imagem de vencedor no mercado de trabalho, de grande lutador e competidor, de cidadão de respeito por ter construído família, propriedades, adquirido premiações, diplomas, fama, status de doutor, guru, etc.

      E quando se enxerga toda a falsidade e futilidade nessas coisas, é porque não se tem competência, estamos com inveja e revoltados com o mundo??

      Não há revolta com o mundo, mas há rebeldia em se fazer parte desse mundo tão sem sentido e falso. Rebeldia para sairmos do rebanho e retornarmos ao ser que verdadeiramente somos. Aí, sim, estaremos contribuindo com Deus-Verdade... Aí, sim, seremos seus anticorpos a curar todo o organismo doente.

      Rebelde que é rebelde incomodará, mas não necessariamente porque quer ser um incômodo, mas porque o fato de já estar vendo e vivendo além do falso ou medíocre é, em sua essência, um natural provocador de crises. O verdadeiro rebelde não desconsidera os outros, ainda que estes estejam hipnotizados. Ele não é um sangue-frio, indiferente e insensível, que diz que não está nem aí pro que as pessoas pensam... Ele dá ouvidos, sim, pro que os outros pensam, mas com a consciência de que muito do que pensam não é genuíno deles, mas sim de um condicionamento adquirido de outras mentes e de um padrão estabelecido pelo medo.

      É desconfortável ser um rebelde provocador? Sim, é desconfortável; porém, não, frustrante. O que frustra é querer “andar sempre nos trilhos” e ser aquilo que não se é, só para agradar ou aparentar superioridade de um ser imaculado.


      Porém não estou dizendo com isso que TODAS as pessoas tenham que ser provocadoras... Mas que é preciso ver além dos rótulos e das caixas se quiser encontrar a si.

      Talvez por eu ser assim tão rebelde-provocadora-questionadora muitos achem que eu viva em conflito no meu dia a dia, que eu não repare nas coisas belas e singelas, que eu seja uma mal-humorada e não me relacione com ninguém na vida. É óbvio que pensarão isso, porque a imagem que se criou pelos meus escritos, dá margem a essa visão, e eu não culpo ninguém (nem a mim mesma). Meu jeito de escrever insights, pensamentos, sentimentos e opiniões é de certa forma para causar certos impactos. Muitas vezes acontece sem eu mesma ter a intenção disso (por mais que todos duvidem). Então, assim, meus dizeres têm essa função dentro de algum propósito, e por isso muitas vezes choca e incomoda. Contudo, isso não significa que eu tenha essa energia de rebeldia 24 horas por dia... Que eu seja uma provocadora ambulante e que ninguém me ature.

      Ainda que, hoje em dia, a convivência com os outros tenha ficado bastante restrita, talvez mais por vontade minha, eu ainda consigo ser razoavelmente sociável e entrar na teatralidade das convenções. Evito ao máximo de manifestar minhas visões, porque sei que a ocasião não pede e as pessoas do meu convívio não estão preparadas para ouvi-las. Não é que eu mude o meu jeito de ser, ficando “puro amor” ou "condescendência", mas realmente não mostro o que enxergo de suas ilusões.

      Na internet, no entanto, todos estão expondo suas opiniões, já sabendo e esperando comentários. E mesmo não sendo a favor de ofensas, chacotas e xingamentos, seria ingenuidade achar que não existirão contrariedades.

      Andei reparando, só agora, que minhas opiniões contrárias – que eu chamo mais de questionamentos – não são exatamente pelo o que tal pessoa está afirmando, mas pela visão limitada, simplista e pré-julgadora sobre algo. O ser rebelde que sou sente inquietação ao ver um modo de pensar tão padronizado e taxativo... Mas não porque a pessoa é que tem esse tipo de visão pessoal realmente genuíno, e sim, porque ela pega uma crença cristalizada (por inúmeros fatores culturais), um decreto de alguma instituição ou autoridade respeitável, e passa pra frente aos seus inúmeros seguidores também condicionados, perpetuando uma limitada ideia ou modo de se ver determinado assunto.

      E como indivíduo que sou, se percebo algo normotizando (da palavra “normose”) e mediocrizando assuntos dos quais me interesso e sinto afinidade, vem a vontade rebelde de questionar e elevar o nível de entendimento deles.

      Mas aos olhos do mundo é errado... É ser revoltado, amargurado, infeliz, imaturo, antipático, Ego, reptiliano, involuído... Dar opinião ou questionar significa que você está “dominado pelo orgulho e egoísmo”. Afinal, um alguém tomado pela Consciência não age dessa forma, está acima de assuntos considerados do mundo, e tem a impessoalidade dos monges budistas e mestres hindus.

      Talvez eu já tenha explicado várias vezes, mas ninguém (ou quase ninguém) deu importância ou se deu conta... IMPESSOALIDADE não significa que você não terá mais pessoalidade ou uma personalidade; que não terá peculiaridades e idiossincrasias; gostos ou opiniões. (Ora, se até Osho tinha lá sua coleção de carros de luxo!). IMPESSOALIDADE significa que seu propósito maior de vida não será primordialmente para ganhos próprios e para uma autoafirmação narcisista. IMPESSOALIDADE significa que Algo Maior já nos conduz e está acima de interesses egocêntricos. Só isso. No entanto, não quer dizer que não tenhamos nossos gostos pessoais; que não possamos amar assuntos extraterrestres, gostar de oráculos e conhecimento esotérico, ser romantiquinha, gostar de desenho, e rock anos 80; como é o meu caso...

