A VERDADE QUE NÃO QUER CALAR
Esses tempos atrás fiquei gravando uns vídeos de mim mesma, falando sobre Consciência, Espiritualidade e minha vivência sobre esse Despertar.
Confesso que foi um fiasco. Mas não é porque eu não saiba falar sobre esses assuntos... O problema é que tenho uma espécie de "trava", que não me deixa à vontade quando sei que no momento presente estou dialogando somente com uma câmera. (Caso tivesse um interlocutor, falaria bem melhor - dependendo, até pelos cotovelos).
É algo extremamente desconcertante "discursar" pra mim mesma, ainda que eu pense que um dia alguém poderia me assistir. O que parece ser bobagem à maioria, essa mera situação, a mim, soa bastante falsa. E é exatamente por isso que a coisa fica artificial e não flui espontaneamente.
Minha mente olha as gravações e logo diz: "Como oradora você é uma ótima escritora". Faz uma análise bastante crítica, não só com o meu modo de me expressar, mas também com a minha aparência no vídeo: "Nossa! Acho que você engordou!".
Eu caio na dela, muitas vezes, mesmo tendo consciência de que seja um julgamento egoico. Mas, agora, por mais que eu a escute, não "brigo" mais com ela e nem a critico. Apenas mantenho minha atenção em seus pensamentos. Então, por isso, percebo que não é porque já temos consciência das vozes neuróticas da mente, que automaticamente nos libertamos delas. A libertação ocorre independentemente de nosso querer... Ela naturalmente acontece com a nossa constante imparcialidade, inclusive - e principalmente - dessas vozes.
O grande lance, depois de uma certa caminhada de Despertar, não é mais ver as nossas falhas como vilãs, mas apenas como falsas ou pré-adquiridas. Simplesmente isso... Porque muito do que achamos ser virtudes em nós, será também um comportamento falso e pré-adquirido. Portanto, serão essas "virtudes" os nossos maiores pontos cegos ou entraves, já que pra essas ninguém se importa de ter atenção. Pelo contrário: as venera e alimenta, estagnando na "caminhada consciencial".
Há muitas armadilhas nesse processo; e uma das mais frequentes é a de nos fazer "humildes", "bonzinhos", "equânimes" ou "sublimes". Saímos de um comportamento conflituoso, agressivo e melindroso, e forçosamente caímos num artificial estado de amabilidade: a máscara mais difícil de se tirar (ou a de se fazer cair). Vide: falsos gurus.
Não que devamos ser grosseiros, mal-educados, hostis ou antipáticos... Não se trata disso. Mas é uma questão de enxergar quando estamos sendo sinceros, ou quando estamos sendo somente gentis ou convenientes - saber diferenciar quando é a mente agindo e quando é o seu Coração.
Muitas vezes não é nem ter aquilo que chamamos de "falsidade". Podemos até mesmo gostar de várias pessoas das quais encontramos ou convivemos. No entanto, devido ao modus operandi social, as pessoas funcionam de maneira mecânica e previsível, não tendo a mínima abertura a uma relação mais profunda e honesta. Tudo se limita a superficialidades e futilidades do cotidiano. Ou seja: o trivial se sobrepõe ao real.
A convenção é uma constante em nossa vida em sociedade. Não há como fugirmos disso, a não ser que nos isolemos nas matas ou nas montanhas. É importante, a nós que despertamos, saber lidar com essas inconvenientes conveniências.
Eu tento lidar naturalmente quando elas se apresentam. Não me revolto, mas também não mais me prontifico a ser uma normótica participante de todos eventos sociais ditos de valor. Faço minha "atuação teatral" quando o momento pede, mas admito: sou péssima atriz.
Digo isso porque me parece que quanto mais descobrimos quem não somos - e o Ser Real começa a se manifestar -, mais vai ficando difícil interpretar um papel de "pessoa comum". Nossas falas, agora conscientes, vão se tornando cada vez mais artificiais e o mal-estar de ver isso, muito maior. Nessa sensação desagradável, vem a mente e diz: "É culpa sua! Por que não age de forma verdadeira? Sua hipócrita!".
Porém, algo em mim sabe que nessas ocasiões não há espaço e nem brecha para sermos quem de verdade somos. Ser quem eu sou e dizer às pessoas o que sinto da vida e começar a "filosofar", seria pedir pra que me prendessem numa camisa de força. Se um breve comentário mais profundo causa uma nítida irritação nos meus familiares, que dirá mostrar o que a lucidez realmente me proporciona aos desavisados.
A tarefa não é nada fácil a quem foi chamado à Verdade. Despertar é tornar-se um verdadeiro equilibrista. É preciso ter sensibilidade pra saber "quando", "onde" e "como" manifestar-se como Consciência.
Apesar disso, eu não deixo de participar de certas convenções sociais. Faço o meu papel sem me importar em "mostrar quem sou". E mesmo sentindo-me pouco à vontade, por ver toda a superficialidade, sou conscientemente gentil e cordial. Fico apenas consciente da atuação do meu personagem, aproveitando para perceber todo comportamento condicionado das pessoas. Sem julgar de errado, mas só percebendo o jeito adquirido de cada um.
Não é agradável. Como eu disse no início, constatar o falso me impede de agir de forma natural. Existe um certo bloqueio em mim que não me deixa "interpretar" uma encenação, quando sei que é algo artificial. O que pra maioria é "fichinha" ou que sabe tirar de letra, pra mim é quase uma tortura: minha mente fica confusa e acabo falando "nada com nada". Às vezes dá até a impressão de que entra um "bug" no meu sistema, que o que era pra ser dito, eu não digo; e o que era desnecessário dizer, acabo falando. Dá "tilt", como na minha época se falava...
Deve ser por isso que também tenha dificuldade em "fazer joguinho". Saber interagir é uma coisa, calcular um modo de ser pra ter aprovação do meio ou conquistar os outros, é outra, completamente diferente.
Sempre frisei que tenho uma máscara (Ego) como todo mundo. Contudo essa máscara, desde nova, parecia ter uma limitação, em que ao dar autonomia a ela, era como estar sufocando a minha essência - matando-a por asfixia. (Por esse lado a "trava" é benéfica).
Eu não conseguia ter uma personalidade exuberante, engraçada ou admirável como muitos. Mas, ironicamente, quando conseguia ser espontânea e sincera, eu chamava a atenção dos outros, sem intenção ou esforço.
Por isso sempre enfatizo que o saber diferenciar Coração de Ego é uma das coisas mais importantes nesse retorno à Consciência. Enquanto ainda se confunde as duas vozes, a vida será de conflito, falsidade e dor.
Basta saber o que é falso e o que é verdadeiro; e não exatamente julgarmos o falso... Equilibrarmos nas cordas bambas da vida e ter a prática de saber a hora certa de dar um passo à frente ou pra trás... Enxergar o movimento e a atuação da mente, sem brigar com ela.
Ver... Apenas ver...
Assim com o tempo, na constante percepção, permitir que o verdadeiro Ser assuma o comando de vez...
Sem precisar se importar com falas bonitas, oratórias impecáveis, aparências perfeitas, ou personalidades exuberantes. Ser totalmente Coração, mesmo em meio a um mundo extremamente artificial, fútil, cheio de convenções e calculismos.



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