MENTALIDADE COLETIVA X COLETIVIDADE DE INDIVÍDUOS
Questionamento: "Você consegue enxergar além da sua mente coletiva?". Traduzindo: "Você consegue enxergar "erro" em pessoas afins e "acerto" em pessoas não-afins?". Ou será que o conceito em comum fraterno fala mais alto que a empatia e a justiça?
Outro questionamento: "Você sabe separar o Ego do verdadeiro Ser, nos outros?". Traduzindo para os leigos: "Você sabe separar o pecado do pecador?".
A mentalidade do humano trabalha dentro desse padrão coletivo e simplista em se julgar: a ideia em comum, na maioria das vezes, acaba cegando o indivíduo diante de comportamentos duvidosos de seus companheiros; assim como se critica sem piedade a índole daqueles que não correspondem às mesmas opiniões.
Isso é uma coisa que venho alertando há tempos, mas quase ninguém dá valor. O que vale à maioria, é o sentimento de união, fraternidade e pertencimento, porém deixando de lado as condutas egocêntricas do "irmão". Afinal, o que vale é defender a "causa" da comunidade, e não agir em conformidade com o Ser puro que há nele (mas não sabe), que está totalmente corrompido pela vaidade, de qualquer tipo, do seu Ego.
Já critiquei muitas vezes esse sentimento grupal, mas não porque sou contra grupos - já que todos somos seres sociais, comunitários -, mas porque sou contra a mente narcotizada dos indivíduos nos grupos, que colocam a ideia afim e coletiva à frente de suas percepções ou observações conscientes quanto à condutas egoicas precipitadas de seus companheiros.
Não importa se o que se "defende" em um grupo é correto, se o meio para se chegar aos fins é extremamente hipócrita, cruel, arrogante e preconceituoso.
Quando digo que, em geral, as pessoas não agem conforme o Coração (Consciência), é porque a mentalidade de grupo, com todo o seu "discurso" de união e companheirismo, fala mais alto, e portanto trai-se a si, fazendo "vista grossa" à perversidade sublimada do amigo.
No entanto, não estou dizendo com isso que devamos ter ódio ou jogar pedras nesse amigo, mas sim observar seriamente se vale a pena tê-lo como companhia.
Certa vez, disse a uma amiga que se ela seguisse o caminho das "vantagens imediatistas em detrimento do seu Coração", eu não a criticaria, mas não conseguiria ser mais sua amiga. Prefiro o distanciamento do que ser conivente com a ganância e com os vícios de alguém.
Radical? Pode ser aos olhos comuns, mas quando o Ego passa a ser a sua diretriz, com todo o seu interesse oportunista, o que existe não é mais relação, e sim troca de favores. À partir disso, já não consigo mais fingir amizade. Afinal de contas, que amizade?
Não é que eu não consiga ver o lado essencial das pessoas; vejo. Talvez a minha maior maldição seja a de enxergar o Ser puro nelas e ao mesmo tempo o Ego a lhes cegar, contaminar e distorcer toda a sua ação. Daí a coisa do pecado ser diferente do pecador, na minha percepção intuitiva. O que eu vejo não é a maldade em si, mas a total IGNORÂNCIA espiritual num sujeito.
Porém, ao dizer isso, muitos podem interpretar que estou isentando a responsabilidade de uma pessoa que comete atos imorais e ilícitos, ou então, dizendo que quem os faz não tem consciência de estar cometendo... O que quero dizer, na realidade, é que todos devemos "pagar" pela nossa ignorância, seja ela de máximo ou mínimo grau. E mesmo que alguém tenha consciência de estar cometendo ações erradas, e ainda por cima sem culpa alguma, o que digo é que ele não possui Consciência de quem ele É e qual o propósito maior da Vida; por isso suas condutas são primitivas. Quanto maior a ignorância de si, maior será o seu egoísmo.
Minha Consciência sabe que o ser perverso ou egocentrado de uma pessoa não é o Ser verdadeiro dela, pois a Alma de todos é intrinsecamente pura - o que a suja é sua total crença na razão, única e exclusivamente. Entretanto, por mais que saiba disso, não se deve ser indiferente ou complacente com seus atos, pois isso dá margem e força à sua má conduta e contínua ignorância. Não é bem condenar, mas não colaborar com suas atitudes e imaturidade.
Então, sim, eu sou contra a imoralidade, ainda que eu saiba que ela provém da ignorância - o ignorar a Verdade em si. Não faço vista grossa e nem fico quieta. Porém, não sou à favor do escárnio e da arrogância provinda também dessa ignorância, que se orgulha de sua posição moral religiosa, mas se esquece da ética e da compaixão.
