COMPAIXÃO COM PAIXÃO


      Hoje queria falar sobre um dos assuntos mais controversos no meio espiritualista, considerado, atualmente, um tabu: o sentimento afetivo.

      Há algum tempo, venho refletindo sobre ele e percebendo o quanto isso foi mal compreendido e tornou-se motivo de preconceitos e rejeição pelos indivíduos que despertam.

      Partindo novamente (sem querer ser repetitiva, mas sendo) pela observação de que a mente funciona pelo viés extremista, pessoas que eram - ou são - bastante carentes emocionalmente ou mesmo dependentes de relacionamentos afetivos e sexuais, quando adentram o universo espiritual de desapego, passam a desprezá-los e diminuí-los, porém numa inconsciente (ou até consciente) intenção de fuga. (E aqui não estou falando de uma honesta solitude introspectiva, em que realmente não há necessidade ansiosa em se estar com alguém).

      Seria uma situação semelhante a de um crente religioso fanático, decepcionado com a Igreja, virando posteriormente um ateu militante ferrenho. Pois é dessa forma que a mente comum trabalha: indo e vindo de um extremo ao outro, sempre.

      Veja... Não estou me referindo aos transtornos obsessivos compulsivos sérios, dos quais se exige mais cautela e acompanhamento... Estou me referindo à carência padronizada da maioria de nós, em que ora fugimos, ora nos deixamos arrastar por ela. 

      Quando ainda estamos dominados pelo Ego, esse sentimento afetivo que eventualmente nos ocorre tende a ser imaturo, inconsequente e conflituoso. Temos ansiedade em ter uma companhia afetiva e sexual e frequentemente metemos os pés pelas mãos. Assim, já com uma companhia "tapa-buraco", pensamos que a carência será preenchida, mas com o passar do tempo "descobrimos" que a carência ainda está intacta em nós, causando angústia, irritabilidade, vazio, frustração e, em muitos casos, as consequentes traições. 

      Já cansadas de sofrer ou sentir-se humilhadas, as pessoas, inevitavelmente, acabam se fechando a um maior envolvimento sentimental, tornando-se indivíduos cada vez mais frios, sem consideração, hedonistas e calculistas. O medo de se machucar as torna superficiais e até mesmo cruéis. 

      Esse é o ciclo "afetivo" condicionado da maioria... Esse é o padrão da mente sem Consciência.

      Todo esse comportamento doentio faz parecer, aos olhos dos que ingressam no despertar espiritual, que todo o problema está no sentimento afetivo, ou seja, que a culpa é toda dele. Taxam-no de "errado", acreditando que ele não deveria existir. O que as pessoas não compreendem é que a raiz do problema não está no sentimento amoroso por alguém, mas sim somente na ignorância de não saber lidar com ele.

      É mais fácil fugir do sentimento... É mais fácil reprimi-lo e dizer que é imaturidade espiritual. Ninguém quer olhar com seriedade a "paixão afetiva", pois é preferível dizer que é somente uma ilusão doentia da mente. E, então, ela é criticada, recriminada, julgada como algo totalmente insano e descabido.

      Ora, mas ela é uma emoção também, como todas as outras: raiva, medo, inveja, culpa... Por que pra ela ninguém quer olhar com atenção e carinho? Por que é a mais demonizada por todos? Acredito que deva ser porque poucos são os que conseguem encará-la e enfrentar todas as sua dores e prazeres, pois, estes, são mais intensos... A grande maioria acredita que é preciso se espiritualizar para extinguir o sentimento da paixão, pois sua conotação é, única e exclusivamente, de "doença".

      Assim como disse que o Amor Universal Incondicional manifesta-se incondicionalmente, mas de forma humana diferente a cada indivíduo (mãe, irmão, filho, amigo, amante, cachorro, etc.). Ou seja, as manifestações de afeto não estão dissociadas do Amor Maior, portanto não são indiferentes (E me desculpem, mas dane-se o que dizem as "escrituras" ou os "gurus")... Disse, certa vez, que a paixão era uma das mais eficazes portas de passagem até Ele. Mas parece que falar isso soa como justificativa, como pretexto, aos intelectuais do espiritualismo... Apaixonar-se é uma oportunidade abençoada de Transcendência que a maioria cospe e joga no lixo. É preciso ser grato(a) a ela (paixão), quando nos acontece, mesmo que a união com quem sentimos essa emoção não seja possível. Platão foi extremamente mal-entendido pelas pessoas, mas aquele que sabe o que é "transcender" o compreende perfeitamente.

      Até mesmo Osho, que é um dos raros e melhores mestres a falar sobre paixão e amor de indivíduo a indivíduo, sem pudor espiritualoide algum, dizia que esse sentimento era uma energia que, se "trabalhada" com Consciência, transformava-se em "compaixão".

      Paixão vira Compaixão, ou seja, o desejo transcendido torna-se Amor.


      Transcender um sentimento afetivo, porém, não quer dizer DEIXAR DE TÊ-LO em nós. Apenas a qualidade dele é que muda - pra melhor. Não ficamos mais dependentes psicologicamente dele; não nos deixamos arrastar pela dor e pelo prazer que ele promove... Ficamos conscientes, portanto imparciais dos extremismos dele.

      A confusão das pessoas é achar que pra se transcender qualquer carência deve-se eliminar as emoções. Não eliminamos emoções, somente tornamos as energias melhor direcionadas e utilizadas para a própria elevação vibracional/ espiritual, na renúncia à contrariedade a elas.

      Apaixonar-se não deveria ser motivo de vergonha ou imagem de gente fraca ou de doente emocional. Pelo contrário... Quem encara e aceita a sua paixão, pode ser considerado um indivíduo muito forte e corajoso, já que a emoção é a das mais intensas e incontroláveis. Mas aí é que está... Não se controla a paixão, mas se utiliza dela pra vivenciar uma amostra temporal de renúncia do "eu", pra se chegar ao estado verdadeiro incondicional.

      Ter sido premiado com essa emoção é como ganhar uma passagem de ida no avião mais rápido do planeta ao destino transcendente final. E ainda que não nos leve diretamente a ele, pode-se dizer que as milhas percorridas até a escala serão muitas.

      O sentimento afetivo é uma faca de dois gumes: ou o Ego se escraviza nele, foge e estagna na elevação consciencial, ou ele liberta o Ser, quando o aceitamos, o observamos, o compreendemos e nos renunciamos ao que é.

      Aposto que você sempre usou a faca de um lado só...


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