A ÓTICA DA "POSSIBILIDADE"




      (Texto indicado a agnósticos, céticos e crentes)

      Existem três assuntos que tentarei convergir nesse mesmo texto.

      Um deles eu já estava elaborando, antes de acontecerem todos esses eventos políticos. Por isso, ele ficou uns dois dias na "gaveta". O assunto era sobre o "agnosticismo", mas sob uma outra ótica: a do acreditar sem acreditar.

      Como assim? É o que explicarei comparando com a questão das descrenças e das crenças religiosas. Portanto o segundo assunto será "Deus".

      Já o terceiro seria sobre a nossa tendência de nos rotularmos em ideias e grupos: a coisa da "identificação". Sem, exatamente, julgar isso de bom ou ruim. A tendência é normal; só a minha postura é que tende a ser um pouco diferente.

      Pode ser meio arriscado juntar todas essas coisas num assunto único, mas é que existe um elo de ligação entre elas, que é a inflexibilidade da nossa mente de forma em geral.

      Sei que já abordei esse tema outras vezes, mas penso que é interessante insistir em várias perspectivas, principalmente porque podem existir pessoas tentando entender os assuntos de uma forma que ninguém nunca as explicou. Acredito que há indivíduos com sincera curiosidade e não somente uma indagação ardilosa para reforçar mais ainda suas próprias convicções.

      O agnosticismo a que eu ia comentar, não era bem sobre a existência ou não de Deus ou da espiritualidade, mas sobre qualquer tipo de crença. 

      A palavra, talvez nem seja essa para expressar o que quero explicar, mas foi a mais próxima que encontrei em meu pobre vocabulário.

      Há dois estados conceituais em nós: a crença e a descrença. Mas existe um outro: o do "não sei", que seria um pouco esse conceito agnóstico.

      Em mim, esse é o estado que mais predomina em minha mente; ou seja, eu acredito em muitas coisas "sem pôr a minha mão no fogo". Eu acredito, mas sabendo que tais coisas podem não ser reais.

      É estranho isso? Sim, mas é assim que a minha mente trabalha: através das POSSIBILIDADES.

      Até mesmo para as coisas teóricas mundanas (não apenas espirituais), eu não me fixo num paradigma de "acredito" ou "não acredito". Minha mente fica em aberto no "pode ser que sim".

      Viver nesse estado de "acredito que sim, mas não sei", ao meu ver, é muito mais vantajoso, no sentido de conhecer e absorver mundos diferentes. Isso porque o preconceito não obstrui o seu acesso. Como já disse outras vezes, minha "redoma" vai aumentando de tamanho e as minhas relações não ficam tão mais hegemônicas.

      A crença cega, assim como a descrença total são dois lados da mesma moeda. Elas fecham e limitam o indivíduo numa única perspectiva, sem que se conheça a fundo o outro lado e se reflita honestamente.

      Claro que há coisas que realmente eu não acredito. Não estou dizendo que isso deva ser pra tudo. É preciso discernimento ("peneira") antes de tudo. Ainda assim, sou a favor de se respeitar a crença alheia, caso ela não seja destrutiva ou imoral.

      Para o escritor criativo, principalmente, é importante funcionar na esfera das possibilidades. Ainda que se use muito da sua imaginação, ele precisa acessar universos diversos e ampliar seus horizontes; coisa que a total descrença e o pré-conceito o obstruiriam. 

      Onde Deus entra nesse assunto? Pois é... Algo bem delicado.

      A questão Deus, no meu caso, transcende qualquer tipo de crença, por mais que os céticos não acreditem em transcendência ou o ir além dela (crença). Nunca fui religiosa; meus pais, minha irmã e meus parentes próximos nunca foram religiosos. Descobri a espiritualidade sozinha, sem influência de amigos, na adolescência.

      E quando descobri, eu compreendi o que era, na verdade, Deus. E o Deus que "senti", em nada se parecia com o que as religiões me descreviam. Assim, como também não era nada do que a razão conseguiria explicar. Na realidade, era um compreender Deus, sem que eu o compreendesse mentalmente, de fato. Complexo, não?

      Com o tempo, começamos a entender o que (em partes) é Deus, ao nos autoconhecer profundamente. E o que entendemos Dele (dessa Fonte), aos poucos, é que Ele "escreve certo por linhas tortas", por mais que os nossos olhos mentais limitados não consigam enxergar o "certo" no "torto". É preciso uma percepção ampla pra se enxergar que a sabedoria divina está além de nosso julgamento pequeno de "certo ou errado". Aos que não me conhecem, explico que a mim Deus não é antropomórfico, porém, é Inteligência Superior.

      Agora, entrando nas questões das crenças, eu acredito (mas não sei) na reencarnação. Não tento provar nada, mas não nego a crença. Isso porque, a mim, é mais explicável a questão da justiça. A tal coisa do "Por que uns nascem pobres e outros ricos, uns doentes e outros sãos, etc.?". Mas nem tanto pelo carma (causa e efeito de um ato), e sim, pela necessidade de experienciamento do ser para se chegar finalmente numa eventual "Iluminação" ou libertação da identificação com o ego. Por isso a nossa consciência do que é bom ou ruim a um indivíduo é quase sempre errônea. O "bem" em muitas ocasiões não é o prazer, mas sim a crise existencial da pessoa.

      É aqui que eu entro no assunto da "identificação". A crença e a descrença estão nesse apego à convicções. Mesmo que algo seja cientificamente provável, quando há identificação por ele, levantaremos "bandeiras" e atacaremos tudo que não seja provável de forma cruel e arrogante. A mente do "acredito, mas não sei" não sente necessidade alguma de provar ou de atacar ideias contrárias. Não é que não se debata ideias, mas essa mente tentará ver por outros ângulos também. E mesmo que não se convença, não ridicularizará a ideia do outro e nem irá impor a sua.

      Eu não mais me encaixo em rótulos, pois quanto mais nos conhecemos de verdade, mais saímos dos estereótipos. É por isso que me acham estranha, pois por um lado eu sou conservadora na ética e na moral-espiritual, e por outro tenho uma visão libertária quanto à política social - algo que eu nem sabia, vim a saber hoje que existia mais um rótulo, a do "libertarianismo". No entanto, eu não me pauto neles. Eu me guio por mim mesma ou pelo o que meu coração diz, e não por uma fiel linha de pensamento.

      Será que para sermos "conservadores" precisamos ser assim em todos os campos humanos? E para sermos "libertários" precisamos ser liberais na moral e no comportamento? Isso, sim, a mim é estranho...

      Antes de sermos isso ou aquilo estabelecido, ou acreditar ou desacreditar em algo, precisamos compreender profundamente o que é o REAL VALOR HUMANO. O resto torna-se secundário.

      Quando escavarmos as superficialidades e encontrarmos a ESSÊNCIA das coisas, é que saberemos o que REALMENTE é o bem maior em comum. Sempre batendo na tecla da Essência...

      Não mais gastaremos tempo e energia ao discutir crenças e descrenças, divergências políticas ou religiosas... E estou dizendo discutir em vão; não, elucidar essas coisas, que é algo bem diferente.

      Debateremos, sim, sobre o que está além disso e o que é de fato importante para o desenvolvimento de um mundo melhor: 

      AS NOSSAS RELAÇÕES HUMANAS.


Comentários

Postagens mais visitadas