A PROFUNDIDADE DESCONHECIDA DO SER
(Texto indicado apenas a espiritualistas não-religiosos)
Certa vez escrevi sobre os níveis de Consciência, usando a metáfora da montanha. Dizia que a amplitude de visão aumentava conforme o nível de escalada. Havia uns que subiam até certo ponto e ali ficavam, e outros que seguiam a subida cada vez mais íngreme e solitária.
Outra metáfora usada por mim foi a do mar. Nele existiam os que boiavam na sua superfície à merce das ondas, e outros que viviam nas profundezas, explorando os seus mistérios.
Cada um de nós está num nível diferente de altitude e de profundidade consciencial.
O que acontece geralmente, é que aqueles que estão na base da montanha ou perto dela, assim como os que estão boiando ou mergulhando raso no mar, não vão conseguir compreender os que estão um pouco além disso.
Portanto, aviso que, talvez, esse texto não agrade muitas pessoas (na verdade, ao ego).
E aqui não será uma questão de me colocar como "superior", mas será uma questão de explicar que há níveis e propósitos DIFERENTES de cada um, porém, que a maioria não entende os que têm um propósito (sentido) mais profundo espiritual de vida.
Todos nós temos um sentido específico de estarmos aqui. O problema é que a maioria da humanidade morre sem descobrir e vivenciar esse sentido, pensando apenas em cumprir um papel de cidadão exemplar. O propósito de vida delas é a de cumprir uma função na sociedade.
Mas será realmente essa a finalidade de se viver?
Ainda que tenhamos cargos e profissões respeitáveis, qual seria a lógica disso, se estamos sendo somente funcionais?
"Ajudamos as pessoas", muitos responderão. Tudo bem, mas essa ajuda é em qual nível? SOMENTE num nível superficial e de comodidade mundana ou num nível mais profundo de ser?
Claro que as funções sociais são necessárias; não estou negando isso. Estou querendo questionar é se isso basta, ou seja, se o que importa é ter uma ocupação, ainda que prestemos serviços úteis às pessoas.
É aqui que entra o nível consciencial. Quanto maior for a sua profundidade (ou elevação) espiritual, maior será a sua responsabilidade perante o mundo - mesmo que ela nunca venha a ser reconhecida.
Então, quando atingimos um certo grau de Consciência, o "papel" como indivíduo naturalmente terá que acompanhar o nível Dela.
Se você atinge um grau mediano espiritual, você terá mais facilidade em se adaptar à vida social materialista; poucas coisas lhe darão insatisfação (conscientemente). Alguns até se retirarão do "sistemão" e encontrarão o nível mais "bem-estar" de se viver. Não há nada de errado nisso, e é até muito mais humano e saudável. No entanto, esses ainda não compreenderão os que mergulharam mais fundo na Percepção.
A insatisfação que esses mergulhadores profundos da Consciência sentem, já não tem mais muito a ver com a vida robótica do "ganha-pão". Ter, até tem, mas não é isso que nos "angustia" realmente.
O que a maioria entende sobre essa angústia é sempre o clichê de que tal pessoa é problemática, portadora de algum distúrbio psicológico como Depressão, que é esquizoide, negativo ou pessimista. Os sintomas podem ser parecidos, mas a causa não é bem essa.
A insatisfação dos profundos é a de falar e ninguém entender, e a de não conseguir encontrar uma "funcionalidade" que abarque essa Consciência Maior ao bem do coletivo. A dificuldade nossa é a de incorporar essa visão tão ampla num mundo completamente materialista, narcisista e racionalista.
Os espiritualistas voltados à cura e ao bem-estar têm o seu papel bem definido. Não sou contra as terapias que visam o equilíbrio emocional e energético - aliás fui uma estudante dessa área; não sou contra o auxílio psicológico e nem espiritual. Eu mesma precisei para minhas crises traumáticas e para descobrir travas inconscientes em mim, assim como para me libertar de "amarras espirituais contratadas". São grandes ferramentas de ajuda.
Contudo, não são elas que lhe ajudam a elevar a visão da Consciência. A autoajuda não faz o Ser se libertar das correntes do ego; podendo até, em alguns casos, nos paralisar numa zona de conforto que limita a percepção mais ampla e o discernimento correto.
Por isso, a insatisfação aos "buscadores" da Verdade, não é um mal, mas sim, um grande IMPULSO e gatilho para esse estado de ser sagrado - e aqui não estou a falar de "santidade", no sentido deturpado da palavra. O Sagrado é o estado interno, livre de qualquer identificação com o personagem egoico que acreditamos ser.
Viver satisfeito com a vida, não quer dizer ter uma Consciência elevada. Quando atingimos um alto nível de elevação, não é "satisfação" que sentimos da vida, e sim uma gratidão, amor, devoção, alegria profundos de alma; coisas já sentidas por mim. Porém, o que ocorre, é que por ainda não encontrarmos um "encaixe" apropriado no mundo para essa Presença arrebatadora em nós, acabamos caindo no mesmo sentimento de "desfuncionalidade".
O objetivo principal dos profundos, não é apenas alcançar uma vida simplesmente feliz. Está bem além disso. O nosso objetivo é primeiramente o sentido maior de se viver, pois o restante sabemos que é consequência. Não é o ego-personagem que molda a vida ideal, mas é a Consciência Plena que faz a vida se amoldar à Ela.
Entretanto, o que a maioria não entende, é que quanto maior a sua profundidade, mais distante da superfície você vai ficando. A dificuldade é muito maior de se estabelecer uma comunicação.
A única ponte possível é quando traduzimos o que vivenciamos e percebemos, na língua entendida pelos superficiais. O que não deixa de ser complicado por todo tipo de mal-entendido e barreiras conceituais...
Mas é a única maneira de se levar luz ao mundo dos outros, mesmo que esses achem que somos nós a estar precisando dela... É irônico, mas é assim.
Não adianta... Quanto maior a nossa visão, mais humildade nos é exigida. Pois sem ela, não conseguiremos encontrar o elo de ligação das profundezas do fundo do mar com aqueles que ainda estão boiando.



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