O RETORNO DOS "NOVOS" HUMANOS
Hoje gostaria de relatar o meu processo espiritual; contar quais os sentimentos, as fases e tentar demonstrar o que vivencio atualmente, de forma simples, porém infelizmente limitada.
O que irei contar não é um parâmetro a ser seguido ou tomado como único e certo, pois acredito que cada pessoa vivencia o vulgo "Despertar da Consciência" de forma diferente.
No entanto, não há como rejeitar o fato de que todos que passam pelo processo, sentem características semelhantes e ficam um certo tempo perdidos no deserto do real.
Não, eu ainda não saí do deserto.
Mas algo dentro de mim, já diz que não estou tão perdida nele. Me parece que alguma coisa está despontando mais à frente.
Sabe aquela tempestade de areia na qual atravessamos e que nada enxergamos? Pois então... Ela parece estar chegando ao fim. Não posso saber se virão outras tempestades, mas o que ocorre neste meu momento, é que já estou começando a enxergar a estrada sob meus pés.
Nem todo mundo passa pela tomada de Consciência de forma radical. Mas o meu caso foi.
Já tive várias oportunidades de contar, porém, sinto que agora, a visão vai ficando cada vez mais ampla sobre essa trajetória.
Na experiência da "minha" personagem (e acredito que na de muitos companheiros de estrada), desde nova, sentia que precisava fazer algo de grandioso. Eu não sabia o que era, apenas que era muito maior que eu mesma.
Muitos podem pensar que isso é um sentimento narcisista e um complexo de messias, mas digo que, pelo contrário, a minha autoestima era baixíssima, me tornando convicta de que eu seria uma pessoa invisível e desvalorizada em toda vida.
Ainda assim, esse sentimento não me abandonava, mas não se encaixava em nada conhecido.
Era aquela sensação de ter que fazer algo pelas pessoas (ou o mundo), de forma coletiva; ajudá-las de alguma forma. Pensei na possibilidade de ser médica, veterinária, bióloga, assistente social, psicóloga... Contudo nada se encaixava de forma precisa, pois era tudo superficial.
Deixei esse sentimento pra lá e embarquei na área de Publicidade, ainda na adolescência. Gostava de desenhar, era criativa e tinha facilidade em escrever. Foi uma das fases mais incríveis da minha vida pelas pessoas que conheci no curso. Já a área não me empolgava; comecei a enxergar egolatria, manipulação e mentira nela.
Foi exatamente nessa época, com dezesseis ou dezessete anos, que mergulhei de cabeça na espiritualidade. Era como se tivesse encontrado uma parte de mim mesma; uma alegria imensa e um sentido novo de se viver. Foi ali que a minha identidade começou a ser moldada. Eu já não era mais uma adolescente "normal"; minha profundidade, mesmo não sendo compreendida, era respeitada pelas amigas como um diferencial.
Mas foi aí que eu comecei a perceber o quanto aquele caminho era solitário. Existiam pessoas místicas como eu, mas a maioria envolvida numa ritualística que não me agradava. Pra mim, naquela fase, eu já percebia que a "coisa" era muito mais simples e direta. Comecei a escrever diários, e foi neles que a Consciência começou a se manifestar em palavras e percepções lúcidas... Infelizmente, sem eu ter consciência disso (paradoxo?).
E por eu não perceber, deixei a "busca" e a prática de lado e fui atrás do dinheiro rápido e da independência, indo trabalhar no exterior.
Ao total, foram uns quinze anos de espera dessa Consciência, em mim. Era como se Ela estivesse hibernando, prestes a qualquer momento acordar e sair da toca.
E Ela saiu, só que com fúria.
Estava faminta e sedenta de alimentação espiritual. "Revoltada" com o caminho humilhante, medíocre e materialista que eu havia escolhido. Afinal, eu já estava completamente apática com a vida, indiferente com qualquer tipo de acontecimento (bom ou ruim). Estava com trinta e dois anos, na época.
