A MISSÃO DOS NIPO-BRASILEIROS



       Uma coisa que sempre fiz questão de frisar era que "espiritualizar-se" ou "desidentificar-se do Ego" não era deixar de ter identidade.

      Todos nós temos uma personalidade e através dela manifestamos o verdadeiro Ser. Tive a oportunidade de dizer várias vezes que não se extingue o personagem e que mesmo os sábios mestres tinham o seu.

      O desapego é erroneamente confundido com "o deixar de ser humano" ou de ficar indiferente a todos e a tudo. Mas desapegar-se é apenas deixar de ser controlado por suas próprias crenças, conceitos, emoções pra que não vire sofrimento e drama... E não, exatamente, deixar de ter crenças, conceitos e emoções.

      Porém é preciso uma percepção muito minuciosa e aguçada para diferenciarmos quando é uma reação inconsciente egoica e quando é uma ação apropriada para se abrir mentes.

      Digo isso porque se não agimos ou manifestamos nossas visões sobre fatos, a inconsciência coletiva permanece e, assim, o mundo torna-se fragmentado em falsas ideias.

      O que quero expor com toda essa introdução, é que não se pode negar fatos; e fato é que eu encarnei nessa vida como uma brasileira descendente de japoneses. E será que existe um motivo por trás disso? É tão irrelevante esse detalhe, ou será que minhas características ou vivência dessas duas culturas têm sua função e objetivo?

      Há um propósito em sermos do jeito que somos com nossas características únicas - sejam elas físicas ou culturais. Não é porque temos consciência que somos todos um, essencialmente, que todo o resto deve ser rejeitado e jogado no lixo.

      É importante valorizarmos a herança cultural sem que façamos dela armas ou muralhas. E pra que não virem muralhas é preciso comunicação e esclarecimento.

      O modo de viver de um indígena, por exemplo, só é conhecido através da convivência com o seu povo ou da divulgação por parte dele de sua cultura. O mesmo vale para qualquer etnia. Ter ideia apenas por suposição e de ouvir falar dá margem a interpretações erradas que, em geral, criam preconceitos e caricaturas bizarras.

      E foi isso que ocorreu com os japoneses durante muito tempo. Por, estes, serem muito reservados, o povo ocidental criou estereótipos ridículos devido a sua discrição e até ingenuidade. Sabe-se que japoneses não possuem muita malícia e sagacidade como os brasileiros, mas isso por si só não constata que sejam idiotas ou debiloides.

      Somente de uns dez anos pra cá, o povo japonês ganhou respeito e admiração graças aos jovens internautas brasileiros. Não fosse a INTERNET, ainda seríamos relacionados unicamente e de forma pejorativa a Jaspions e Nacional-Kids da vida.

      Não era suficiente a comunidade nipo-brasileira demonstrar um pouco da cultura, pois a moral era extremamente baixa pra que os outros reparassem em tão bela e rica herança. O choque cultural foi tão grande que a maioria se fechou em seu grupinho, distanciando-se do resto do país. Pode, sim, ter existido preconceitos de ambas as partes - brasileiros e japoneses -, o que presume-se que a falta de conhecimento é o grande abismo entre todos os povos. Mas a verdade é que os primeiros imigrantes japoneses acharam que teriam uma boa receptividade do Brasil - chegando a pensar que os fogos e rojões que soltavam no porto de Santos eram pra eles - que a realidade nua e crua de como foram tratados foi algo traumático e doloroso.

      Depois de mais de um século de imigração japonesa, é que o Brasil finalmente está abrindo as portas ao modo de ser oriental. Mas não por causa da mídia brasileira que só escarneceu o povo; e sim por causa do interesse dos jovens.

      E ainda que a TV tenha dado algum certo destaque ínfimo durante esses cem anos, nunca conseguiu retratar os nikkeis e nem a considerá-los parte integrante da nação. Italianos, portugueses, espanhóis, alemães, árabes, e povos da África são faces do povo brasileiro, mas a raça amarela não terá ninguém como real representante, por questões óbvias de aparência...

      A homenagem aos japoneses (ou orientais) na abertura das Olimpíadas do Brasil, representando todos os imigrantes, não foi só uma mera lisonja aos descendentes... Foi um sentimento de consagração e reconhecimento a tanto tempo esperado. Fomos sempre coadjuvantes - quando não, totalmente esquecidos - no país, e finalmente o mundo todo soube que japoneses também se enraizaram aqui. 

      Nós, descendentes de japoneses, chineses, coreanos, temos a função de trazer o "oriente" pra cá. Mas não com a intenção de exterminar a cultura ocidental como muitos acreditam que possa acontecer. Temos a função de colaborar com a experiência milenar baseada na sabedoria oriental e sua sensibilidade, coisas diferentes da cultura europeia e africana.

      Quando não se reconhece a contribuição de um povo, dificilmente há possibilidade de ser ajudado no desenvolvimento de uma nação. Portanto, ser homenageado somente pela cultura e não pelo povo em si, não significa nada a nós nipo-brasileiros. E ainda que se admire o Japão, porém sem ter o mínimo convívio com a cultura e seus descendentes, a representação do que foi a imigração aqui será sempre superficial, estereotipada e não-representativa.

      Falar de fato sobre uma cultura e utilizar-se da cultura como chamariz ou cenário são coisas bem diferentes. Mas é o que a mídia sempre fez, colocando-nos como exóticos bibelôs ou figura patética em piadas de mau gosto.

      Se querem homenagear o Japão que tenham mais interesse pelo povo e não só pela sua excentricidade. Pois quando se conhece os sentimentos, as visões e o conhecimento pessoal dele, descobre-se sua verdadeira missão e essência no planeta, assim como na contribuição a outros países. 

      Meu Ser só tem a agradecer por ter nascido no Brasil e pelos japoneses terem sido tão corajosos em emigrar e construir morada neste país. Sou grata pelo propósito de expandir sabedoria e conservar o hábito da contemplação dos orientais.

      E pra isso, é preciso expressar o que a maioria dos nipo-brasileiros não tiveram coragem, por inibição ou falta de iniciativa. É preciso quebrar tabus e a falta de conhecimento que só a comunicação, consciência e a atitude permitem.

      Pois se não existir manifestação de se colocar os pingos nos is, haverá sempre preconceitos, estereótipos, menoscabo e distorções em relação aos fatos, tratando tudo o que seja "ouro" como simples porcaria.


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