DESCRENÇA X IDEALIZAÇÃO: OS DOIS LADOS DA MESMA ILUSÃO

    


      É bem verdade que o "acreditar" deve estar ligado mais a uma vivência pessoal do que uma mera suposição.

      No entanto, minha mente não se fecha a possibilidades só porque eu ainda não as vivenciei. É estranho a mim pensar que outras realidades não existam simplesmente porque eu não as tenha vivido, ou porque não as experienciei em sua totalidade.

      Essas outras "realidades" a que me refiro são mundos geralmente não acessíveis à maioria das pessoas... Mas, não, mundos paralelos, de outras dimensões ou de outros planetas; e sim o mundo do sentimento pleno de unicidade com o Todo.

      Adentrar o mundo espiritual tentando compreender com a mente lógica é impossível. Além de não existir entendimento, isso por si só impede a vivência do que seja sagrado ou sublime. Você se fecha numa bolha limitada de possibilidades reais e por isso acaba por nunca vivê-las.

      Há muita incompreensão do que seja Amor, Verdade ou Felicidade Incondicional porque a mente associa essas coisas pelo parâmetro mortal e terreno dela. À razão, Amor significa sentimento afetivo, comportamento gentil ou caridoso, ou sacrifícios; Verdade significa conceitos, crenças, materialidade ou meros acontecimentos; Felicidade Incondicional... Bem, essa, a mente não tem nem uma definição, de tão absurda que lhe parece.

      Porém, digo tranquilamente que tudo isso existe, é acessível a qualquer humano, mas que não tem relação alguma com que pensamos ser deles - ou do que achamos ser a Verdade. 

      Isso pode ser extremamente frustrante, ou senão, extremamente libertador.

      A Verdade, o Amor ou a Felicidade não é uma condição, mas um sentimento daquilo que realmente somos. Não é uma emoção por algo ou alguém, mas a constatação do que somos, além de nosso ordinário estado humano de ser. Todavia, nessa constatação do que somos, o sentimento de unicidade, plenitude e liberdade resplandece naturalmente. Não há separação. (Detalhe: estou me referindo AO QUE SOMOS, e não A QUEM SOMOS, como indivíduo).

      Alguns segundos dessa sensação já nos dá a certeza absoluta de sua existência. Não importa o que digam as teorias de estudiosos, o Amor Incondicional é um fato incontestável a quem o vivencia (nem que seja um único instante), fazendo, inclusive, que tudo o que é transitório fique em segundo plano. E quando digo que "fica em segundo plano", não estou dizendo que rejeitemos todo o resto... Pelo contrário, é aí que tudo passa a ter um significado mais profundo na vida. É aí que tudo passa a fazer sentido de forma mais ampla.

      A questão não é que tais sentimentos, energia ou estado de ser não existam... A questão é a deturpação que o humano faz em relação a eles.

      Ter uma Iluminação, acima de tudo, é vivenciar sabedoria, compaixão e humildade, pois essas virtudes é que compõem a inerente Inteligência do Espírito. Mas à mente é impossível chegar a tal estado... O que nos aproxima dele é justamente a rendição e a humildade de abandonarmos as CERTEZAS. Quando admitimos que dessa Vida nada sabemos, mais próximos da Vida ficamos.

      A mente humana deturpa o sentido das palavras porque desconhece o seu sentimento verdadeiro. E dessa deturpação nasce a IDEALIZAÇÃO do que seja o estado real do Ser.

      As pessoas idealizam o que seja Verdade, Amor, Felicidade, Paz ou Iluminação. Mas de modo algum não quer dizer que não existam. É por essa razão que eu sempre insisti em dizer que NÃO DEVEMOS ESPERAR NADA DA VERDADE, mas aceitar o que seja ela - independentemente do que seja. Porém, as pessoas associam Verdade com sensações boas, agradáveis, de completude, prendendo-se a elas num ideal inalcançável.

      Não é ao que possa ser a Verdade (Amor, Felicidade, Paz, Iluminação) que devemos nos focar, mas sim em simplesmente SAIR DE TUDO O QUE É FALSO... Pois, assim, tudo o que é verdadeiro se revelaria.

      Se você já está cansado, farto, exausto com as ilusões, não importa o que seja a Verdade; o que importa é se libertar delas.

      Entretanto, dizer que não existe um estado pleno, amoroso, compassivo, ou sublime de ser no humano, é se fechar num outro extremo oposto da idealização espiritual. O velho pêndulo mental: crente-ateu, racionalista-espiritualista, conservador-liberal, internalização-externalização, etc. Ora, porque seria impossível existir indivíduos que "alcançaram" tal estado de Amor? Pra que não tenhamos expectativas quanto a chegar a tal estado, a descrença quanto a ele não é e nunca foi uma boa solução, já que é o Ego se autossabotando. Não se elimina expectativas ou idealizações DESACREDITANDO na possibilidade e na existência da Plenitude. Elas são extintas quando compreendemos a nossa limitação racional, nos abrindo de coração para o desconhecido.

      Ainda que eu não seja um ser pleno, isso não me faz um alguém amargurado, frustrado, inferiorizado, revoltado... Eu sinto felicidade, na verdade, por estar descobrindo O QUE SOU e QUEM SOU na Vida. Esse é o sentido de FELICIDADE INCONDICIONAL. Você pode passar por reveses, tristezas, dificuldades, mas a segurança do que se é faz com que se reverencie a sua existência, pois agora ela tem um sentido maior.

      Felicidade não são acontecimentos bons, alegres ou agradáveis... Felicidade é SER VERDADE, pois só assim sabemos o nosso real papel no mundo e no universo. (Não querendo ser repetitiva, mas sendo, novamente).

      Verdade não é um conceito - comprovado ou não - do que seja a realidade... Verdade é o sentir e constatar o que somos, além de nossa forma física e mental.

      Amor não é uma afeição, gentileza, caridade, sacrifício - apesar de todos eles serem seus pequenos aspectos... Amor é devoção (não a religiosa) ou uma rendição à Verdade, fazendo reverberar todos os aspectos que o compõem, a todos e a tudo.

      E por fim, Iluminação - apesar de cada um interpretar da sua forma (lógica) - não é perfeição na concepção mental da palavra... Iluminação não é nem a sensação de êxtase espiritual ou Graça, ainda que também possa vir, ora ou outra, a se manifestar nela... Iluminação é Consciência, Lucidez ou Sabedoria Suprema, mesmo que ela aconteça por alguns segundos ou por uma vida inteira... Não importa. Querer possuir esse estado permanente pra si é outra armadilha e ilusão - pois a constância da Consciência não depende do esforço do Ego, mas da sua neutralidade. E ironicamente, a neutralidade nunca pode vir do esforço e do controle. (E isso inclui a autopercepção).

      Tudo isso está muito além do que seja fenomênico... Não é um "estar", mas, sim, um "ser".

      Então, antes que afirmemos que tal coisa não exista, nos perguntemos se não é a nossa interpretação do que ela seja é que está equivocada. Pois a mente rotula, idealiza ou, então, rejeita completamente, quando se angustia por não vivenciar aquilo que ela pensa ser o "certo". (E nessa de perseguir o "certo", nos perdemos do verdadeiro).

      Verdade, Amor e Felicidade não são estados de ser mundanos. São coisas completamente espirituais das quais todos têm acesso... Aspectos do ESPÍRITO pra que os manifestemos na Terra - e fora dela.

      Afinal... O que de verdade somos?

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