MESTRE DOS GADOS

     

      Como podemos perceber se um mentor ou guia de um grupo tem boas e verdadeiras intenções de nos ajudar na libertação do Ser?

      Será que bastam suas profundas e belas palavras proferidas? Será que basta seu aparente comportamento sereno, gentil, amoroso, ou então (quem sabe?), austero, cortante e indiferente?

      Percebo que muito do que é dito por alguns mentores, ainda que profundo e verdadeiro, nem sempre é autêntico deles. Em muitos casos é só um "papagaiar" de ensinamentos e a interpretação de um "papel de guru".

      Deve ser por isso que eu não me prenda à IMAGEM de ninguém para absorver a mensagem passada, pois como a uma informação, não importa quem a está dizendo, mas sim o que está dizendo.

      A mente racional se perguntará: "Mas como não se importar com quem está emitindo tal ensinamento, se a verdade nele depende da honestidade de seu emissor?"

      É que a minha confiança não está na pessoa, e sim na minha percepção... Ou seja, o meu confiar independe se o guia é ou não de confiança, eu pego a informação e medito se aquilo é essencial e verdadeiro, ou se é só uma distorção mal-intencionada.

      Meu foco não está em alguém considerado sábio, culto, experiente, "iluminado". Meu foco está na mensagem pura, que pode vir de um iletrado, de uma criança ou de um iniciante em espiritualidade (mesmo que inconsciente). Gosto de dizer que "peneiro" o essencial do não-essencial, garimpando o "ouro" em meio às "pedras".

      Nunca consegui venerar ou idolatrar ninguém nessa vida, como a maioria faz. Posso admirar algumas pessoas, de verdade, mas sempre consciente de suas fraquezas e enganos.

      E mesmo não sendo contrária a lideranças ou a mestres, há uma natural prevenção em mim quanto à gurus, guias ou professores, que me impede de transferir autonomia a quem quer que seja.

      Ter humildade em saber ouvir os mais sábios, principalmente no caso da iniciação espiritual, é importante. Porém a disposição em aprender e respeitar deve estar sempre junto de um honesto questionamento. Aceitar cegamente tudo o que uma autoridade diz é, além de perigoso, uma insensatez. É só constatarmos as diversas seitas de "falsos profetas", assim como, às igrejas protestantes interessadas no dinheiro do "irmão".

      Em geral, as pessoas estão sempre doando sua autonomia e individualidade a um mestre. Acham que ele está sempre certo e começam a pensar e agir idênticos, feitos robôs. Não basta apenas receberem um apontamento, elas precisam "beijar seus pés", ser seus leais "soldados" e defender a causa ou a crença - e na pior das hipóteses, agredir quem seja discordante dela.

      Essa é a mentalidade condicionada arraigada no ser humano em geral, e está em qualquer lugar: na religião, nos partidos políticos, no ideal social, na classe econômica, nacionalidade, cultura, raça, gênero, orientação sexual, etc.

      O problema não é a afinidade natural de cada um por algum tipo de agrupamento. O problema sempre foi e será a idolatria e a dependência psicológica dele. A transferência do poder pessoal a um sujeito líder é a maior desgraça para a libertação - física, mental, espiritual - humana.

      No entanto, ninguém admite ser dependente de autoridades espirituais (ou qualquer tipo de autoridade); ninguém se vê como a "cachorrinho de igreja". Mas o simples fato de PRECISAR PERTENCER a um agrupamento e aceitar tudo, sem questionamento, o que o mentor diz, já se pode considerar veneração.

      Quer um sinal básico de idolatria? Dizer: "Fulano(a) (mentor) tem uma energia tão boa, uma aura tão iluminada, uma presença tão fascinante!". Ou então: "Ele(a) (mentor) é demais, incrível, entende de tudo!". Quando escuto isso, admito ficar perplexa... Ainda mais quando é dito de um alguém que é pura máscara de mestre e ainda mal saiu do estágio inicial de Despertar. Juro: me dá vontade de chorar... Certa vez tive que ouvir falarem de uma pessoa, que ela era quase um ser iluminado porque já não tinha mais os apegos afetivos; que era indiferente às emoções amorosas e porque vivia só o momento presente (na verdade, inconsequente). Pensei comigo: "Meu Deus do céu... Será que só eu enxergo o falso e as artimanhas do Ego? Aonde esse mundo vai parar?"

      As pessoas que admiro e dou meu crédito são as que se dedicam honestamente à autonomia de cada um. São as que ajudam as outras, mas sempre no sentido de fazer emergir o potencial e o verdadeiro Ser que são... (E não no de ficar, ou pajeando e dizendo o que fazer, ou humilhando com sadismo, na desculpa de ser para "acordar as pessoas pra realidade"). Ah! E o melhor: elas assumem suas fragilidades.

      Mas o que faz as pessoas tão dependentes de guias? Será que é porque o ser humano ainda se encontra num estado infantil, que o faz carente de uma autoridade a quem possa seguir e sentir-se seguro? A maioria, é preferível seguir junto de um mestre e seu grupo em direção a um precipício, a ter que seguir sozinhas pelo caminho correto.

      Por mais que eu também seja susceptível a enganos e já tenha caído em "contos do vigário", meu sexto sentido e minha razão estão sempre me alertando de quando existe algo meio fora do lugar. E dificilmente erram... Sou eu que muitas vezes não escuto.

      Uma coisa tenho pra mim... Quando a imagem que uma pessoa QUER PASSAR é de um ser totalmente desapegado, indiferente, "mente aberta", íntegro, sublime, "fodão", é que eu mais desconfio. Não importa que tipo de mentor seja: humano, extraterrestre, mestre ascenso, espírito de luz... Desconfie. Mas não por mera birra, e sim por precaução.

      O verdadeiro mestre não diz como devemos ser ou nos comportar para ser livres; ele apenas nos conduz ao nosso individual autodescobrimento para, então, livres, - saber por conta própria - nos comportar naturalmente como Essência que somos.

      Ele aponta ao caminho do desapego, mas nunca diz ao Ego para ser desapegado... Pois, além de impossível, o artificial esforço da mente em ser o seu contrário é enganoso e só traz mais conflito.

      Tenhamos o cuidado de não dar mais o nosso poder pessoal a ninguém. No máximo seguir o exemplo do caminho trilhado por alguém mais lúcido, até com certa posição de liderança, mas visivelmente humilde e com força de caráter.

      O quanto a sua carência o(a) impede de confiar em si mesmo(a)?

   

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