A UNIÃO DOS HEMISFÉRIOS FAZ A FORÇA



      Olha só que interessante...

      Tenho etnia asiática (parte de pai e mãe), mas minha cultura é ocidental (brasileira), com alguns pequenos costumes herdados de meus ancestrais (japoneses).

      Poderia dizer que minha mente é ocidental, pois minha criação cultural foi baseada na mente, crença, educação do ocidente. Cada geração descendente dos japoneses imigrantes no Brasil, vai perdendo a cultura original gradualmente. 

      Sou sansei, ou seja, da terceira geração (neta de japoneses). A maioria das pessoas de terceira geração em diante, já perde metade ou mais da cultura oriental. No meu caso, confesso que foi bem mais da metade... Uns setenta por cento, mais ou menos.

     Minha recuperação se deu com a minha ida ao Japão e o tempo de vivência por lá. Mas se for colocar o que recuperei em números, acredito que tenha sido só cinco por cento.

      Trabalhando naquele país, um dia, um senhor japonês fez um comentário que me abalou e até me irritou profundamente. Ele disse a mim, que por mais que eu tivesse nascido no Brasil, eu SEMPRE seria uma legítima japonesa, mesmo que a minha língua fosse o português e a cultura latina adquirida, também.

      Meu orgulho ficou ferido, porque pra mim, eu era (queria ser) brasileira e ponto final. Na minha cabeça, se o meu nascimento e criação haviam sido no Brasil, eu TINHA que ser originariamente do Brasil.

      Dentre os imigrantes que se estabeleceram neste país, creio que os japoneses (talvez chineses e coreanos também) foram os que mais tiveram sua identidade cultural desenraizada. Por quê? Porque a nossa raça nunca foi agregada ao ocidente, exatamente e simplesmente por causa da raça. E aqui não estou falando de racismo ou de xenofobia, mas sim de associação. Falo apenas de um fato: raça oriental = oriente; asiático = Ásia. 

      Por termos esse biotipo asiático, seremos considerados eternamente como orientais, mesmo tendo nascido no ocidente. Então a coisa, nesse caso, não é só uma questão de origem de outro país, como foi o caso dos europeus e africanos (que se enraizaram bem aqui). A questão é um pouco mais complexa.

      Foram anos e anos de conflito interno em mim - e acredito que em muitos descendentes orientais - pela falta de identidade nacional, cultural, direcional (ocidente/oriente).

      No entanto, através do despertar de consciência, venho percebendo aquilo que antes me incomodava: minha mente, apesar de toda doutrinação ocidental (lógica-cartesiana), ela tem uma herança ancestral da mente abstrata oriental. Ou seja, por mais que eu seja condicionada pelos padrões daqui, algo em mim também "pensa" como os orientais.

      O que aquele senhor havia dito a mim, tinha um fundo de verdade. E hoje, sinto isso como uma bênção.

      Não é que os asiáticos não sejam racionais e tal... Sim, são. Mas existe uma diferença de visão em determinados assuntos, como por exemplo a espiritualidade. 

      O que pude perceber, é que as filosofias orientais são manifestadas, em sua maioria, através de poemas. Assim como Jesus ensinava através de parábolas, eles também o faziam, mas de modo muito mais sutil e de difícil compreensão para as mentes mais lógicas. Não eram ensinamentos feitos para serem entendidos de modo racional, mas sim TRANSCENDIDOS e interpretados através do coração.

      Talvez por isso, meu aprendizado e absorção dessas filosofias, tenha sido algo muito mais fácil do que de outras doutrinas. Pra mim, observando agora, foi rápida e simples a sua compreensão. Era questão de alguns meses e eu já entendia a essência do que tal mestre dizia.

      Foi então, que conhecendo várias vertentes, acessei o que havia de mais profundo em cada uma delas.

      Portanto, muitas vezes acho um absurdo o modo como as pessoas interpretam as filosofias do oriente. Admito: fico realmente estarrecida com as más interpretações.

      Como ensinamentos tão puros e belos podem ser tão distorcidos e sujos com tanto lixo?

      Me faz rir (me desculpem) a ideia de que budismo, ateísmo ou niilismo sejam iguais, ou mesmo parecidos! É demais! E olha que eu nem sou budista...

      Aí, então, eu me deparo com um bando de neo ateu utilizando Buda (!!!) pra justificar a inexistência de Deus, Fonte, Inteligência Maior!! 