Entretanto, Ela não precisou ir à caça do alimento; ele caiu, sincronicamente, como uma enxurrada de ensinamentos e informações espirituais. Não tinha tempo nem de respirar, tamanha era a quantidade de conhecimentos.
Conforme ia absorvendo o "alimento", o meu mundo externo começava a, literalmente, demolir. Acontecimentos radicais vinham um atrás do outro, não me conduzindo, mas me jogando com força ao caminho correto.
Mudanças radicais externas, causam mudanças radicais internas e vice-versa. Minha visão de mundo, meu emocional, minhas crenças, minha relação familiar e social... Tudo isso foi virado de cabeça pra baixo, ao mesmo tempo, e não como uma coisa de cada vez - o que ocorre com a maioria.
Mesmo abalada, fragilizada, perdida, fui enxergando mais e mais a Verdade da Vida. A amplitude da minha visão não era acompanhada pelo meu emocional. Eu percebia muito, só que em um estado conflitante dentro de mim. É exatamente por isso que discordo dos que acreditam que pra se "alcançar" um estado mais elevado de Consciência, é preciso ter um emocional equilibrado e uma vida harmônica bem estruturada. Não, pelo contrário! É o caos que nos faz despertar; e uma vez desperto, o processo é uma looooonga jornada pelo deserto do real, que, aí sim, vai curando as feridas, passo a passo.
Desde aquele momento radical, eu estou nele.
Passei por redemoinhos gigantescos, emboscadas, armadilhas, lutas de tribos, feitiçaria, tudo dentro desse deserto. Isso externamente falando, pois internamente, não daria nem para descrever, de modo preciso, o que vivenciamos.
Eu não sei se isso acontece com todos; mas penso que não entramos no deserto por livre e espontânea vontade. Somos meio que jogados no Saara. Porém, há os que são jogados, mas voltam à Matrix... Não aguentam a aridez. São raros os que continuam a caminhar nele.
Por que a maioria não aguenta? É aqui que eu descrevo as fases nesse processo:
No início da jornada, seguimos, mas ainda com algum laço (amarra) com aquilo que ficou. Andamos, ora olhando pra frente, ora olhando pra trás. Pensamos em desistir várias vezes, por causa da pressão social e do medo da incerteza. Ficamos imaginando que talvez mais pra frente não exista nada, que é pura ilusão. Mas algo mais forte (se caso for mais forte que o ego) segue nos impulsionando.
Chega um momento que entramos num estado bipolar de ser, ou seja, nos extasiamos com a Verdade e o sentimento que Ela nos provoca, e logo depois caímos num estado ordinário humano. São altos e baixos extremamente radicais. A impressão é a de estar numa montanha russa. Isso cria uma expectativa de querer atingir a Plenitude, o que é ainda um desejo do nosso ego. Ele quer alcançar o estado permanente do êxtase, o que na verdade é outra ilusão. Essa é a fase das miragens. A Plenitude, pela minha vivência e percepção, não é esse êxtase, e sim, um estado tranquilo, equilibrado e consciente de tudo. O êxtase é uma euforia espiritual que nos acomete, semelhante ao efeito de um alucinógeno, ou algo do tipo, pelo que os usuários contam.
A insatisfação é companheira durante a viagem toda. Há momentos em que brigamos com ela, e em outros fazemos as pazes. Mas ela não nos abandona, até encontrarmos o Oásis no deserto. Sofremos de "sede", "fome" e principalmente de solidão. Não é que não haja outras pessoas no mesmo processo, mas a sua experiência será única e portanto estará num estágio diferente da dos outros. Ainda que já tenhamos passado por um estágio, aquele que estiver nele, terá suas próprias visões e sentimentos, não podendo, nós, fazermos nada por ele, a não ser incentivá-lo a continuar em frente.
