OS NADADORES DA "CONTRA-MARÉ"

      
      A diferença que existe entre mim e a maior parte das pessoas não significa que eu seja um alguém "especial". Significa apenas que o caminho por mim trilhado me proporcionou mais desapego e menos dedicação à minha imagem como personagem.

      Quanto mais eu me percebo, mais vou constatando o quanto minha vida foi contrária aos ideais pré-estabelecidos pelo mundo... Mais vou me dando conta de que meu processo espiritual foi incomum e que dificilmente encontrarei pessoas que passaram por situações parecidas. Não que não existam indivíduos que "nadaram contra a maré" desde cedo - hoje em dia há bastante -, mas sempre acabaram se encaixando em algum tipo de grupo, fosse ele da contracultura, dos punks ou de sociedades alternativas.

      Minha diferença dos outros não foi exatamente ter sido "rebelde", pois na verdade eu não tinha intenção alguma de ser contraventora. Mas minha diferença foi ter descoberto muito cedo, com dezesseis anos, que a vida em geral era falsa - e de que me dedicar aos valores dela era desperdiçar minha própria vida verdadeira.

      Não sei se foi uma bênção ou um empecilho ter me conscientizado disso tão cedo, pois digo que foi um caminho muito difícil e doloroso. (Hoje, me espanto por ter tido tanta força interna, sem ajuda de nenhum químico ou válvula de escape). Porém o que esse fato me diferencia da maioria, é que eu não tive nem a vivência de ter lutado e me esforçado em ser um "alguém na vida", de ter tido luxos ou bens materiais almejados por todos, ou de ter experienciado as satisfações sensoriais ou psicológicas intensas que muitos obtêm, levando-os ao limite de vazio existencial.

      Eu não passei por essas fases pra dar-me conta do quanto esses desejos eram artificiais. Não sei porquê, mas comigo foi assim. Acredito que minha própria dor e solidão desde a infância fizeram com que eu percebesse, na adolescência, que a Verdade e o sentido da vida estavam somente no espiritual. Não que seja imprescindível sofrer e sentir solidão quando criança pra se despertar a Consciência, mas vai depender da sensibilidade e introspecção de cada um - coisas das quais eu nunca reprimi ou condenei em mim.

      O espiritual veio com tanta força que não foi preciso vivenciar a frustração que os prazeres transitórios promovem. E ainda que eu nunca tenha passado por dificuldades sérias financeiras na vida, e que tenha tido dinheiro pra gastar em futilidades com o trabalho no Japão, não foi a satisfação materialista que me levou à crise existencial, mas sim o modo de vida sub-humano robótico degradante.

      Quando o estilo de vida é extremamente exaustivo e sem sentido, ainda que possa haver certos prazeres, não existe possibilidade alguma de nos extasiar neles. O que se ganha de facilidades não compensa o humilhante sacrifício.

      Eu nunca tive sucesso, nunca tive prestígio, não tive muitos amigos, tive pouquíssimos relacionamentos sexuais (se "pouquíssimo" for a palavra certa), e três namorados (ou dois e meio?)... E mesmo que minha autoestima sempre fosse baixa, eu tinha consciência de que, se quisesse, teria total capacidade de me tornar um boa profissional, ter uma boa remuneração, ter razoável círculo de amizades e ter vários namorados por saber (sem vaidade alguma) do meu factual magnetismo sexual. Resumindo: eu seria uma pessoa como todas as outras, sem sombras de dúvida.

      O que fez com que eu caminhasse contrário a todos esses valores? Claro... O senso comum dirá que foi um autoflagelo; uma inconsciente culpa ou punição ou até um transtorno psíquico. Mas a mim fica cada vez mais claro que devido ao meu propósito de vida ser o espiritual - no que consiste o desapego e o aprofundamento no Ser - minha trilha deveria ser inevitavelmente de mais renúncia e de menos construção de um Ego.

      Não significa que eu seja isenta de egoísmo e fraquezas. Não quer dizer que eu seja a própria "perfeição, a honestidade e a inocência" em pessoa. É óbvio que sou falha e que meu Ego ainda me controla nas horas de desatenção. Mas a diferença é que, hoje, eu tenho mais facilidade do que a maioria de me desidentificar desses desejos normóticos condicionados. A imagem do meu "eu" não se sobrepõe ao real sentimento do Ser. Minha lealdade à Verdade é maior do que qualquer vantagem pessoal.

      Enquanto a mente comum exige qualificações e quantidade ao personagem, eu me dedico ao essencial, que é a sabedoria desse Ser. Por causa disso provoco ira, revolta, indignação, desprezo, preconceito, escárnio... Pois o primordial ao intelecto é a imagem e só o que seja funcional à sociedade; e tudo o que se refere ao Coração é crucificado e jogado na lata do lixo.

      Então, me perdoem: mundo, famílias, instituições, sistemas... Eu vim aqui para quebrar padrões. Até mesmo aqueles, em geral, quase imperceptíveis, como acreditar que somente monges, praticantes assíduos de seitas, pessoas mais experientes, homens de respeitabilidade espiritual, pessoas de formação religiosa ou filosófica, ou estudantes cheios de teorias livrescas têm a possibilidade de expandir Consciência e alcançar a própria sabedoria. O padrão mental acha que a esfera espiritual também se enquadra na "qualificação" e se limita à aquisição de informações.

      No entanto, a sapiência do Ser não está ligada a tempo, à experiência, a gênero, ao intelecto, à cultura, à religião, à classe social e muito menos à imagem. Sapiência está ligada à renúncia do valor primordial de todas essas coisas.

      Muito pode-se pensar que se tivesse todas sensações prazerosas da vida mundana, eu trairia a devoção à Verdade. Mas como algo verdadeiro, uma vez vivenciado (várias, na verdade), pode ser trocado pelas sensações? Talvez até possa ter acontecido com muitos durante o caminho, porém isso indica que o Coração desses não foi tocado de fato, e sim apenas a sua mente, na intenção de ganhos.

      Quando descobrimos verdadeiramente o Ser que somos, no seu cerne, todos os ganhos mundanos tornam-se apenas ferramentas de auxílio ao Bem Maior, e não o objetivo principal. Não rejeitamos as coisas que são úteis ao bem de todos (incluindo a nós mesmos), somente dispensamos aquelas que nos aprisionam aos desejos.

      Todo malefício a si e ao coletivo está enraizado no desejo de obter vantagens. Ter vantagem não é a obtenção de coisas vitais e básicas humanas, mas de querer pra si o não-essencial que só fortalece a entidade egoica, compulsiva e narcisista.

      Vim ao mundo pra ser diferente, caminhar diferente e fazer a diferença.

      Eu sou um peixe nadando contrário ao cardume; uma gaivota querendo voar alto; um golfinho sonhando com as maiores ondas do mar.



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