QUAL O SEU LEGADO?

   
     
      Lembro-me que na minha adolescência eu já sentia um chamado para o meu real propósito de vida.

      Não era consciente de que fosse um propósito, mas sentia, em meu profundo ser, que estava aqui para passar algum tipo de mensagem às pessoas. 

      Ainda não havia entrado em contato com a espiritualidade, no entanto era como se eu tivesse que inspirar os outros a sentirem altruísmo e emoção pelas coisas mais simples. 

      E como eu sabia que tinha certo dom em desenhar, achava que deveria inventar histórias em animação - ou quadrinhos - para transmitir algo que as emocionasse e as fizesse voltar a ser mais humanas - nem que fosse por alguns minutos.

      Porém, minha razão dizia ser um sonho distante e que esse tipo de vocação era somente àqueles que eram considerados geniais ou, então, àqueles ditos "sortudos".

      Meu Coração sempre me dizia que eu tinha uma missão importante... Que eu estava aqui, neste planeta, por algum motivo incomum e até especial. Mas eu preferia acreditar na razão, já que minha realidade de "zé ninguém" fazia questão de me jogar na cara a impossibilidade de tal possibilidade.

      Quando me vinha o sentimento de um propósito maior, minha mente logo me ridicularizava ou senão me julgava de estar sendo narcisista ou prepotente. Também, pudera... Muito desses sentimentos era o de que eu seria uma pessoa popular - de razoável visibilidade.

      A fama, contudo, não era bem o meu desejo... O que a voz do Coração falava, era que a minha missão precisaria alcançar multidões. A sensação era de que havia um legado a se deixar ao mundo.

      É claro que isso soava - e soa ao nosso senso comum - como "síndrome de messias". Era exatamente por isso que eu brigava com esse sentimento e não dava ouvidos. Culpava-me e fazia duras críticas a mim mesma por ter esses devaneios.

      Eu tentava enquadrar essa sensação de missão a alguma profissão aceitável socialmente. Queria ser útil às pessoas e ajudá-las de alguma forma. Pensava na possibilidade em ser médica, assistente social, psicóloga, bióloga e até ambientalista, por pensar também em ser útil à natureza. Mas nenhuma dessas profissões fazia minha Alma vibrar e sentir entusiasmo. Parecia que todas elas ainda eram muito superficiais perto do que eu tinha a oferecer.

      Talvez devido a esse conflito "razão-coração" em mim, desisti de tentar procurar minha real vocação e parti para o mero ganho financeiro. O interessante é que, com meus dezenove anos, eu já sabia que o dinheiro seria só um meio para eu adquirir tempo e liberdade em descobrir o meu propósito de vida. Conforme o decorrer das circunstâncias, porém, o dinheiro havia se tornado o único e viável objetivo... Eu já vivia feito zumbi.

      Acredito que todo mundo tenha um sentido de se estar aqui. Cada pessoa veio para contribuir algo de si para a humanidade... Algo que só ela pode contribuir, já que é um ser único. Certa vez, vi um livro numa livraria que perguntava o porquê dos gênios da humanidade serem seres especiais e o porquê de nós não podermos ser também. Não comprei e nem li o livro, mas confesso que aquele único questionamento foi o suficiente pra eu duvidar da minha mente cética. Novamente meu Coração sussurrava: "Você também tem um papel de valor".

      Ouvi dizer que quando alguém possui uma missão-chave para o contexto coletivo, mas que não se conscientiza disso, ou não ouve o chamado da intuição para seguir o seu caminho, mudanças drásticas ocorrem com ele de forma dolorosa e até devastadora, fazendo com que volte ao objetivo a que veio.

      A impressão que eu tenho, em relação à minha vida, é de que algo literalmente me empurrou com muita força pra que eu despertasse para minha missão. O modo de vida que eu estava levando era tão sem sentido, insignificante e mais do que medíocre, que o golpe foi bastante violento pra que eu enxergasse que, sim, eu tinha um papel fundamental nesse mundo. (Bom... Mesmo que o mundo nunca reconheça o meu papel).

