O EGO É CONTRADIÇÃO
Existe uma coisa em mim, que talvez me diferencie da maioria das pessoas, que é a absorção e a integração de um ensinamento espiritual em meu ser, porém não como aprendizado, e sim como real despertar daquilo que sou.
Os ensinamentos são apenas catalisadores do que já existe dentro de mim. São como chaves que vão abrindo cada vez mais minha percepção própria; não algo que se instala como memória ou conteúdo adquirido na mente.
Talvez seja essa a verdadeira função dos legítimos ensinamentos: desbloquear a consciência em nós. Mas o que na maior parte das vezes acontece é pegar tais materiais e guardá-los na memória, fazendo com que se esqueça facilmente um apontamento ou outro. Explico.
Comecei a perceber como funcionava a minha mente... Meu lado lógico ou racional é bem falho nas questões de memorizar coisas como: nomes, números, localizações, datas, códigos, senhas, etc. Descobri que é devido a isso que tenho dificuldade em atividades técnicas e que exigem coordenações repetitivas. Os números na matemática, por exemplo, são muito mais compreensíveis a mim quando representados em imagens, e não tanto em seus algarismos. No entanto, quanto ao que as pessoas falam, contam, fazem ou sentem, fica tudo gravado em minha memória durante anos e anos. Talvez por isso eu veja tanta contradição nas pessoas, por elas acreditarem e dizerem veementemente algo e, depois de um tempo, logo dizerem o contrário. Mas não por maldade ou por ser de propósito; e sim porque realmente elas não se lembram do que dizem.
E porque isso ocorre nelas? Acredito que porque suas falas e condutas fiquem somente na memória lógica e não numa "memória" que é do Ser... Num tipo de memória que não depende do lembrar, mas sim que simplesmente faz parte do que somos.
E no que esse tipo de "memória" me ajuda? Ela ajuda a, além de evitar a cair em contradição, a perceber quando a mente está reagindo ao ir de um extremo oposto ao outro.
Eu, em certo período, muitas vezes ficava cansada de repetir as mesmas coisas em relação às percepções conscienciais, pois achava estranho muitos caírem o tempo inteiro em incoerências. Aquela máxima de que brasileiro tem memória curta, durante um bom tempo fez sentido a mim. Mas acabei descobrindo que não é que alguém tenha memória curta: a memória em si é curta.
Isso que chamo de "memória do Ser" não são lembranças emocionais ou lógicas... São apenas fatos registrados pra que não cometamos os mesmos enganos que a mente inconsciente sempre comete. Seriam registros que ajudam nossa percepção, apontando que tal extremo já andamos, e que o outro extremo está de braços abertos a nos agarrar.
Podemos estudar uma vida toda a filosofia budista e o "Caminho do Meio", mas somente compreenderá aquele que não guardá-la apenas na mente. Entender que a medida de tudo é ter equilíbrio, por si só não adiantará em nada. Tentaremos o tempo todo ser moderados, não compreendendo que até mesmo a moderação deve ser "moderada" pra que isso não vire mais um decreto sistemático. Ou seja: não existe "regra" a ser seguida ao pé da letra, pois cada caso será um caso.
Há muita incompreensão do que seja ser neutro ou equânime. Quando nosso Ego quer atingir um estado equânime, ele, sem dúvida, cometerá vários enganos. A mente funciona de forma mecânica, taxativa e generalizada, pois ao descobrirmos que algum tipo de conduta não é saudável, ela cairá no outro extremo - por vezes até de forma falsa -, recriminando o oposto. É o que eu sempre falava e falava sobre a aversão aos dogmas e preceitos religiosos... Não adianta nada querer se libertar de uma crença repressora, caindo no extremo oposto dela: a libertinagem. Você não se liberta sendo a favor ou condescendente com drogas, promiscuidades, ou sendo amoral... Tudo isso ainda é estar na ilusão. E o mesmo digo pra tudo: positivismo exagerado, responsabilidade pra si exagerada, busca do bem-estar exagerada, modéstia exagerada, rotulação exagerada, ação exagerada, passividade exagerada, comunhão exagerada, tolerância exagerada... Tudo o que a mente é: exagerada.
Confunde-se também o equilíbrio e a sensatez do Ser com ser indiferente ou amoral a coisas nocivas - que aprisionam. A neutralidade nunca será alcançada através da mente (Ego), pois qualquer tentativa dela será apenas um artificial - e errôneo - adestramento.
A contradição está por toda parte... Ela está em mim e em todos nós. É por isso que é tão importante o despertar da "memória do Ser", pois ela não deixará que nos enganemos com os opostos do Ego. Sendo a Consciência, não precisamos lembrar o que estudamos, lemos ou ouvimos de filosofias espirituais, e nem precisamos nos preocupar em esquecê-las, pois estarão integradas em nós, quando verdadeiras.
A Consciência é aquela que percebe todas as jogadas e os movimentos do Ego, porém não o julga. Pois sabe que o Ego é, na verdade, a Ela mesma enganada por estar inconsciente de si.



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