A IMPESSOAL BUSCA PELA VERDADE
Tive uma reflexão que talvez não agrade a maioria das pessoas...
Mas terei que escrevê-la mesmo assim.
Não acho que deveríamos desistir de buscar a nós mesmos. Pra que haja mais Liberdade e Consciência não existe outra direção: ou você mergulha de cabeça ou você deixa isso pra lá. Nesse caso é algo bem oito ou oitenta...
Só que essa tal "busca" é bastante mal-interpretada, como se isso fosse ir atrás de algo pra se possuir, ou então, agarrar um estado de ser, que em sua natureza é impossível de se agarrar ou manter intacta pra si.
Então, sim, há um enorme paradoxo nessa questão da Realização Plena.
Não farei conjecturas do que seja Iluminação e nem direi que o estado de completude não exista. Pra mim que já vivi o êxtase espiritual, sei que ele existe... Já, se ele é permanente não posso afirmar, mas posso expor o que sinto disso.
Uma vez vivido um sentimento de Amor extramundano, não tem mais como negar o desejo em voltar a ele. Não concordo que devamos nos acomodar nesse estado mental medíocre e neurótico em se viver. É preciso, sim, vontade e muita entrega pra se apartar dele. Mas essa vontade tem que partir do Coração e não do Ego (mente egoica).
Existe diferença entre os dois "querer". O Ego quer atingir a Realização meramente por ganhos - ele quer sentir paz, amor e felicidade, e se livrar do sofrimento. Tudo bem... Natural querer. Mas é sempre o Ego lutando contra ele mesmo e contra a vida.
Mas o Coração... Ele não quer nada mais além da Verdade; não porque acha que ganhará algo com isso, que será um sábio respeitado, que as pessoas o admirarão, etc....
Ele simplesmente a quer porque é o único destino a se chegar, independentemente se isso causará dor, desprezo, solidão ou "crucificação". Portanto, o Coração não visa o cessar do sofrimento, propriamente dito - ele visa apenas o cessar do falso.
Nossa mente é que acha que com a Plenitude irá obter retorno, libertando-se do sofrer. E não estou nem dizendo que não se liberte; estou dizendo que mesmo ela liberta, a dor sempre existirá - a diferença será que não mais lutará contra.
Quem compreendeu o que é Amor, não coloca a felicidade como primordial: o Amor é que é o objetivo. E amando verdadeiramente, a dor nada significa, pois o sentimento amoroso vale por uma vida.
Já tive outras oportunidades em escrever em blogs antigos, inclusive o primeiro, em que eu dizia que meu "desejo" maior não era a paz ou a felicidade plena, mas sim o compartilhar ou o servir do Amor Incondicional.
E antes que possam dizer que não existe ajuda espiritual sem estar Pleno, aviso que a minha tarefa no mundo não é trazer conforto ou mesmo um auxílio pra se obter paz; minha tarefa é trazer Verdade e Consciência, sendo dolorosa ou não. E no aprofundamento dessa Verdade, o Amor vem.
Assim, no meu caso, eu "busco" me aprofundar no Ser, muito mais em relação ao que eu posso oferecer, e não em livrar-me da dor. E, ironicamente, nesse descompromisso em tentar me livrar dele, vou me aproximando mais da Verdade e de Quem Sou.
Outra questão que vejo sobre Plenitude ou Iluminação, não é um estado em que chegamos e ficamos totalmente imunes e estáticos nele. É algo de se ter Consciência de segundo a segundo, mas que numa fração de desatenção, o pensamento vem e nos domina. Os mestres, santos ou iluminados tinham a Consciência mais forte do que o pensamento, por isso não se deixavam levar (ou quase nunca) por ele.
Quem já despertou também tem seus segundos rápidos de Iluminação, mas não se percebe muito porque a mente idealiza o que seja iluminar-se. Estar Iluminado é estar lúcido e não identificado com o Ego... E isso muitos já conseguem ficar até mesmo durante horas.
A Bem-Aventurança do êxtase espiritual, ao meu ver, não tem ligação direta com a Consciência Plena, pois esta, quando a dor surge, ainda sente como sempre sentiu qualquer situação desagradável, somente não se aflige mais por ela. Acolhe e deixa passar naturalmente, cada vez mais rápido, pois o pensamento egoico enfraquece.
A Paz e Amor dessa bem-aventurança independe de se estar consciente de quem se é de verdade (Consciência Desperta), pois além de eu mesma vivenciá-la em um momento de total inconsciência de mim, ouvi relatos de pessoas comuns não-espiritualizadas que já experimentaram isso em alguns momentos específicos arrebatadores. Ela, geralmente, ocorre em situações de extrema sensibilidade do indivíduo. Por isso, acredito que não seja provocado de forma voluntária; ela chega quando não há desejo da mente e nem mesmo o seu ceticismo quanto à sua vivência. É necessário estar entregue e aberto ao que vier ou não vier.
Porém isso não quer dizer "desistir" do autoconhecimento ou do Despertar. Porque, assim como a busca desenfreada e desesperada nunca nos leva à Consciência, o "achar que é tudo bobagem e em vão" não permite nunca o extraordinário acontecer.
Na minha percepção, eu já não sinto ou vejo que a vontade pela Verdade seja pra atingir tal estado de completude... A vontade deve ser unicamente pela Verdade (por Ela mesma), independente do que se ganha ou se perde.
Isso pode ser frustrante à maioria, principalmente a quem começou a caminhada agora...
Mas uma coisa eu digo: não tem algo melhor ou maior na vida do que ser tomado por essa Consciência, pois apesar da insatisfação com a normose, da solidão que se sente e da incompreensão alheia, Ela dá todo o sentido de se viver que nunca sequer havíamos sentido.
Aí, sim, com a Consciência Plena, de instante a instante, poderemos de fato sentir Amor e Paz; mas não originado da bênção de um êxtase, mas singelamente originado da não-identificação com o Ego e pela atenção e Compaixão pra consigo mesmo.
É preciso, sim, vontade pra Despertar cada vez mais a Consciência, mas para o bem do Todo, e não mais por um desejo individual - natural de início - com o anseio de cessar a dor ou ser bem visto. Num certo caminho é preciso aceitar a impotência perante a Unicidade.
O Ego só deixa de sofrer quando a Alma desperta... E nunca o contrário.
Pois a mente deseja; já o coração tem apenas uma única vontade: a de amar.



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