ILUSÃO: NECESSÁRIA DESNECESSIDADE
Mas nossa mente não aceitará esse fato porque existe o sofrimento na vida; e Amor, na nossa concepção, significa somente coisas belas e agradáveis. Também não quero dizer com isso que o "mal", a ilusão, ou a crueldade façam parte do Amor. Tudo o que nos aprisiona, estagna e atrasa na elevação espiritual-consciencial seria uma espécie de "afastamento" da Verdade - um "esquecimento" do que realmente somos.
Então, nossa razão pode se perguntar: "Se tudo no Universo é Amor, como podemos nos afastar Dele? Como pode existir a ilusão, com toda a sua destruição?"
Poderíamos pegar conceitos e crenças religiosas, das quais dizem que tudo faz parte de provas de aprimoramento; que sem o sofrimento não amadureceríamos como almas-consciências; não nos desenvolveríamos moralmente, e que portanto "Deus" nos amaria dando-nos a oportunidade. Eu não refuto tais explicações, mas a mim, mais do que provações pessoais ou "benção" divina, hoje vejo a coisa toda como um movimento natural de vivenciação de Deus-Universo. Deveria existir uma razão para tal movimento? Será que em tudo há uma lógica, ou simplesmente a Existência é assim, e pronto?
Pensar dessa forma fará nossa mente rotular isso como "determinismo"; que é necessário existir o mal, etc. Contudo, eu vou além e questiono: "Será que POR SER ASSIM, É NECESSÁRIO SER ASSIM?"
A questão de ser necessário ou não, soa ainda muito humano. Projetar em algo superior e muito além de nossas limitadas ideias, uma lógica terrena, é mais um desejo de segurança diante de nossas incertezas.
Nossa mente racional nunca obterá certezas em relação à Verdade - Amor, Deus, Universo, Todo, Vida -, apesar de achar que tem. Mas aquele que aprofunda-se em seu Ser, aproxima-se Dela, sem precisar se pautar em conceitos, motivos, ou razões do que seja e de quais seriam seus supostos objetivos.
Quanto mais conscientes do Real, menos dependentes de explicações nos tornamos. Sentir o que seja a Verdade dispensa qualquer palavra ou pensamento. E nesse sentir, vamos naturalmente ficando mais sábios, humildes e sensíveis.
Todavia, com o nosso atual estado de dormência consciencial, eu diria que o sofrimento é um providencial alarme de que estamos seguindo contrários ao fluxo da Vida. Nesse sentido, ele seria, de certa forma lógica, sim, necessário. Mas podemos saber ATÉ QUE PONTO ele é necessário? Ou melhor: temos consciência se tal sofrimento está servindo como a um alarme ou sendo um pretexto de autopiedade (diferente de autocompaixão) e perpetuação na ignorância? Será que todos conseguem despertar, sofrendo?
Certa vez, li sobre uma teoria de que indivíduos (espíritos) que não progredissem na sua purificação ou na sua retomada de Consciência-Amor, eram literalmente extintos da Existência, numa involução gradual. Sem entrar no mérito de acreditar ou não nisso, sinto profundamente que a máxima de que "A Verdade permanece e a Ilusão sucumbe" é que seja a essência de tudo. Agora, saber o porquê da Verdade precisar da Ilusão, já que Ela é Perfeição em Essência, não me compete. (Será que é? O que é Perfeição?). Como já dizia uma amiga, "não faz sentido algum, pois senão Deus é um sádico!". (Ou quem sabe, masoquista?)
Dentro da espiritualidade, quando falamos de Ilusão, não estamos dizendo que tal coisa NÃO EXISTA. Dizemos, apenas, que algo não é verdadeiro ou essencial. Ilusão seria o que nos prende na ignorância do Real.
Portanto, mergulhados na Ilusão, naturalmente sofremos e causamos sofrimento aos outros, ainda que essa Ilusão, aos nossos olhos, possa aparentar o real e a forma correta de se viver.