O discernimento além dos conceitos é algo inexistente - não se reflete, se obedece preceitos -, pois em geral não se observa que muitos dos indivíduos "perdidos" só estão perdidos porque nunca encontraram um exemplo ou alguém que lhes mostrasse um caminho mais apropriado. Muitos só estão confusos e inconscientes, mas não exatamente são indivíduos perversos ou de mau caráter. Eles simplesmente vão atrás do que a maioria dita como "bom", ou senão, daquilo que lhes dá prestígio ou maior segurança. Lembrando também que muito do prazer está no pertencimento a grupos e crenças; portanto, não somente em assuntos sensoriais, e sim, psicológicos, espirituais e intelectuais.
A mente grupal não pondera e já vai rotulando os outros (diferentes) conforme a linha de pensamento ou crença deles. Novamente voltando na questão dos grupos...
O porquê de eu sempre bater na mesma tecla do "livre pensar", sem nos definir em rótulos? Tudo bem... Existem os grupos e isso é um fato. O mal não está nisso. O problema, como disse, não são os grupos, mas a mente cega que não consegue diferenciar um ato digno de um egoico, quando se trata de amigos, familiares e colegas. O sentimento parece estar acima de uma observação justa e imparcial. A moral e a ética, como sempre, ficam por último.
As injustiças surgem quase sempre dessa falta de percepção. Além de não enxergarmos o erro nos nossos afins, geralmente desprezamos os acertos de nossos não-afins devido a alguns pensamentos contrários.
Não conseguimos ter uma visão neutra quando se trata de ver o que o grupo diferente está nos dizendo de verdadeiro e útil. Conclusão: não sabemos ouvir os outros, pois o que importa é que se pense igual; só isso.
Claro que existem extremos em que não há possibilidade alguma em dialogar. A paixão quanto à ideologia, a crença ou a idolatria é tamanha, que uma conversa seria em vão: "A minha posição ou crença é a certa e acabou". Quem irá fazer uma pessoa assim mudar de ideia? Não falo de perdermos tempo convencendo gente cristalizada... Guardemos nossas pérolas.
O que estou questionando, é se todo indivíduo perdido é um caso perdido. Ou se uma mentalidade obtusa poderá mudar se alguém lhe apresentar uma nova perspectiva, sem que haja imposição ou crítica.
Venho percebendo que quando defendemos posições na tentativa de vencer um suposto oponente com nossos argumentos, não há entendimento algum de nenhuma das partes. Isso, torna-se apenas um debate de egos ou uma briga de comadres.
Porém quando não temos intenção de vencer nada, mas somente elucidar pontos, a compreensão torna-se mais possível. E isso acontece porque não há um desejo arrogante do Ego em querer subjugar a ideia do outro. Apenas abrimos janelas a ele, pra que tenha alguma possibilidade de enxergar por outras perspectivas.
É preciso ter bom senso e acima de tudo sensibilidade para se perceber quando podemos persuadir (no bom sentido) um alguém. Disparar a metralhadora falaciosa do intelecto, além de não criar nada de útil, só gera mais cegueira e julgamentos errôneos.
O meu alerta não é para os "cheios de si, professores da lei, fariseus hipócritas", pois esses é que dificilmente entrarão no Reino dos Céus. Meu alerta é aos que não enxergam (devido à afinidade conceitual de seus companheiros) o Ego disfarçado de cidadão exemplar, que na pratica sabe apenas separar e disseminar intolerâncias.
Ser justo, hoje em dia, é raro, pois não sabemos separar o indivíduo da sua mentalidade de grupo ou da sua inconsciência.
É necessário observar não somente a nós mesmos em nossas condutas impensadas (que são várias e constantes), mas também aos nossos "irmãos" afins, pra que não sejamos conduzidos como cegos por nossos afetos, sendo consequentemente injustos com nossos desafetos.
Um indivíduo honrado e íntegro sabe distinguir essas coisas, pois ele já não fixa seu julgamento numa mente grupal. Ele é livre para percorrer mundos opostos, sem se perder da Verdade, da Essência e da Alma, pois são essas as suas bases e o seu centramento; ele sabe refletir sem deixar-se conduzir por suas paixões e apegos de ideias.
Graças a esse indivíduo é que ainda sobra um pouco de justiça e esperança de um mundo mais humano e menos hipócrita e cheio de si.



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