      Confesso que é cansativo viver e conviver em meio a mentes fechadas e inflexíveis. As pessoas dizem que não, mas elas estão o tempo todo criando formas ideais de ser. E, aqui, não estou dizendo que não haja o estado egoico e o estado verdadeiro e amoroso de ser... Existe. O que quero dizer é que a maioria ainda funciona num nível mental onde se é projetado uma forma certa de se agir e viver.

      É por essas e tantas que quando aparece um alguém, não somente parecido, mas idêntico a você, é que você cai na real e vem a confirmação de que “não se está tão louco(a) assim”. Claro... Porque se nos vemos sozinhos, nos interessando por coisas totalmente exóticas e taxadas de nonsense, e ao mesmo tempo mergulhados numa profunda e séria autodescoberta interna do Ser, mais e mais vamos achando que não tem finalidade alguma estarmos aqui. (Quem irá nos levar a sério?!)

      Não que eu seja CONTRA grupos de qualquer finalidade, pois o que sempre aponto é para a DEPENDÊNCIA e a reputação que nos aprisiona... Mas percebi que a maioria dos grupos (sem generalizar todos) só existam porque há uma formatação no modo de ver as coisas. E sem dizer que isso seja errado (pois os afins se atraem), é o motivo pelo qual eu nunca consegui me sentir compreendida e aceita pelas pessoas. Há sempre um componente meu que causa um conflito inconsciente nelas, assim como uma sensação de vácuo em mim.

      Ninguém é totalmente igual e ainda assim as pessoas se sentem identificadas com certos agrupamentos. No entanto, há pessoas que de tão vasto e eclético é o seu interesse, isso acaba as tornando bastante solitárias, causando uma instabilidade energética e consciencial no grupo que se possa encontrar.



      Nunca cheguei à situação atual de estar literalmente sem amigos ou namorado. Nunca. E mesmo que sempre fosse poucos amigos, tinha com quem compartilhar minhas ideias. Estou há dois anos sem nenhum amigo no meu convívio e isso a mim não é nenhuma tragédia. Se me acostumei? Não sei... Mas posso dizer que fiquei mais amiga de mim mesma, e meu mestre interno está muito mais forte. Talvez, hoje, ele seja o meu único amigo.

      Não me prendo à condição de solitária e de isolamento, como muitos podem pensar. Eu só não sinto necessidade, agora, de correr atrás de companhias só porque todo mundo diz que “É PRECISO TER AMIGOS OU NAMORADO”... “VOCÊ VAI FICAR PRA TITIA” (coisa que já sou)... “VAI ACABAR ENVELHECENDO SEM NINGUÉM, JOGADA NUM ASILO”, e etc. Estou aberta ao fluxo, só que o fluxo não está no momento me levando a essas coisas. “Amanhã” ou depois, eu não posso dizer...

      “Ah... Mas é preciso procurar, ir atrás, sair, conviver, ir pra balada, fazer um curso!” é o que todos dizem. Será? Eu já até fiz algumas dessas coisas... E? 

      É estranho, e geralmente as pessoas não acreditam, mas eu não sinto mais tristeza pela minha solidão. Fico totalmente de boa com ela, não significando que eu não sinta vontade de ter um companheiro e amigos. Uma coisa não contradiz a outra; de modo algum. Aí, dirão que estou indiferente porque convivo com meus pais... Isso não, necessariamente, me faz sentir menos sozinha, pois com ou sem eles, a solidão que sinto é a mesma, pois ela não é causada por falta de pessoas por perto, e sim, por incompreensão (ou menoscabo) dos outros pelo meu jeito de ser “perdedora”, estranha e “sossegada”.

      Minha relação com a solidão vem desde os quatro anos de idade. Talvez só agora eu tenha me entendido de vez com ela.

      Na visão da maioria, o isolamento é somente quando nos afastamos fisicamente dos outros, sendo que a mim é muito mais quando convivemos de perto com muitos e, mesmo assim, há um abismo nos separando. A sociedade em si é um amontoado de pessoas isoladas!! O domínio do Ego não permite que ninguém viva em real comunhão. É tudo fachada e sorrisos Colgate.

      Eu não tenho mais problema com solidão e nem tédio. Isso é fato. Deve ser por isso que eu não seja tão preocupada com a aprovação social ou com a minha imagem. Eu só quero ser a Consciência que sou, nessa personagem que eu aprendi a gostar e respeitar. Não sou mais apenas um mero personagem, como muitos são.

      E cada vez que meu Ser se revela, mais posso identificar meu semelhantes.

      Só o fato de olhar pra eles e ver o “meu próprio reflexo no espelho” me deixa alegre e emocionada... Constato mais ainda o quanto sou incrivelmente diferente, exótica, rebelde e verdadeira...

      E imprescindível ao mundo.

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