      Isso não quer dizer que eu me arrependa de ter trilhado caminhos não-convencionais. Pelo contrário... Foi exatamente a quebra de padrão que me proporcionou uma perspectiva de vida que outras pessoas, da minha idade, não tinham. Comparo essa quebra de padrão com o "sair dos trilhos tradicionais" do Sistema. O trilho da maioria é seguir em linha reta a um destino, que em geral é estudar, depois, entrar numa faculdade, arranjar um emprego, tentar se estabelecer numa profissão, e com isso, casar, ter filhos, etc, etc.

      Não que eu seja contra essas coisas, mas o que quero dizer é que seguir roboticamente a trilha reta, sem rasgar o script social de vez em quando, faz das pessoas indivíduos alienados, sem criatividade, sem percepção própria genuína, insensíveis e inflexíveis. Qualquer experiência que tiverem, por mais incomum possa ser, ainda estará dentro da redoma formatada e formalizada pelo status quo do Sistema. Sabe por quê? Porque não houve uma "desestruturação" da programação; não houve um "sair dos trilhos" de fato - a amplificação da consciência só acontece àqueles que, vez ou outra, nadaram contra a correnteza dos "valores" sociais.

      Quais são esses valores? São eles: diplomas, graduações, "troféus", bens materiais, busca por aceitação e elogios, ajustamento normótico, busca por reputações, validações e tudo o que consiste a imagem da persona e a satisfação física e psíquica egoica dela. 

      Aqueles que tendo uma vez saído do trilho habitual, ao entrar em outros, dificilmente se deixarão condicionar novamente. Alguns acabam se conformando em um novo, porém sempre sentirão um vazio existencial que lhes indicará que não estão sendo autênticos.

      Foi o que aconteceu comigo: desde o primeiro desvio de rota convencional - com quatorze anos -, nunca mais consegui voltar ao esquema comum. Por mais que eu tente, coisas acontecem pra que eu perceba a artificialidade de um padrão. Não há mais volta, por mais que quisesse voltar... Tudo parece me conduzir ao modo de vida verdadeiro e ao meu propósito maior de viver. 

      Talvez tenha chegado num ponto em que já não exista mais "opções": é ou é. O que venho sentindo, é que nesse ponto não existe nem mesmo o desejo de se ter ou alcançar nada, ou seja, só resta a Verdade. Mas essa Verdade não é mais associada com Felicidade, Amor, Paz, Bem-aventurança, Plenitude - apesar de ser tudo isso. É o ponto em que não importa o que Ela seja: você é um fiel devoto, venha o que vier. Pois enquanto associarmos a essas qualidades, ainda será um desejo do Ego.

      Não quer dizer que eu esteja livre da mente: ela ainda vem e virá com mil propostas e pensamentos. E em muitos ainda caio. O que ocorre é que os desejos, no que se refere aos "valores sociais", não mais existem em mim. Isso porque eu já sei que tenho uma missão e uma vocação da minha Essência; já sei que estou nesse mundo pra trazer Consciência.

      A mente propõe medo e insegurança quanto ao futuro, mas o sentimento de missão, quando fortalecido, me dá confiança. Quando firmo o meu foco no propósito maior, tenho a certeza de que o caminho que surgir pela frente será voltado a ele: oportunidades de trabalho, retorno financeiro, amizades, companheiro... Tudo que esteja em afinidade e me propicie a realização desse objetivo que a Vida desejaE ainda que existam obstáculos, nada mais nos desvia dele.

      Despertar a Consciência não é para lhe dar condições de viver bem e melhor... Despertar a Consciência é para lhe possibilitar ser um missionário no mundo, pra que contribua com o seu dom - do qual foi incumbido a manifestar.

      Mas, isso, descobrimos depois de um bom tempo no árido caminho da autoconsciência e na coragem de seguirmos a voz do Coração.


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