A INGRATA FUNÇÃO DOS DIFERENTES
Não é culpa das pessoas, a incompreensão delas quanto a mim.
Sou eu que sou uma "extraterrestre".
Na verdade, acho que sou uma "intraterrestre", ou seja, não vivo na superfície do mundo, mas sim na interioridade das coisas.
Tenho uma "casca" como todos... Mas ela, a mim, é só uma casca. Às vezes gosto muito dela, às vezes não.
Isso não quer dizer que não me importe com ela. Se dissesse que não, seria hipócrita. A diferença está no grau de importância que damos à essa personalidade "casca". E quando comparo o meu grau com o dos outros, sinto-me uma estranha no ninho.
Não é culpa das pessoas me acharem "problemática", pois na realidade, é o que eu sou: um sério problema ou uma ameaça ao Ego, com suas identificações extremas e suas zonas de conforto emocionais. Sou eu a pedra no sapato delas!
Apesar de ter muitas falhas, eu não faço as coisas por mal e nem tenho intenção de ser um incômodo. Aliás, se dependesse de mim, eu nunca as irritaria. No entanto, a minha sinceridade machuca; e quando eu a percebo, já é tarde demais.
É claro que eu tento ser sempre cuidadosa. Mas, na maioria das vezes, o cuidado é somente um adiamento de algo que deve ser colocado às claras, e que resulta numa explosão de mágoas ou de sangramento de feridas mal-curadas, mais dia, ou menos dia.
O fato das pessoas viverem apenas de aparências e de se fecharem numa fachada de "bem-estar, alto-astral ou equanimidade", é o que faz empurrar toda a sujeira e podridão pra debaixo do tapete. Não estou afirmando que a alegria ou a paz nas pessoas não exista. Sim, existe; Mas em noventa por cento delas, é uma emoção momentânea, resultado da fuga da dor e da busca pelo prazer, ininterruptas; ou seja: uma "felicidade" artificial que cria mais e mais vazio e frustração.
O problema do mundo não é falta de descanso ou de tempo. O problema do mundo é a falta de sentido na vida.
Por mais que digamos que nosso trabalho, nossa família, nossos filhos, nossos amigos, etc., sejam o nosso sentido de viver, o vazio existencial ainda estará dentro de cada um. Porém, poucos o perceberão, achando apenas ser um estresse ou um cansaço cotidiano.
Conviver com habitantes superficiais, num mundo superficial, a alguém que sente e enxerga o que de verdade acontece por detrás das máscaras, é algo extremamente difícil e solitário.
Esse mundo é só um "teatro de vampiros": bebe mais sangue aquele que interpreta o Conde Drácula melhor. O pior de tudo, é que todos ainda aplaudem o personagem mais "beberrão".
E por eu não querer participar desse teatro, sou julgada de negativa, rígida, covarde e fracassada. Bom, quanto ao "fracassada", talvez eu tenha que concordar, pois quanto mais se ganha "sucesso" nessa vida de "faz de conta", mais distante de si mesmo, se está. Portanto, prefiro perder respeitabilidade nos bailes de máscaras e ganhar honra e autorrespeito.
Concluí que vivo num campo minado. Cada observação lúcida e cada palavra honesta é um passo em falso diante daqueles que querem se esconder em seus "abrigos". E quando resolvo socorrer os seus "reféns", sou metralhada por injúrias, difamações e ingratidões.
Mas como já disse: ninguém tem culpa. É a minha expressão sincera dos fatos que as fere.
É totalmente natural ser mal-interpretada, pois o normal é ser indiferente, dar valor somente às questões materiais e externas da vida, e fingir harmonia.
Não importa se as pessoas, em geral, são injustas, arrogantes, estúpidas, fingidas, invejosas, prepotentes, mentirosas, hipócritas... O que vale é a sua posição social e o seu poder econômico. Nada mais.
Ninguém quer saber se você cultiva virtudes e tem um propósito maior de vida, se caso você é um "zé ruela" pelos parâmetros do sistema. Tenha um emprego e pague seus impostos, pois é isso que nos faz seres "dignos".
Ter dignidade virou ser um androide que faz a Grande Máquina funcionar. E o combustível dela: a ganância e a vaidade.
Para se inverter os valores, nomearam a ganância, agora, de "ambição construtiva" e a vaidade de "amor próprio". "Tudo pelo progresso social".
E antes que me acusem de ser contra o progresso, explico que minha vida é pelo progresso, mas não sem antes tirar as sujeiras debaixo dos tapetes e de abrir os porões cheios de mofo e teias de aranha das pessoas.
Sem uma limpeza séria das manias infantis e ególatras do Ego, o mundo não irá progredir. E não estou falando apenas da "maldade" e da perversidade dos indivíduos, mas sim de comportamentos aparentemente inofensivos, mas que envenenam e contaminam o nosso ambiente familiar e de trabalho.
A começar, pelas nossas tendências a fugir do vazio interno e de procurar subterfúgios em distrações e máscaras de super-heróis.
A raiva dos outros por mim, é por eu apontar as sujeiras acumuladas que eles tentam esconder e fingir que não existem... A raiva dos outros por mim, é eu ser a prova viva jogada em suas caras, de que a real realidade vai muito além do que uma vida de aparências e de falsos valores, como o status material, o glamour, ou até mesmo a paz ou alegria forçada.
Meu inconformismo não é pela falta dessas coisas, e sim pela negligência, da maioria, pelas coisas mais urgentes e importantes da vida, que é a consciência de si e da essência humana.
E admito: minha tristeza é enxergar uma certa genialidade em mim nessas questões espirituais, e ser menosprezada ou vista como a uma medíocre, inútil e problemática.
A minha profundidade de alma me faz disfuncional numa sociedade fútil, interesseira e hedonista. Estou tentando encontrar uma terra firme que me acolha, mas está bem complicado... Coisa que poucos entenderão e logo me rotularão de "derrotista"e "isolada".
Sei que quando falo dessa forma, dá a impressão que eu só enxergue o lado ruim das coisas e do mundo. Mas é o contrário; por eu ver o que é falso, eu SEI quem as pessoas são de verdade e do quanto elas são capazes de se descobrirem.
Talvez muitas não mudem, mas sei também que um dia elas reconhecerão que eu estava dizendo a verdade, da qual elas mesmas não quiseram escutar.
Pode ser que eu continue falando pras paredes ou falando uma língua intraterrena que ninguém entenda... Não sei; fato é que não parece depender da minha vontade parar ou não de falar. As percepções vem e se eu as guardo, algo de ruim sempre acaba sobrando pra mim.
Se eu as expresso, sou alvo de pedras; se eu as guardo, os raios sempre acabam me acertando - o que me parece ser bem pior.
Mas há um lado bom de se apontar e abrir os porões sujos do planeta humano...
A de fazer as pessoas caírem na real e agirem de fato por um lugar mais limpo e verdadeiro.



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