QUEM É O SEU DEUS?


      "Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro; ou será leal a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon". (Mateus 6:24)

      Antes dessa Consciência despertar em mim, eu não compreendia essa frase da Bíblia. Aliás, eu a considerava incabível nos dias atuais e uma mera falácia. Queria até usar o "nome de Buda em vão", tentando me convencer de que nisso também se aplicava o "Caminho do Meio"... Como todo mundo, eu também distorcia os ensinamentos para sentir segurança. Atingir um equilíbrio, nesse caso, não tem nada a ver em ter duas prioridades ao mesmo tempo como sentido de vida.

      Mas a Consciência veio e me trouxe o entendimento.

      Quem compreende o profundo significado de "não se servir dois senhores ao mesmo tempo" sabe que não se está condenando o material, dizendo que devemos todos ser pobres ou que o dinheiro não seja necessário em nosso mundo.

      O que a frase aponta, literalmente, é ao SERVIR; pois o servir significa que estamos a nos dedicar - de toda a nossa alma - a um objetivo.

      Se nossa dedicação é o dinheiro e o status, as coisas do espírito automaticamente serão colocadas em segundo (terceiro, quarto, quinto...) plano. Se a dedicação é o espírito, as coisas materiais também ficarão como secundárias. Não há possibilidade alguma de valorizarmos os dois juntos, como primordiais. E quando digo "valorizar" é ter algo pra si como SENTIDO DE VIVER.

      Necessitamos de coisas materiais, alimento, vestuário, abrigo, saúde, utensílios e tecnologia... No entanto, devido à mente em geral não conseguir enxergar o sentido das coisas, muitos acabam por acreditar que a espiritualidade rejeita e ignora todas as necessidades vitais humanas.

      Não, a espiritualidade não despreza o material. Ela apenas não hipervaloriza o seu papel. O não se dedicar a esses dois valores, por um se sobrepor ao outro, é no sentido de PROPÓSITO. Seu objetivo primário é ter dinheiro, sucesso, status, estabilidade, aceitação, comodismos, admiradores? Então o seu senhor é Mamon. Seu objetivo primário é elevar-se consciencialmente, libertar-se dos apegos do mundo, dedicar-se ao bem coletivo, ter seu dever cumprido como Alma, viver em Amor? Então seu senhor é Deus (Verdade).

      Dedicar-nos à Verdade não nos dará prestígio, mas nos trará o que for preciso. Poderá nos trazer reconhecimento e até prosperidade, mas a condição não deverá ser um entrave ao propósito maior. (Pois, caso for, o preço do vazio será caro, posteriormente).

      O problema é achar que a prosperidade é um indício de que estamos no caminho da Verdade, sendo que na maior parte da vezes é isso que faz as pessoas ESTAGNAREM no aprofundamento consciencial. Paralisam num estágio, perdendo-se de vez de si mesmos, fortalecendo ainda mais o Ego.

      O PRAZER, as boas sensações, as facilidades, a aprovação, os elogios, a imagem... Tudo isso acaba vencendo a "busca" daquilo que realmente somos como Ser-Consciência. Afinal de contas, a Verdade não nos oferece essas vantagens, somente a LIBERTAÇÃO psicológica delas - e com Ela a Paz e o Amor. Mas como comumente é dito: "Papo de gente velha!". O que vale à maioria é "aproveitar a vida" e nada mais.

      Entretanto, o que quase ninguém sabe é que a corrida desenfreada por satisfação - e todos seus entretenimentos - traz consigo o sofrimento, pois um não está separado do outro. Assim como, numa metáfora, a bebedeira traz um alívio momentâneo das mazelas, a ressaca estará à espera, no dia seguinte.

      Essa "bebida" ou "droga" vai trocando de nome... Até chegar na dose da "Espiritualidade". São várias garrafas espirituais e suas marcas, mas o efeito é o mesmo: o vício.

      Viciamos em crenças ou teorias que nos dão segurança e prazer. Não mais utilizamos o "religar" para encontrarmos o ser divino que somos, em nós; utilizamos o espiritualismo para a obtenção de alguma vantagem humana.

      Espiritualizar-se virou uma coisa profana. Hoje, espiritualizamos para termos boa condição financeira, afetiva, sexual, de aceitação social, fama e conveniências. Tudo, menos nos elevarmos consciencialmente. E o mais irônico de tudo, é que se não temos nenhuma dessas vantagens citadas, somos considerados sujeitos ignorantes, negativos ou sem Consciência. Somos rotulados como pessoas desequilibradas (mentalmente, energeticamente e espiritualmente). 

      É errado querer melhorar nossas condições de vida? Não. A questão é achar que a elevação consciencial e o aprofundamento de alma consiste em obter todas as condições mundanas resolvidas. 

      A Verdade ou a Consciência não traz a realização dos nossos desejos pessoais. Mas Ela traz as condições favoráveis pra que realizemos nossa missão na Terra. Por isso não creio de devamos passar necessidades; as oportunidades aparecem. Tampouco, acho que necessariamente tenha que ser um sucesso financeiro. O desejo da mente não corresponde ao desejo do Coração... Porém são poucos que conseguem discernir um do outro.

      Dos meus vinte aos meus trinta anos, acreditava que era preciso me resolver primeiro materialmente, para depois poder me dedicar à espiritualidade e à minha missão. O erro de avaliação me trouxe algumas vantagens, mas quem sabe, se eu pensasse como hoje, já não estaria fazendo aquilo que realmente vim fazer na vida? Talvez tivesse poupado tempo, energia e desenvolvido meu dom... Talvez eu não precisasse ter me submetido a atividades completamente fúteis ao real progresso humano.

