UM BRINDE À METADE CHEIA DO COPO

      

      Ainda bem que eu não vejo apenas a metade vazia de um copo.

      É a metade cheia que me estimula a escrever e a me doar.

      A metade cheia seriam as pessoas que alcançam a profundidade do que eu percebo e a compreendem. Não aquelas que meramente concordam.

      O compreender está além de uma concordância de opiniões; é a observação e reflexão sincera de uma questão. 

      Saber colocar as superficialidades de lado e cavar um determinado assunto, é que se extrai a essência dele. Esses que realmente compreendem, e não somente entendem, podem até discordar em pequenos detalhes não tão importantes, mas absorvem a Verdade num contexto maior.

      Ao contrário daqueles que julgam a Consciência de uma pessoa pela satisfação humana em prazeres que ela obtém na vida. O indivíduo que não enxerga a Verdade além das aparências, nunca a alcançará.

      "O meu reino não é deste mundo", Cristo já dizia e eu compartilho, em certo grau, do mesmo sentimento. Minha felicidade não é mundana, ainda que ter prazer e algum conforto necessário sejam saudáveis. Minha alegria está em saber-me Consciência (Alma), acima de tudo.

      Conseguir enxergar além do senso comum, não necessariamente lhe dá uma vida satisfatória, florida e de realizações humanas. Medir a Consciência de uma pessoa pela sua circunstância externa é um equívoco.

      Até mesmo o emocional em desordem não impede que um indivíduo consiga ter visões mais amplas da vida. O Dom Profético (ou filosófico) em alguns pode acontecer antes mesmo de um equilíbrio interno. Muitas vezes é até o próprio Dom que torna uma pessoa insatisfeita e confusa, por sentir a Verdade em si e viver num mundo de aparências e mentiras. O choque de realidades tão diferentes pode ser angustiante aos que estão conectados ao Real.

      O ser consciente não sofre as dores das vicissitudes, mas as dores do falso e da inconsciência alheia. Ser desperto não quer dizer ser pleno, mas aquele que vê o que engana.

      Qual o referencial ou parâmetro que as pessoas em geral têm de um ser mais desperto? As suas aquisições, seus prazeres, seus aplausos, suas satisfações de ego? Ou seria o total desapego à isso? E quando falo em desapego, não me refiro a não ter essas coisas, mas sim, em não medir o nosso verdadeiro valor através delas.

      Ser um alguém pacífico, zen, modesto, camarada, alegre, determina um alto grau de Consciência ou, em sua maior parte, é hipocrisia? Será que a busca por esse comportamento, acima ou à frente do encontro com o que é mais profundo, é de fato algo legítimo? Não seria uma fuga da Realidade?
      
      Não existe um atestado de Consciência que revela quem é ou não consciente, exceto a própria Consciência. Pois até mesmo um suposto ignorante pode ter seus momentos de grande lucidez e (novamente voltando à questão), apenas os que enxergam a essência por trás das superficialidades aparentes, é que poderão captá-la e compreendê-la.

      Portanto, fica visível à mim que quando pegam detalhes característicos da minha personalidade ou de minha vida e os usam para me diminuir e me desvalorizar, é porque estão presos por seus julgamentos rasos e porque não possuem uma boa argumentação que por si só seria suficiente. Ao invés de se aterem num questionamento, analisam a reputação, as realizações ou o emocional do outro, e os usam como pretexto para desmerecê-lo.

      É mais "infantil" (como dizem) acreditar na união de pessoas através de seus potenciais e de sua Alma para (sim), dia- a dia, construirmos um mundo menos pior; ou usar de características pessoais para desvalorizar as percepções de alguém, por serem contrárias ao que se acha? Onde está a coerência nisso?

      Enxergar a Verdade está bem além de se ter uma vida confortável e de ser neutro em tudo. Enxergar a Verdade é ver todas as coisas, ainda que mínimas, das quais anestesiam as pessoas e as faz meros soldadinhos de um sistema doentio.

      Isso não é focar na metade vazia do copo.

      Isso é ver que o copo não precisa estar completamente cheio para se ter Consciência do que é bom ou ruim para a Alma. 

      É estar ciente da água e do óleo e não querer que os dois se misturem num homogêneo conceito moral de "bom".


      

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