      É óbvio que pra que exista TRANSCENDÊNCIA do estado meramente humano, há de se ter uma força divina! Não existe iluminação sem que nos religuemos a essa Força Maior. Iluminação é integração à Verdade Absoluta, que eles chamam de Nirvana ou Vazio (que de vazio não tem nada). A única diferença é que o Deus dos budistas é inominável e indescritível de tão superior (sagrado) ele é, pra eles.  

      São poucos ocidentais a compreenderem o sentimento ou olhar espiritual dos orientais. Não há como, se a mente é rígida e centrada no racional, unicamente.

      Outra onda que observo é desse oportunismo liberal que quer utilizar essas filosofias como pretexto. Geralmente são as pessoas adeptas ao sexo livre, às drogas, ao amoralismo com intenção imoral... Chega ser contraditório o que essas pessoas "pregam", com o que o povo asiático realmente vivencia.

      Pra quem não sabe, o Japão é um dos países mais rígidos quanto ao consumo de drogas (imagina o tráfico, então!). Ele só perde pra Indonésia que (todos já sabemos) condena o sujeito à pena de morte. Mas o combate à droga ilícita é forte por lá.

      Outra contradição é essa coisa niilista ou amoral, que não sei de onde as pessoas tiraram da cultura deles. Todo mundo sabe que o japonês, coreano e mesmo o chinês de antigamente ou o comunista, são (até exageradamente) rigorosos e disciplinados. De onde veio essa visão de que as filosofias orientais pregam o "tudo é da lei" ou tudo está na perfeição?

      Compreender espiritualmente é diferente de compreender mentalmente ou moralmente, na visão deles, ou seja, uma coisa é compreender que existe o dual (positivo e negativo) e que o Todo é um só; outra coisa é se comportar imoralmente, achando que só porque o negativo faz parte desse Todo, não prejudica em nada agir de acordo com esse pólo. 

      O buraco é mais em cima. O entendimento deles é baseado na PURIFICAÇÃO DO SER através do autoconhecimento pra que cheguemos na Unicidade e então não precisemos mais nos pautar em regras e doutrinas. A conduta benéfica será totalmente espontânea e inocente. Porém, isso não quer dizer agir ou viver atropelando regras morais e éticas.

      Quanto à famosa passividade dos asiáticos, pra mim, sinto que é própria dessa mente abstrata deles. Eles resolvem muitas coisas no silêncio e PRA ELES isso dá certo. Agora, quando estão em contato com um povo ocidental, isso não funciona, pois em geral, eles são alvos de abusos e humilhações. É preciso uma adaptação árdua, o que ocasiona um grande conflito interno: cultura e mente oriental X cultura e mente ocidental; espírito passivo X espírito passional. Imagina ter essas duas naturezas dentro de si (que é o meu caso)?

      O "agir, sem agir" do taoismo também foi erroneamente interpretado como "nada fazer", assim como o "aceitar o aqui e agora" do zen, entendido como achar que "o momento presente é o correto e verdadeiro". Como assim? Mas e se no momento presente eu estiver sofrendo agressões e abusos? É pra eu achar que eu devo aceitar aquilo e ficar inerte? Como disse no texto anterior: aceitação é a compreensão da Verdade naquele exato instante.

      Não sou á favor de ser passivo (zen) em tudo, e nem ativo em tudo também. É preciso saber o momento certo de cada coisa, pois o que aprendi depois de tanto "engolir sapos" calada, é que a raiva pode ser grande aliada para nos fazer sair de um estado anestésico, estagnado ou submisso, assim como a equanimidade para nos poupar de perder energias à toa.

      Não existe regra única pra tudo. Não existe um olhar que sirva em todas as ocasiões. A Consciência do que é correto, é de instante a instante, pois tudo é movimento e mudança.

      Conclusão: a mente racional não irá compreender profundamente a essência dos ensinamentos budistas, taoistas e mesmo hindu. Não há como... É isso que gera preconceitos, falsas acusações e partidarismos. O que era pra agregar e ajudar a humanidade a se purificar e a se religar com a fonte divina, é rechaçado como algo contra os valores morais e a Deus. Triste... Muito triste.

      Quem diria... Buda como garoto propaganda do ateísmo e do liberalismo... Logo ele que ensinava o desapego e o caminho do meio para se iluminar (unir-se a Deus), e dizia que o desejo pelas ilusões é que causava sofrimento...

      É lamentável que por causa da deturpação e da aversão causada pelo desconhecimento das pessoas, seres iluminados como ele (e muitos outros) sejam profanados ou tratados como "mundanos" (!!!).

      Buda pode ter morrido de velhice, mas assim como Jesus, ele hoje também está sendo crucificado injustamente.

      Quem será o próximo? Façam suas apostas.


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