O PESADO ENTRAVE DA RESPONSABILIDADE
É fato que nossa inconsciência causa sofrimento e ações inconsequentes.
É fato que somos seres infantis, criados em uma cultura egoísta, começando aos poucos a acordar e compreender a realidade.
E é fato que nesse acordar, a maioria comece a constatar o falso e o desagradável em si e no mundo.
Passadas a revolta, a aversão e a culpa de ver tudo isso, existe um passo além no qual não há mais acusações de quem ou do que seja responsável por todos os males. Mas há a constatação de fatos negativos ou positivos, tanto internamente, quanto externamente. Portanto, constatando fatos há consciência de que uma coisa não se separa da outra: são simultâneas e interdependentes. Pois se não há culpa por sermos imaturos, por não alcançarmos a Verdade e por sermos impotentes quanto a "melhorias", não existe o agente da causa como total responsável de tudo.
Quem está no processo de Despertar, naturalmente se tornará crítico - não há como evitar tal fase. Uns poderão estagnar nela, outros a transcenderá. Porém o grande erro está em achar que a transcendência desse estado crítico seja o de voltar toda a carga de responsabilidade a si próprio, caindo novamente no mesmo estado crítico, contudo com o dedo apontado, agora, unica e exclusivamente ao indivíduo. Tanto aquele que joga a culpa nos outros, como aquele que abarca toda responsabilidade pra si, não está em harmonia consigo mesmo.
O estado ácido continua o mesmo; só muda o alvo. Continuar a enxergar o Ego como a um monstro, não ajudará a transcendê-lo. No entanto, não quer dizer que não o enxerguemos com suas fraquezas, apenas compreendemos que "o cego não tem culpa de ser cego".
Criticar o comportamento, tanto do mundo, quanto o individual, também são fases do Despertar. Mas é preciso alcançar o entendimento que mesmo transcendendo essas fases, não deixaremos de ver e constatar o "feio", o "insano", a "crueldade", a "falta de caráter" e o "egoísmo" humano. Quando algo se apresentar a nós como negativo, não podemos forçar-nos a vê-lo como lindo e benéfico, mas sim compreender que por trás daquilo existirá uma aproveitamento em sabedoria e autocentramento, caso consigamos percebê-lo.
Não é tirar o valor do fato negativo e demonstrar indiferença - disfarçada de equanimidade. É preciso admitir que é desagradável muitas situações na vida e em si, e aí, sim, a partir disso tirar proveito como conscientização e fortalecimento do Ser.
Corrupção, assassinatos, roubos, estupros, abusos, chantagens, inveja, competição são coisas que nunca serão boas ou positivas. Você não pode ficar indiferente a elas, só porque são acontecimentos externos, e dizer que "foi necessário" ou que "pedimos por elas". Não é necessário no sentido de ser algo imprescindível ao nosso Despertar, pois ainda que a dor seja o grande gatilho, a desgraça humana, em sua maioria, perpetua a insanidade através de ódios e vinganças. E não pedimos por elas, pois o ato de querer sugere consciência, e no caso, ninguém em sua sanidade pede conscientemente por desgraças; o máximo que fazemos é atrai-las inconscientemente. Porém, inconsciente estamos todos nós e o mundo; uns mais e outros menos.
A crítica é importante apenas a uma coisa: apontar o que a maioria não vê. A crítica só é construtiva quando denuncia o que as pessoas estão tomando como verdadeiro, ideal e bom, sendo algo muito nocivo a se espalhar como vírus. Mas pra que possa ter uma boa utilidade, quem critica deve ter uma visão mais ampla, ser desprendido de conceitos cristalizados e já estar ancorado na moral pura do Coração. Não seremos 100% em todos os requisitos, mas é preciso sabedoria e humildade já como parte de si mesmo.
Quem é verdadeiramente humilde não responsabilizará nem um lado ou outro, mas terá consciência de que uma coisa alimenta a outra, reciprocamente. Tanto o ambiente, os dirigentes do mundo, o sistema doentio, quanto cada um de nós e os nossos apegos formamos uma máquina de insanidades, da qual cada engrenagem depende uma da outra. Resta aos que acordam parar gradualmente o movimento dela; mas não ficando alheio ao mundo externo e tudo o que nos acontece, achando que temos total responsabilidade.
Eu pergunto: "Como ter total responsabilidade se o Ego é impotente diante de suas fraquezas?" O que nos faz transcendê-las não é o desejo do Ego de transcendê-las, mas a rendição dele ao que é, e a partir dessa rendição, vem a ação correta. E se nosso personagem foi tão condicionado e corrompido, assim como nossa sociedade, onde há culpa neles?
Somente quando há Consciência há responsabilidade; e o paradoxo é que quando Ela está presente não existe insanidade. Portanto Ela só pode ser responsável pelo que é benéfico, nunca pelo que é doentio. E quanto ao Ego, este é um sonâmbulo; qual a responsabilidade que um sonâmbulo tem ao abrir uma janela do quinto andar e pular, sendo que ele acredita que pode voar?
A falsa entidade não deve ser jogada na fogueira. Ela é apenas uma pedra no caminho que deve ser retirada, mas sem ter a culpa de estar no caminho.
Eu aponto toda a cegueira do cego, pra que aqueles que estejam voltando a enxergar percebam quando um ponto ainda não está muito visível. E todo apontamento é uma alerta a mim mesma. Percebo, porém, que ainda que toda crítica seja vista como rancor - e não posso evitar que seja -, o discernimento do que é apontamento à incoerência humana e do que é recriminação à incoerência humana, fica cada vez mais nítido a mim... Pois existe diferença.
Tento alertar sem intenção de humilhar, por mais que isso também não dependa de mim... Tento alertar para que aqueles que estão trilhando por um caminho de enganos, fachadas e falsos valores possam retornar ao caminho de luz, humildade e Verdade...
Sou contundente e por vezes até agressiva nas palavras - sem dizer que isso seja certo ou errado... Mas é para mostrar a contradição que, em geral, as pessoas caem por simples desatenção. Não mais como antes, em que também criticava por querer me "apartar" ou me diferenciar do resto do mundo.
Tenho muitas fraquezas em mim, mas não me censuro ou censuro mais os outros como fazia. Censuro a inconsciência, a crueldade, o narcisismo, a idolatria, a indiferença, o interesse escuso, a imoralidade, sabendo que o seu agente é ignorante de quem verdadeiramente é.
Não há contradição e nem hipocrisia em constatar que há fatos ruins e desagradáveis e que, sim, há pessoas de muita má fé no mundo... E ao mesmo tempo compreender que elas não são culpadas - e nem eu - de estarem desequilibradas e perdidas de si mesmas.
A função do Ego é a de ser uma pedra...
E a da Consciência a de, simplesmente, ser um instrumento de remoção.



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