O QUANTO ESTÁ DISPOSTO A PAGAR?

     



      As pessoas só queriam que eu fosse normal. Apenas isso.


      A elas o que importa é ter segurança, estabilidade e dinheiro para sobreviver... Seja como balconista de loja ou como uma garçonete. Tanto faz.

      É bem visível a crítica e a incompreensão deles por eu não ter "dado certo na vida" e não ter seguido o script autômato-social ditado pela maioria. Não compreendem que a escolha que tive foi pelo encontro do meu Ser e pelo meu propósito maior de viver.

      Poucos entendem que o espírito artista é muito mais do que um hobby e que o aprofundamento espiritual é muito mais do que um gosto. É preferível a eles matar o dom a ter que ser um fracassado na vida sistemática normótica.

      Muitos não querem que eu tenha essa visão "forasteira" do mundo, mas ao mesmo tempo não desejam que eu seja uma pessoa de grande sucesso e reconhecimento. Eu, sendo um alguém medíocre ou estando nivelada por baixo, é o ideal aos que não suportam a luz de um talento.

      Mas mais do que essas reações comuns, o mais desafiador a quem Desperta é ser alvo de torturantes olhares piedosos - por vezes críticos - e de mal-estar quando se comenta a vida "feita e estável" de outra pessoa. É como se a sua presença fosse um delicado "pisar de ovos", do qual falar do sucesso e da segurança alheia fosse razão de inveja e vergonha a você. A mente comum acha que você sente-se mal por ser um suposto "perdedor" ou "desocupado". Nem sequer imaginam que a escolha foi sua e que acha o mundo um sistema de escravidão a céu aberto, assim como o pasto é para o rebanho.

      Há aqueles ainda com um julgamento mais crítico, já que suas concepções de sucesso são de nível superior. Se você não fez faculdade, o pré-julgamento sobre sua pessoa será de que é ignorante, desinformado, sem cultura, sem capacidade de cognição ou então portador de algum atraso mental ou problema psiquiátrico. Não se interessam sobre o que pensa da vida, do mundo, das pessoas - sobretudo o que sentem. Eles só querem saber se você faz isso ou aquilo e o que conquistou materialmente ou profissionalmente.

      Quando é comentado sobre o novo emprego de fulano, o casamento de tal pessoa, o nascimento de um filho, a formação na universidade, o aumento de salário e de cargo, a maioria se entusiasma e se derrama em elogios e festa. Mas quando é comentado sobre o fato de eu estar escrevendo um livro e trabalhando na sua publicação, o que poderia ser motivo de admiração e orgulho, é visto como um sonho bobo ou motivo de uma possível decepção. A eles é um delírio seu e algo que não é de direito fazer - só aos estudados, cultos e intelectuais de carteirinha. Dizer que, você, "pé rapado(a)", está para publicar um livro, é uma afronta aos que se dedicaram anos e anos em formação acadêmica.

      A mudança no tom de voz nitidamente sinaliza um descrédito. Não se interessam nem mesmo pelo tema do seu livro - o que importa é o como e o quanto você vai obter de lucro, não a mensagem que quer passar. Falar de escrever livros, publicá-los e ser uma possível escritora é como falar de extraterrestres, mudando, assim, rapidamente o assunto da conversa a futilidades rotineiras.

      Mas quanto à rotina de quem escolheu investir no dom e no propósito maior de vida, é esse o seu constante teste e "enfrentamento": ser alvo de desdém. É esse o sacrifício que a pessoa deve estar disposta pra se viver de acordo com o seu Coração. Pois enquanto seu propósito não promover status e prosperidade, você será taxado de inútil, desocupado e de mero sonhador. Porém, caso arranje um emprego de operário ficarão bem mais contentes e terão um pouco mais de consideração por você.

      Ainda que seja desagradável a sensação de menoscabo dos outros, não os culpo por serem tão sistematizados. A vida e o mundo os fizeram assim, fui eu que tive a sorte - apesar dos pesares - em não conseguir me ajustar ao padrão condicionante.

      O que as pessoas em geral acreditam, é que quando não somos "certinhos" aos valores do sistema é porque somos seres fracassados e rancorosos por não termos tido sucesso social. Nem sequer perguntam o motivo de enxergarmos a vida como artificial e ególatra, pois logo nos rotulam de incompetentes, indolentes, ou de ingratos. Elas nunca se interessaram em saber que desde os meus dezessete anos vejo a falsidade e a ilusão do modus operandi do mundo, abandonando uma "promissora" vida de universitária e de me tornar mais uma profissional "ganha-pão" - não a profissional de vocação (paixão). Pensam também que não temos responsabilidade e discernimento em saber o que é básico para se viver com dignidade e certo conforto.

      Penso, no entanto, que a Vida me proporcionou o caminho ideal a trilhar para que hoje pudesse ter tempo - e dinheiro - em investir em mim mesma, já que não tive incentivo necessário a um norte na vida. Na minha mediocridade, eu não teria tempo e energia para escrever, refletir e muito menos me aprofundar no Ser. Estaria PRESA no status quo adquirido com todas suas exigências, cobranças e formatações.

      Você é capaz de abandonar as aprovações do meio em prol de sua mais legítima vocação? Tem força e centramento em aguentar o menosprezo, o olhar de dó, a crítica e o descrédito dos outros? Consegue suportar emocionalmente todas as pressões do ambiente para o ajustamento à normalidade social?

      Resumindo: "O quanto está disposto a renunciar em nome da Verdade e da sua verdade mais essencial? Daria sua vida à realização da Alma ou apenas se lhe trouxesse retorno e reconhecimento?" 

      É preciso um caráter extremamente ilibado para se enfrentar o menosprezo e a rejeição das pessoas. Se você é aclamado socialmente em sua vidinha de faz-de-conta, caras e bocas e de fachadas, dificilmente irá sacrificá-la em favor de sua mais pura Essência.

      Mesmo que me acabem tempo e dinheiro, continuarei escrevendo. Não sou como muitos que possuem recursos e tiveram apoio dos mais próximos para a realização de seus sonhos... Não tive as facilidades que a maioria teve. Mas talvez por isso que eu caminhe em direção ao "tudo ou nada", pois não tenho nada - literalmente - a perder. Não tenho filhos, não tenho carreira, não tenho marido, não tenho nada que me prenda... Sou livre para me "isolar numa montanha" e deixar a minha mensagem ao mundo...

      Pois é esse o meu propósito: escrever sobre o que há de mais primordial à vida... Ainda que debaixo de descrédito, crítica e do olhar piedoso da maioria.


Comentários

Postagens mais visitadas