A maldade é a ignorância do que seja Verdade-Amor. Quanto mais enredados em nosso Ego, mais afastados estamos da Fonte. E mesmo que possamos fazer eventualmente o bem aos outros, ainda seremos seres limitados em nossos interesses pessoais e no desejo narcisista de aparentar benevolência. Sem tirar o valor de ser ético, ser bondoso ainda estará limitado no nível artificial de se viver, pois a verdadeira virtude transcende o desejo de querer ou precisar ser bom - simplesmente se é aquilo que essencialmente se é: puro amor.
É nesse modo artificial de se viver que nos distanciamos da Verdade, causando conflitos, dor e destruição (moral, emocional e física). Mas esse modo artificial, como tudo o que é transitório, tem um limite.
Talvez pareça que o mundo esteja no seu limite de insanidades e mesmo assim continue intacto e permanentemente nelas. Porém, acredito que, exatamente, por vermos mais claramente o "mal" (ilusão), é que seja um sinal de que já estamos num processo de libertação e depuração.
Se, em conceitos humanos, concluirmos que a Ilusão foi necessária para algum propósito divino, talvez devamos concluir que ela já não é mais, a nós que despertamos. "A dor é inevitável, mas o sofrimento opcional"; por isso, sofremos apenas porque ainda nos agarramos às ilusões. E se não é mais necessária, porque devemos achar que "tudo está como DEVE SER"?
É por essa razão que o conceito de que TUDO ACONTECE PORQUE É NECESSÁRIO pode nos fazer cair em armadilhas mentais, acreditando que nada deve ser modificado, afastado ou julgado como prejudicial. E o pior de tudo: achar que o mal que se fez foi o que o outro precisou, pediu ou mereceu.
Os fins nunca podem justificar os meios, sendo, estes, mesquinhos, cruéis e sórdidos. Contudo, aquele que TRANSCENDE o conceito de mal consegue alcançar um patamar onde há a Consciência, NÃO, DE QUE NÃO HOUVE O ERRO, mas, sim, que houve uma atitude originada de cegos (inconscientes) instintos egoicos. Transcender conceitos de bom e mau não significa tirar-lhes o sentido que cabe a cada um; significa enxergar que o mal feito é consequência da desconexão com a Verdade-Deus-Amor - assim como o bem, quase sempre é interesseiro. (E, bem... Desconectada, é o que a maioria da humanidade está).
Transcendência é o entendimento de que nem todo mal que nos ocorre é NECESSÁRIO, e de que nem todo mal é DESNECESSÁRIO. É o discernimento dos dois, tendo a humildade em se aceitar as quedas e a responsabilidade em se saber o que está a nos impedir de vivermos nosso real propósito.
Cabe a cada um tirar o melhor proveito das dificuldades em prol de sua libertação espiritual-consciencial.
O mal sempre será negativo. Mas é o nosso modo de lidar com o que nos ocorre que transmutará em benefício. (E quantos sabem lidar?)
Conceituarmos o que seja a Verdade, Deus, Universo, ou Todo pelo o que vemos dos fenômenos e das vicissitudes da vida, sem ter uma conexão profunda disso, é cairmos em extremos perigosos de ilusão. Ou rechaçamos, desacreditando em qualquer assunto relacionado com a descoberta do que realmente somos e do que seja Verdade-Deus-Amor, ou aceitamos, sem questionar, toda crença de que "tudo acontece de acordo com a vontade dessa Verdade-Deus-Amor".
Estar próximo Dela é ser a integrativa impessoalidade, sem mesmo rejeitar a pessoalidade humana. É saber o que é necessário, sem que seja pelo julgamento exclusivo da razão.
E pra se saber de fato o que é preciso ao Ser, é preciso, antes de mais nada, saber o que é ser esse Ser...
Assim como, saber que o Ego (identificação com a mente egoica) é uma necessária desnecessidade.



Comentários
Postar um comentário