A INCONDICIONALIDADE DO SER
Uma das coisas mais difíceis da nossa mente conceber é a INCONDICIONALIDADE... Não só do Amor, mas também da real Felicidade.
O problema é que pelo fato da razão ser materialista, pragmática e cética, ela entende a visão subjetiva da vida de forma limitada, taxativa e pré-conceitualizada, não compreendendo o sentido verdadeiro da espiritualidade ou da filosofia.
Um questionamento clichê dela é: "Como pode haver felicidade incondicional, se necessitamos de várias condições para viver bem ou sobreviver?"
E outro: "Como é possível amar incondicionalmente um inimigo, um criminoso ou um sujeito que só "ferrou" a nossa vida?"
Por mais infantis pareçam essas perguntas a quem teve a benção da Graça e do Amor em algum dado momento da vida, são as perguntas mais frequentes e comuns da maioria que desconhece o que seja esse sentimento.
Mas quando falamos de "felicidade incondicional", obviamente não estamos nos referindo aos fatores básicos e imprescindíveis para um humano ter condições saudáveis de vida. Ter morada e alimento são essenciais a qualquer animal; e ao humano, inclui-se vestimentas, higiene, educação e uma atividade vocacional. (Essas duas últimas, porém, ainda dependentes de alguns fatores).
Não depender de condições externas para ser feliz, na filosofia oriental, principalmente, quer dizer não se prender a carências emocionais ou de sensações físicas que o valor materialista, o valor de status ou respeitabilidade, e o valor de aceitação social promovem. Seria estar íntegro, bem e sereno, ainda que as condições financeiras não fossem das melhores, não tivéssemos prestígio ou algum papel admirável na sociedade, e que as nossas relações humanas fossem diminutas ou até vivêssemos bem solitários. Ser feliz incondicionalmente, nesse contexto, é estar liberto dessas condições secundárias - é ter a Fonte de paz e alegria dentro de si mesmo. Isso, geralmente acontece àqueles que já não associam "felicidade" com "experiências boas", mas sim com a "vivência de ser quem se é".
E ainda que valorizemos muitas pessoas com quem nos relacionamos, também muitas experiências de vida e várias sensações que sentimos (fisicamente e psicologicamente), não existirá mais a NECESSIDADE ansiosa e dependente dessas coisas. Tudo terá valor e sentido, mesmo que ao mundo pareça sem graça, pobre ou insignificante. A maioria das pessoas acha que para se "estar bem" é preciso FAZER coisas interessantes, estimulantes, conhecer gente, lugares, sair à noite, namorar, transar... É impossível à mente entender que Felicidade Verdadeira é incondicional do ter, fazer ou ser um alguém "aplaudido"... Felicidade Verdadeira é saber QUEM SOMOS realmente. Apenas isso; o resto vem como acréscimo.
Já na questão do Amor Incondicional, quando os ensinamentos espirituais nos apontam de "amar os nossos inimigos", sabemos que não se trata de sentirmos afeto e alegria por eles. Seria insanidade sentir carinho pelo assassino de um ente querido ou um trapaceiro sociopata... Nesses casos, amar sem condições é ter a consciência de que qualquer indivíduo que tenha nos prejudicado, é perdido de si mesmo - portanto espiritualmente doente - mas que se tivesse em sanidade não cometeria atrocidades ou qualquer tipo de mal aos outros. É saber que a essência dele é a mesma essência pura de todo ser humano, mas que foi soterrada e impregnada de "lodo" (ignorância espiritual/consciencial).
A incondicionalidade é totalmente possível ao humano. Basta estar disposto a constantes mergulhos em si mesmo e renúncia dos padrões adquiridos.
No entanto, há muito misticismo sobre o assunto e uma ideia errônea do que seja esse amor impessoal. Infelizmente, muitos dos que adentram aos estudos espirituais, começam a acreditar que quem ama de forma desprendida ou universal ama a todos de forma idêntica - sem distinção na maneira de manifestar esse amor. Confesso que fico um tanto inconformada com tal distorção ou mal-entendido... O sentimento de Amor (ou a energia que ele representa), ainda que seja único e absoluto, varia sua forma de expressão em termos humanos, dependendo a quem dirigimos. Podemos amar a todos e à tudo sem haver diferenciação em intensidade, mas o modo de manifestação desse sentimento a cada pessoa será diferente.
Por exemplo... O Amor em mim, ainda que seja incondicional, ao ser expresso à minha mãe ou a meu pai será diferente do Amor expresso ao meu companheiro afetivo. O Amor pelos meus amigos será diferente do expresso pelas minhas sobrinhas, e assim por diante...
O que eu percebia constantemente, no início do Despertar, era a confusão enorme que a teoria do Amor Universal causava às pessoas, pois, estas, acreditavam que deveriam amar a todos de modo frio, indiferente, sem distinção ou cuidado pessoal, porque o que o Ego dizia era que isso era ser IMPESSOAL; (Claro... elas acreditando ser esse Ego, a Consciência do Ser). Confundia-se "desapego" com "frieza", e em casos bem piores, confundia-se "amar universalmente" com "transar com todos, sem ciúmes ou possessividade". Tipo a máxima: "Ninguém é de ninguém e o Amor deve ser livre". Mas eu me perguntava: "O que o sexo livre tem a ver com o Amor Maior?!!"
Eu achava tudo estranho e sem sentido... Mas quando ainda não temos autonomia consciencial, é normal acreditarmos naqueles que possuem reputação e respeitabilidade nos grupos; pensamos que nós é que não estamos libertos dos condicionamentos, pra descobrir mais à frente que quem está preso são esses que acreditam no engodo que a mente apresenta, usando dessa crença pra ter mais prazer sensorial e menos envolvimento emocional. Hoje, nomeio isso de "Teoria de guru-comedor".
É paradoxal, mas Amor impessoal é extremamente pessoal, no que consiste o cuidado, o carinho, a consideração e o afeto às pessoas próximas. Não existe apego, mas existe companheirismo e compromisso.
Por esse motivo eu tomo muito cuidado ao dizer para qualquer pessoa sobre o que seja esse sentimento sublime. E tento alertar que ser impessoal no amor não tem nada a ver com ser indiferente, frio e liberalista.
A incondicionalidade ou a impessoalidade não nos faz seres sem emoção. Apenas a usamos com total consciência e responsabilidade - sem que seja um ordinário controle da mente. Desapego nunca foi nos tornar "robôs espiritualizados".
Pois não depender de condições para amar e ser feliz nos faz muito mais sensíveis, cuidadosos, calorosos, humanos, humildes e íntegros... Com os outros e conosco.



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