O ECLETISMO UNIVERSAL
A solidão consciente, desde criança, me proporcionou desenvolver uma habilidade pouco percebida ou valorizada pelas pessoas, que é a de ouvir todo tipo de gente.
Como eu nunca pertencia a grupos fixos de qualquer natureza, doava atenção aos mais humildes e sem escolaridade, até aos mais estudados e cheios de reputação.
Havia muita diferença entre eles em termos de informação ou cultura, mas algo os igualava em vivenciação humana: todos tinham uma história pra contar de suas mazelas e alegrias.
Talvez por eu nunca, de fato, conseguir ter um contato mais profundo com as pessoas - ou de perceber desde cedo a artificialidade nelas -, interagia como a uma mera espectadora de seus personagens, achando que eu deveria ser igual e imitá-las - e frustrando-me por não conseguir.
Nessa frustração, apesar de existir uma certa expectativa em encontrar pessoas afins, não esperava muito delas. E tendo esse "ceticismo" quanto aos outros, restava a mim, apenas, adentrar em seus mundos peculiares.
O interessante foi descobrir que dentro de seus mundos mesmo superficiais, havia uma dimensão além, que me transportava à humanidade do indivíduo, e não à sua mente.
Comecei a perceber que tinha essa flexibilidade, abertura e simplicidade, quando fui à casa de um amigo e passei mais tempo dando atenção à empregada da casa do que a ele mesmo. Escutei com atenção suas estórias, seus dramas, suas dores e percebi que, mais do que minhas palavras, o que a acalentava era justamente a minha disposição em ouvi-la, sem ganhar nada em troca com isso.
Meu amigo ficou admirado. Talvez não esperasse que uma "patricinha" classe-média tivesse tal atitude sincera. Ele perguntou: "Quem, hoje em dia, tem interesse em ouvir pessoas tão comuns, sem ter nada em troca? Acredita que ela (empregada) não se abre com ninguém?!"
Mas a mim era normal conversar com pessoas, sem rotulação mental alguma... Pois ter vivido no Japão e conhecido (e convivido) com variados tipos de indivíduos, me fez "eclética" em todos os sentidos possíveis.
Certa vez, conheci uma pessoa que dizia que "tudo o que se referia ao humano, não lhe causava estranheza". Percebi claramente que dizia aquilo porque ela mesma já havia vivido todo o auge e o fracasso, as "bizarrices" e várias insanidades humanas - coisas que não foram empecilhos para eu enxergar sua pureza. Era um alguém aparentemente sem preconceitos, mas porque (eu via) se originava de um grande peso na consciência. No entanto, me identifiquei por sua mente flexível e seu modo atencioso, ainda que houvesse a busca obstinada de aceitação por todo tipo de gente (e vertente).
Já eu, sempre fui descrente e apática quanto a ser aceita ou admirada. Isso porque quando eu me retraia, os outros me menosprezavam; quando eu me mostrava, os outros me humilhavam. Minha desistência em ser popular foi desde cedo. A única coisa que me restava era ser uma boa ouvinte.
Ao se ter consciência da solidão e uma renúncia com o que as pessoas possam nos proporcionar de verdadeiro, surge um estado de anti-aderência mental... Ou seja, não nos enredamos nos seus pensamentos, apenas escutamos, pegamos algumas informações úteis (se a nós for), ou então, somente enxergamos sua essência.
O fato de não ter mais expectativas de encontrar companhias idênticas a mim faz com que eu tenha atenção e curiosidade por diversos tipos de pessoas, conhecendo "universos" novos, que amplificam ainda mais minha visão de mundo. Não é promiscuidade, simplesmente porque não há confusão de ideias diversas, mas uma síntese delas.
O fácil é a aproximação pela identificação de ideias e sentimentos... O difícil é a aproximação pela diferença de ideias e sentimentos. Mas o paradoxo é que quanto mais aceitamos a diversificação no modo de enxergar a vida, mais livres ficamos do Ego. Não precisamos nos forçar a essa aceitação - pois ela deve ser natural -, mas quando vivemos pelo Coração (inocentemente), a fraternidade humana é o que prevalece.
Minha irmã, esses dias, me confessou que está descrente de tudo o que seja espiritual. Não que seja cética convicta ou ateia, mas já não confia em mais nada. Eu disse que era assim mesmo que deveria ser, e que, no meu caso, eu também não confiava nos conceitos de ninguém, mas que confiava na minha percepção (razão-coração).
Dificilmente as pessoas entenderão como eu "funciono", pois ora eu me atento a informações (e as peneiro) para uma verdadeira montagem de um gigante "quebra-cabeça", ora eu me foco no Ser delas, descartando o falso e superficial do Ego.
Não sou infalível a ponto de nunca me levar pelo falso... Mas é exatamente onde há mais esquisitice explícita, é que eu vou atrás e "investigo" se há algo de válido... Pois onde há muita sensatez, seriedade e credibilidade é que "meu santo desconfia". Novamente, digo que meu sensor não se guia por aparências, aclamação ou status... Meu sensor detecta o que está escondido por trás de tudo isso.
O que vou dizer não é uma fórmula e nem receita, mas uma dica de como se libertar do controle do Ego:
Onde nossa mente estiver fixa ou aficionada, questionemos: "Por que não consigo enxergar por outras perspectivas? Não ouço, não investigo, não transcendo porque estou certo e tenho respeitabilidade? Tenho aversão ou apenas não compartilho da mesma visão?" Lembrando que a questão não é acreditar em qualquer coisa, mas perguntar à mente do porquê rejeitar ou pré-conceituar um "universo" diferente sem compreender. O "segredo" é driblar o tempo todo a mente e puxá-la sempre ao centro, quando ela está indo a um lado extremo.
Quanto mais verdadeiramente desapegados, mais flexíveis e humildes seremos em relação a todo tipo de gente, pois já não há mais a procura do "nosso lugar"...
Ele será qualquer lugar no mundo. Mais ainda, fora dele.
E existe coisa mais "eclética" do que o Cosmos?



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