Ficaremos um bom tempo na tempestade de areia, como disse no começo; ou seja, não enxergaremos nenhum destino claro à frente. Mas, aos poucos, começaremos a vislumbrar esse verdadeiro destino da Alma. Não é de repente que acontece. As nuvens vão se desfazendo gradualmente. É nessa fase que temos a certeza de que existe, sim, o Oásis e a luz no fim do túnel. Mesmo que ainda não saibamos o que é essa luz, sabemos, ao menos, que ela existe... E pra todos aqueles que não desistem, ela está lá esperando.
E o que seria esse Oásis? Seria a nossa "missão" verdadeira de vida; o propósito e o sentido de se estar aqui. Não é uma mera profissão, função ou atividade da qual gostamos. Está muito além disso, pois muitas vezes (na maioria das vezes), é algo do qual nem imaginávamos ter como missão. É aquele sentimento profundo em nós, que não cabe em nada que conhecemos dentro da sociedade, mas que somente ao encontrarmos o propósito real, ele se encaixa em alguma área humana específica, manifestando-se de uma forma completamente inovadora e fora dos padrões normais. Os verdadeiros revolucionários na arte, na ciência, na espiritualidade ou filosofia tiveram essa integração da Essência, muitas vezes de forma não-consciente. O Espírito os conduziu e os utilizou para impulsionar a evolução humana, em algum setor.
Não é que as pessoas comuns não tenham suas missões. Todos temos e muito válidas para a vida. Mas a Consciência se utilizará de uma maneira mais abrangente (até planetária), aqueles indivíduos que quebraram os conceitos e condicionamentos não mais necessários ao desenvolvimento da humanidade. Tudo aquilo que não funciona será modificado pelos que não tiveram escolha (mas foram empurrados pela Vida) de "sair" do Sistema Social caduco.
A nós, que estamos nesse processo espiritual sério, não conseguimos ver mais nenhum sentido no modo de viver desgastado, fútil e materialista, que aí está.
Sei que a intenção das pessoas é a melhor possível, mas a maioria está apenas tentando consertar as situações com esparadrapo, remendando com tudo o que resta de "menos pior" ou igual. Chega. Cansou!
A melhora só poderá ocorrer em cada um e começando a política com pequenos grupos. Essa é a Nova Política. Ou todos ainda querem conceder todo poder nas mãos dos chefes de Estado?
Não é questão de que "pagamos nossos impostos, portanto é dever deles fazerem o melhor"... Claro que é o que deveria ser, mas NÓS NÃO VAMOS TER O MELHOR DELES! NUNCA! E nem é questão de virarmos todos hippies pra se viver no mato, como as mentes limitadas concluem. É preciso ser visionário, de vez em quando... Só que ninguém está disposto a ser, por medo de ser ridicularizado pelos outros e chamado de "lunático".
Estou dizendo isso, porque é óbvio pra mim e porque estou enxergando claro, agora, que nada do "mais do mesmo" adiantará, por mais bom caráter seja o político. Uma andorinha só não faz verão...
Se estou fazendo algo a respeito? Não, AINDA não estou fazendo; mas não quer dizer que eu não possa ENXERGAR e COMUNICAR o que está nítido a mim, pra que mais à frente, possa eu, então, colaborar com algo.
Alguma coisa ainda está despontando no fim da tempestade de areia, como já disse. E é nesse momento que os "desertores" começam a perder, de pouco a pouco, a companheira insatisfação em si. É quando constatamos que a Consciência nos utiliza, não somente para ajudarmos os outros a despertarem (como nós despertamos). Chega uma hora que é compreensível à nós, que Ela penetra em vários níveis conscienciais, de alguma forma, pra que uma função necessária (em tal nível) possa ser realizado. Ou seja, nem todos despertarão, mas serão envolvidos, no seu grau de alcance, a executar alguma tarefa em prol do Todo. A insatisfação (vazio) sairá de mansinho, quando sentirmos a Consciência, através de nós, se manifestar e começar a criar pontes.
Ela só se despedirá de nós, quando já estivermos realmente atuando nesse propósito maior do Ser.
Quer fazer a diferença no mundo? Então, atravesse o deserto do real com perseverança.



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