      Alguns caminhos da espiritualidade tornaram-se como a essas atividades. Elas não visam um reequilíbrio para que tenhamos condições de nos centrar internamente. Elas visam um anestesiamento e uma adequação ao modus operandi do sistema. Fazem-nos acreditar que se nossa vida humana estiver bem-resolvida é porque somos seres incrivelmente evoluídos espiritualmente. 

      A verdadeira paz não provém de satisfações externas. A verdadeira paz independe de satisfações externas. Quando conseguimos vencer a valorização primordial que damos ao externo - ao material, físico, psicológico e intelectual - e passamos a valorizar o Ser e todas as virtudes inerentes dele, descobrimos, enfim, o que é a Bem-aventurança da vida. 

      A satisfação de se saber quem se é de verdade supera qualquer outra satisfação transitória. Não é a mesma sensação de prazer, mas é a sensação de sentir Amor e sentir-se amado(a). E exatamente por isso que qualquer dor e dificuldade tornam-se menor e muito mais fracas perto da imensidão daquilo que somos. É o valor exagerado que damos ao Ego e às suas aquisições que impede de sabermos O QUE REALMENTE SOMOS. 

      Eu sei, de certa forma, o que somos, e é por isso que não me dedico à construção de "castelos de areia". Sou criticada, desprezada, mal-falada, insultada, mas ainda prefiro ser um alguém "ninguém", podendo ser eu mesma. E ainda que, um dia, eu seja reconhecida socialmente, terei consciência de que não será isso que me fará uma pessoa realizada. O reconhecimento será utilizado em prol da Consciência e o seu alcance; e o dia que não o tiver, será aceito e compreendido. Isso porque a realização estará no dever a ser cumprido; não, na aprovação social. 

      Já me perguntei várias vezes do porquê eu não ter esses apegos de aprovação social e aquisições - ainda que não despreze os recursos necessários. Por mais que eu me entristeça pelo fato de minha família sentir-se mal e constrangida, não consigo ser o que os outros esperam de mim. (Mesmo que eu tenha tentado sempre).

      Não sou hipócrita em dizer que NÃO PRECISE de dinheiro. A questão não é essa. A diferença está no FOCO; e o meu foco está em realizar o meu propósito espiritual.

      Penso se o que me fez assim, desprendida, foi por eu ter sofrido desde criança. Porém, vejo pessoas que sofreram muito mais e mesmo assim são "dinheiristas", narcisistas e competitivas. Penso, então, se foi por eu não ter tido realizações de extraordinário prazer (como a maioria), como vantagens financeiras, muitos parceiros afetivos e sexuais, ter sido popular entre amigos ou na escola, etc. Eu realmente não sei o que me fez tão "apática" quanto a ser um alguém valorizado socialmente. Apenas sei que vi a farsa disso muito cedo. Pensava, até pouco tempo atrás, ter percebido só na adolescência, aos meus dezesseis anos... Mas lembro-me que com dez anos via o quanto as crianças do meu convívio já se faziam de um personagem que elas não eram, só para chamarem a atenção e serem aceitas. Talvez o bullying que sofria me ajudava a enxergar ainda mais toda essa imbecilidade. 

      Todos gostamos de conforto... Mas o conforto de cada um não está no mesmo nível de qualificação. Certos confortos pra uns é ostentação, pra outros é o básico do conforto. Todavia, ser uma pessoa simples não significa gostar do que é primitivo, arcaico ou rústico. (Apesar de eu amar coisas rústicas). Ser simples é contentar-se com o equilíbrio das coisas - sem a falta e sem o exagero. Quando temos aquilo que nos é adequado e ficamos bem, é porque estamos integrados à Consciência. 

      Não existe a preocupação desesperada de nos mantermos prósperos, bem-vistos socialmente, aplaudidos... Há, sim, o cuidado de nos mantermos no propósito de Deus (Verdade) com responsabilidade; "o resto nos será dado de acréscimo".

      Contudo, temos medo. E quando o Ego assume o controle, ele nos incentiva a crer que a garantia e a resolução financeira, psicológica e de status é que deve suplantar o Ser. E sendo o Ego o nosso guia, esse medo será uma constante.

      As pessoas geralmente se dizem espiritualmente maduras e sábias por saberem manipular ou controlar as situações externas da vida - seja através da mente; seja através de energias. Não digo que seja algo "ruim" ou "errado"; apenas aponto que isso não significa elevação espiritual, como muitos alegam. Algumas, já consideradas gurus, para disfarçarem seu condicionamento hedonista, tentam aparentar DESAPEGO dizendo que apenas "interpretam um papel", pois praticamente são verdadeiros bodhisattvas, por trás do papel. "Comer" suas discípulas, então, é um sinal de Amor Universal... E a humildade desses seres é tanta que possuem assessores para não se misturarem com os simples "mortais". 

      Espiritualidade virou um comércio com marketing para atrair a clientela. Ganha-se dinheiro em cima de sua idolatria e dependência... Ganha-se status, parcerias sexuais à lá carte e admiradores fanáticos. 

     Isso é servir a Deus (Verdade) ou a Mamon?

     Isso é servir a Mamon através de Deus (Verdade) teorizado.

      Nada mudou. O mundo de hoje é exatamente o mesmo, retratado em várias escrituras. 

      O "Deus" do mundo continua sendo o pequeno "eu". 

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