EGO: O ÚLTIMO BODE EXPIATÓRIO

      

      Existe uma confusão comum a todos nós que é dar ao Ego uma espécie de "autonomia", no que se refere a intenção de controle.

      É natural cairmos nisso, no entanto não deixa de ser mais uma ilusão.

      Quando dizemos que o Ego ou a mente nos controla, na verdade seria no sentido de que nossa própria INCONSCIÊNCIA domina e faz com que nos comportemos egoisticamente. Portanto, não é um ser denominado Ego que se incorpora ou se apodera de nós e de nossa existência... É, sim, nosso próprio autoengano e ignorância de quem de fato somos.

      Numa comparação ilustrativa, o piloto automático não tem a vontade própria de estar no comando do avião, somos nós que pensamos ser esse piloto automático, e assim o permitimos que controle as ações.

      Então, não é que o Ego QUEIRA estar no controle e nos aprisionar em seus delírios para se obter vantagens. Ele não possui a intenção de apoderar-se de nós para ser Rei. Ele só é Rei porque a nossa ignorância do que realmente somos é que possibilita o seu reinado.

      Nosso personagem não quer nos iludir, pois ele é a própria ilusão... Somos nós, em inconsciência, que nos enganamos com ela. Nosso personagem não quer nos aprisionar em seu modo de viver, pois ele é a própria prisão... Somos nós que inconscientemente nos aprisionamos nela.

      A mente egoica é como uma cela aberta, na qual hipnoticamente entramos e lá ficamos. Ela não possui vontade própria de nos fechar nela; o que nos fecha é o medo daquilo que não conhecemos... O medo de perdermos a segurança e tudo o que nos mantém confortáveis. O nosso cárcere é o desconhecimento (ou esquecimento) do que seja a real liberdade - pois se a tivéssemos totalmente e permanentemente integrada em nós, não haveria medo ou esforço em sair da prisão. A libertação seria natural.

      O que acontece é que, ainda que muitos tenham tido flashes de Bem-aventurança, quando a mente retorna, retorna junto a inconsciência e a "amnésia" do que seja o verdadeiro. Fica somente a memória da experiência, porém não fica a Real Presença momentânea do Ser. E se não existe essa Presença, a insegurança e as dependências prevalecem.

      Nosso "erro" é pensar que o Ego, nosso eu, nos (?) ilude, sendo que é o Ser Real que somos que está mergulhado no sono e na ilusão de ser o Ego. No entanto, também não adianta a mente começar a achar que é Ser ou o Eu Superior - como as escolas místicas nomeiam. "Acreditar" é bem diferente de "vivenciar", mas o que geralmente acontece aos estudantes da espiritualidade é cair em mais essa teia venenosa, mantendo isso apenas como teoria. Ter o conhecimento de que existe um Ser transcendente em todos nós, não é exatamente ser esse Ser.

      É bastante confuso à razão captar a essência desse entendimento. E ainda que ela entenda, mais pra frente se esquecerá dessa informação e voltará a atribuir ao Ego uma vontade individual, tornando-o uma entidade culpada pelos nossos enganos: um bode expiatório.

      Alcançar essa compreensão realmente é constatar de vez que não existe culpa, mas desconhecimento do que seja verdadeiro. Não é nos justificarmos ou inocentarmos de nossas ações inconscientes que criam toda gama de conflitos e malefícios. É apenas enxergarmos que a nossa ignorância espiritual/consciencial não pode ser culpada dela mesma, pois só o "acordar" faz enxergar a ilusão.

      Talvez surja a pergunta: "Mas se não podemos criminalizar o Ego, é o Ser, o real responsável pela ignorância de si mesmo?"

      Então, eu me pergunto: "Podemos culpar um ser adormecido? Podemos culpar um sonâmbulo de perambular perigosamente pela casa?"

      Não seria o Ego, o nosso próprio Ser "esquecido" da Verdade?

      Somos Ser, ora inconscientes (Ego), ora conscientes (Presença) nesse gradual despertar.

      Enquanto ainda enxergarmos nossa mente condicionada como entidade intencionalmente sagaz ou embusteira, é sinal de que ainda estamos na ilusão do que seja Consciência... 

      E como disse, é normal ocorrer essa divisão mental. Porém ainda será outra ilusão a ser superada... Mais um véu a ser retirado de nossa visão.


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