A ÍNGREME ESCALADA DA ALMA
Minha luta, durante alguns anos, tem sido em prol dos sentimentos verdadeiros e o desmascaramento dos superficialismos que nos prendem e iludem.
O interessante nisso é que, em sua maior parte, era algo inconsciente, ou seja, eu não fazia ideia alguma que "lutava" por algum propósito maior. Simplesmente não compactuava com atitudes que me faziam sentir mal, geralmente aquelas em que a maioria incentiva por serem, aos olhos do mundo, vantajoso ou admirado. Fui tomar consciência com o que contribuía, à seis anos, apenas.
Não é que eu nunca tenha feito babaquices, cometido erros ou sido uma "maria vai com as outras" em certas fases da vida. Fiz e foi extremamente necessário para que eu compreendesse o que era verdadeiro e o que era falso para o Ser.
Minha sorte foi, talvez, ter percebido cedo, o quanto ser rebanho era mau. Já na adolescência, via que ser igual aos outros para ser aceita, não me engrandecia, pelo contrário, me fazia uma pessoa ainda mais medíocre.
Eu não me rebelei e me tornei uma punk, como no fundo eu até queria, mas comecei a expressar a minha identidade excêntrica através dos meus gostos espirituais e de ir contra padrões arraigados que diziam ser corretos.
Naquela época, sem precisar escandalizar e cometer transgressões, eu ia contra a maré, sem que isso fosse muito notado. Já enxergava o quanto a busca por um status quo inibia a manifestação de quem realmente éramos. Numa escala menor, fui uma espécie de Buda, deixando um futuro promissor para trás em busca da Verdade. Atravessei os limites dos muros e conheci outras realidades de vida.
Aos dezoito anos escolhi um caminho muito diferente do habitual. Foi uma escolha, porque não fui obrigada e nem mesmo precisava seguir outro caminho. Poderia ter trilhado o que era mais fácil e habitual e hoje, talvez, seria uma pessoa com um bom emprego e uma vida funcional mediana.
No entanto, tenho certeza que não seria eu mesma.
Não foi o fato de ter ido morar e trabalhar em outro país que me fez encontrar a mim mesma. O que descobri, foi que a coragem de quebrar padrões sistematizados, é o que nos leva a esse encontro. Não importa bem o que façamos, a essência em questão é a de se aventurar por caminhos menos trilhados.
Apesar de minhas intenções racionais fossem as de ganhar dinheiro e independência, eu sabia bem lá no fundo, que o motivo era encontrar um sentido maior dentro de mim. Sabia que o dinheiro adquirido e a experiência seriam usados para descobrir o meu propósito de vida, futuramente.
Foram nove anos árduos e humilhantes, trabalhando em funções praticamente braçais e mecânicas. Quando se vive em um mundo que não é seu, pelo potencial desperdiçado que nos submetemos, ironicamente somos vistos como indivíduos inferiores. No submundo das máquinas operárias, quem não tem habilidade e rapidez é taxado como um retardado mental, sem exagero da palavra. Muito mais ainda se não temos o domínio da língua estrangeira; o intelecto de um sujeito é medido por essa habilidade, sem procurar saber o nível cultural e de consciência dele.
O mundo nos rotula de acordo com as normas da razão, rejeitando tudo o que possa vir da alma. É por isso, que viver e conviver com os habitantes desse mundo, a mim, é bastante complicado. Eles não enxergam o valor real e profundo de um ser humano; o que interessa é que nos adaptemos ao que a sociedade prega e que sejamos mais um número a contribuir com o lucro dela. "Seja produtivo, pois senão será pisado e cuspido como um ser inútil".
Eu até tentei me adaptar como robô, pois afinal, fui eu quem havia escolhido aquele estreito caminho. Mas era em vão, porque não tinha como me forçar a ter um potencial mecânico que eu não tinha (Graças!).
Ainda que difícil, valeu a pena a experiência adquirida. Conheci lugares lindos, pessoas interessantes, cultura riquíssima, tecnologia de ponta, comportamentos polidos e civilizados... Pude viajar a locais que se fosse pessoa mediana, nunca teria viajado. Pude esquiar, andar de Snowboard, acampar em praias paradisíacas e cachoeiras, andar nas mais altas montanhas russas, ir em parques incríveis, comer comidas maravilhosas e de vários países, ter dinheiro para comprar futilidades, ou seja, ter vivido em nove anos aquilo que aqui não viveria em vinte ou mais.
Em tudo há vantagens e desvantagens. Mas acho que hoje não trocaria as vantagens que tive por aquelas que teria como cidadã exemplar e produtiva. E tudo tem o seu preço.
O pagamento que a vida tem me cobrado vem através da incompreensão das pessoas quanto ao rumo que eu escolhi tomar. O preço da liberdade de alma é sofrer com o preconceito e a rejeição dos outros pelo meu modo de ser e viver.
Minha luta é ser a prova viva de que seguir o Coração compensa e contribui verdadeiramente ao mundo, muito mais do que ser um alguém respeitável somente por suas aquisições, conhecimentos lógicos, status social e profissional ou concretizações do "sonho americano". Ser quem de verdade somos e seguir na contramão do senso comum em algum sentido, mesmo que haja alguns sacrifícios, é o que colabora com a elevação consciencial na Terra.
Contudo, não se pode confundir o seguir o Coração com o "fazer o que bem entender". O chamado da Alma é totalmente diferente em ser guiado pelos cinco sentidos ou desejos do ego. É preciso saber distinguir uma coisa da outra. Mente e Coração possuem funções distintas.
Se há um caminho que eu tenha seguido para me reconectar ao Eu Maior, posso dizer que seja o da contravenção. Não no mau sentido da palavra, mas no sentido de quebrar regras e condicionamentos estabelecidos.
Muitos acreditam que o medo me domina por eu ter um tipo de isolamento das pessoas. Não acho que seja medo, mas indisposição e cansaço em ser hostilizada, ameaçada ou menosprezada por não fazer parte desse padrão. Sinto mais desgaste e não exatamente medo. Até porque se fosse isso que me dominasse, eu não seria uma contraventora e não me arriscaria em caminhos menos percorridos, sabendo do risco de ficar só. A Verdade é o que nos afasta da mentira, ou vice-versa; e não porque queremos nos isolar.
Desde nova eu sabia que ser diferente era o que me fortalecia como Ser (Alma). Portanto, resumindo a minha vida, o encontro com a Verdade se deu (e tem acontecido gradualmente), porque fui rebelde e me joguei de corpo e alma no "abismo" do desconhecido.
Literalmente sigo o Caminho do Coração.
No entanto, é um caminho solitário, onde apenas encontramos outros que também se jogaram nele com a cara e a coragem em quebrar regras. Os que percorrem outros caminhos, dificilmente nos acompanham... Nem mesmo nos compreendem.
Pois é uma trilha onde é preciso ousadia, sacrifício de prazeres fugazes em prol da felicidade da alma, destemor à solidão e humildade em ouvir os outros.
O Caminho do Coração é a escalada no lado mais íngreme e radical de uma montanha; porém, a mais rápida a se chegar mais próximo de Deus.



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