FRAQUEZA OU SENSIBILIDADE?
O que irei escrever aqui não é nenhuma crítica, intenção de diminuir e nem justificativa - ainda que aparentará ser uma justificativa.
Mas é somente uma observação que tenho feito durante todo esse processo espiritual que vem me ocorrendo, justamente porque ele colocou situações cruciais na minha vida das quais eu tinha que lidar. É como se a Vida nos colocasse testes no meio do caminho do Despertar, e quisesse "verificar" se o nosso compromisso com a Verdade é maior do que as nossas maiores carências.
Sim... A Vida pegou o meu ponto fraco e me submeteu num literal teste de resistência. E devido a isso pude enxergar o que havia de falso e verdadeiro nas emoções humanas.
Pode parecer piada o que vou dizer, mas desde meus quatro anos de idade eu tenho expectativas afetivas. Não é que eu "corresse atrás" dos meninos com a intenção de namorá-los... Mas eu sempre imaginava um namorado ou marido (!) nas minhas brincadeiras de casinha, além de desenhar o meu amante imaginário como se ele realmente existisse.
Coisa normal de criança? Não creio que seja muito a uma menina de quatro anos... Não da forma que eu vivenciava isso.
No entanto, essa carência afetiva não me tornou uma pessoa "namoradeira". Talvez minha infância difícil tenha ajudado a me fechar aos rapazes e a acreditar que eu nunca estava à altura de ninguém. Só que tendo muitos namorados ou não, a carência está sempre presente em nós, sem diminuir o seu tamanho.
O erro é as pessoas acharem que quem é carente tem expectativas muito altas em relação a um parceiro. Não, necessariamente. Pelo contrário... É aí que a chance de escolhermos pessoas "erradas" aumenta; é aí que o filtro de exigências fica mais largo e o nosso medidor mais flexível.
Quando carentes, geralmente aceitamos situações humilhantes e relações doentias, só para não ficarmos sozinhos. (E isso eu sei por experiência própria - da qual durou seis anos).
Foi então que a Vida resolveu mexer na ferida... Mas não como punição, crueldade... E sim como oportunidade de cura. Ela me colocou diante de circunstâncias nitidamente problemáticas e quis ver até onde eu cedia e traia a Consciência.
Apesar da dor, eu aguentei firme a caminhada do desapego. Não o desapego clichê de se "esquecer e deixar pra trás" como a maioria adora aconselhar... O "simples" e "fácil" método do "desencana que a vida engana" ou "a fila tem que andar"... O desapego, no meu caso, foi o de encarar o sentimento e tudo o que ele causava e ir além dele, ou seja, transcendê-lo.
O problema - novamente apontando - é que as pessoas confundem transcendência com o eliminar a emoção, sendo que na verdade é uma transformação dele para algo mais sublime.
Assim como a raiva transforma-se em determinação, quando bem direcionada... Ou a inveja em admiração, o medo em precaução, a culpa em arrependimento e perdão; a paixão se transforma em amor. E esse amor, tanto pode ser afetivo, como pode ser apenas fraterno. Isso vai depender do objetivo maior em comum.
O que em geral não se compreende é que a Verdade não se sobrepõe às idiossincrasias do nosso personagem, extinguindo-as; Ela só as utiliza de forma saudável. O que é muito confundido por muitos é que a carência ou as expectativas afetivas são igualadas a certos modos de ser nosso, como o fato de se ser romântico.
Eu sempre fui romântica e não tenho vergonha em dizer isso. Mas o que seria ser "romântico"? Seria ser um alguém que se ilude, fantasia, tem desejos irrealizáveis ou expectativas que só trazem dor? Ou ser romântico pode ser só um alguém mais sensível, carinhoso, afetuoso com o ser amante?
Gostar de "serenatas", buquês de flores, fazer homenagens, assistir um pôr do sol ao lado do companheiro, ouvir músicas e ver filmes românticos é algo errado ou doentio? Ou será que a doença não está exatamente no fato de ser romântico, mas sim no ideal de perfeição que procuramos nos outros para preencher o nosso vazio?
Não sou a favor da cultura que incentiva as pessoas a acreditarem em príncipes encantados ou em princesas... Não é isso. Mas talvez tenham se utilizado do amor romântico para se criar idealizações e suas frustrações e, assim, formar uma sociedade de pessoas frias, indiferentes e hedonistas. Pois, afinal, quanto mais sem emoção e envolvimento, mais o mundo torna-se superficial e primitivo.
Eu me pergunto sempre: "O que seria dos músicos e poetas sem esse amor romântico?" Ou vai dizer que não existe beleza na arte deles quando o tema é esse sentimento?
Mais uma vez dizendo... O problema não é a coisa, mas COMO utilizamos essa coisa.
Talvez, por mestres, gurus ou professores espiritualistas não mencionarem muito o assunto ou até mesmo rejeitarem com desdém qualquer manifestação de romantismo, criou-se um preconceito em relação a essa característica humana. Ser romântico virou piegas e símbolo de carência ou ilusão. Mas ser romântico ou aceitar o sentimento amoroso em nós é somente ter uma experiência humana, que pode ser bela e saudável, quando temos consciência do que ela significa. É a dependência de afeto que transforma tudo o que toca em doença... É ela que faz confundir tudo e se utiliza de diversas maneiras para criar dor e conflito... E uma delas é o amor romântico.
Confundimos muito o padrão obsessivo-compulsivo do Ego com sua personalidade e suas particularidades. Precisamos, cada um, de nossas características pessoais, pois sem isso não seria possível nos diferenciar e ter uma relação rica que nos agregasse vivências. Tudo seria sem graça e sem sentido.
É preciso refletir o que é mente egoica e o que é só uma característica pessoal do Ego...
Pois muito do que pensamos ser uma fraqueza - um defeito ou uma ilusão - pode ser uma qualidade que nos faz olhar de forma única, contribuindo ao mundo muito mais sensibilidade e compreensão.
E assim a Vida quis e fez comigo.
Se eu passei no teste?
Acredito que no primeiro, sim. Pois são vários durante toda a existência...




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