A MORALIDADE NARCISÍSTICA
A vaidade do ser humano - especialmente o brasileiro - não está somente no aspecto material (ostentação) ou na aparência (beleza estética). Ela se encontra muito também no aspecto intelectual e numa pseudo-espiritualidade.
A "inversão de valores" não se encontra apenas nas ações imorais; se encontra na valorização exacerbada do intelecto, como se o conhecimento por si só fosse o mais importante no indivíduo.
A grande maioria das pessoas dá muito mais valor - e admira - à inteligência racional do que à sabedoria e humildade de alguém. Não é questão de desprezar a importância da inteligência lógica, mas de compreender de fato o que é realmente valoroso: a índole ou a intelectualidade? Ou vai se dizer que não existem inteligentes com a alma podre?
De que adianta tanta inteligência se a maturidade espiritual é nula? O nosso conhecimento quanto à doutrinas espirituais e religiosas, não necessariamente nos faz seres mais depurados e conscientes.
Chega a ser contraditório nos orgulharmos de um entendimento espiritual ou religioso, se o nosso comportamento não corresponde à uma índole compassiva e humilde.
O problema é que muitos interpretam Compaixão e Humildade com um comportamento passivo, ingênuo e "boboca". Não entendem que ser compassivo e humilde é intrinsecamente TER SABEDORIA e AMOR, que de nada tem de idiota. Não confundamos: humildade não é modéstia, mas desprendimento do "eu".
Qual a diferença em se ter Amor pelo próximo e Compaixão? Talvez apenas as palavras sejam diferentes, pois o significado é o mesmo.
Portanto, a religião ou a crença espiritual não liberta o homem do seu ego e de sua arrogância. Pelo contrário, muitas vezes, pode afundar ainda mais o sujeito na sua egolatria e hipocrisia.
Ser prepotente é o sinal mais visível em alguém, de que não possui uma real Consciência elevada, tanto de si, quanto da Vida em seu sentido mais amplo. Uma pessoa analfabeta pode ser mil vezes mais sábia do que um intelectual. Por isso, a Consciência e a purificação de um ser não corresponde aos seus conhecimentos livrescos.
Um indivíduo inteligente, com certeza é útil ao mundo em seu desenvolvimento material e racional. Mas a verdadeira moral não se origina exatamente de um estudo teológico ou místico; ela está ligada, sim, a uma honesta observação de si mesmo com seus apegos (sensoriais, emocionais, racionais e espirituais) e de sua "desapropriação" quanto a eles.
Com outras palavras: espiritualidade não é estudo, mas um sério trabalho interno de desapego. Isso porque é a inocência (não ingenuidade) que nos conecta com o divino.
Nós não somos um amontoado de crenças, cultura e conhecimentos. Podemos tê-los, porém não é o que realmente SOMOS. A imoralidade, a falta de ética, a crueldade, o desamor, a ganância, o ódio... Tudo isso provém de nossa IGNORÂNCIA quanto ao o que verdadeiramente somos; pois se soubéssemos (lembrássemos) não agiríamos como a "selvagens" e nem como a prepotentes egoloides.
Conhece-te a ti primeiro deveria ser a filosofia de todas as religiões e ensinamentos espirituais, antes de se falar em moral.
Pois de nada adianta pregar a moral com um sentimento de superioridade, se não atingimos o estado de amorosidade, humildade e transcendência da vaidade e apegos intelectuais.
A inversão de valores também está na valorização exclusiva da razão em detrimento da pureza do ser.
É por isso que muitos não entendem o porquê do mundo estar caótico e cheio de conflitos religiosos, políticos e culturais.
A raiz do problema não está na moralidade, mas sim nas paixões cegas pelos nossos conceitos.



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