O CORTE DA ESPADA

      

      O que é mais importante para a Alma: ouvir a mais pura verdade, ainda com rigor ou rispidez; ou ouvir palavras dóceis e confortantes, porém falsas e interesseiras?
      
      Não estou defendendo a crítica meramente estúpida e nem os melindres. No entanto, o que a maioria das pessoas prefere é a confraternização fingida, que se preocupa com a própria imagem e com a aprovação alheia, do que a verdade nua e crua que por si só é dolorosa.

      Muito do que falamos aos outros machuca, não pelo modo com que falamos, mas porque a Verdade ofende os Egos acomodados em suas ilusões cristalizadas. As pessoas não sentem tanta raiva pela minha falta de tato, e sim pelo desmascaramento que eu causo.

      Quantas e quantas vezes fui cuidadosa com o meu modo de falar e, mesmo assim, provoquei irritabilidade além do normal? Muitas delas, eu até me mantinha calada, mas algo incomodava as pessoas, que começavam a cismar e a me perseguir "do nada". É por essas situações, que eu acho que a nossa energia fala muito mais alto do que as nossas palavras...

      Posso ser bastante honesta, mas tenho bom senso também, aprendido desde pequena para tentar evitar as reações. Quando ajo por impulso, consequentemente eu irrito e machuco... E geralmente é porque alguém me desconsiderou. Claro que é imaturidade, ainda que por justa causa... Porém, quando sou amigável, educada, querendo ser honesta, a irritação e a reação é a mesma. Então, para mim, fica nítido que o problema não é muito o jeito, mas a ferida que mexemos no outro.

      Mas por mais que os indivíduos defendam a Verdade e admirem os sinceros, no dia-a-dia e na convivência, eles acabam aceitando em primeiro lugar os "camaradas", aqueles sujeitos gentis e de fala mansa que só são elogios para o alvo de interesse. Não importa se esses tenham caráter duvidoso, se sejam corruptos ou fingidos com intenção de serem aceitos... Os supostos defensores da Verdade acabam se "rendendo" às manipulações dos falsos modestos, pois a grande maioria não enxerga quando se está sendo manipulado...

      É a velha questão das aparências. Mais vale algo que nos agrada do que encarar uma realidade que dói. Mais vale mil amigos falsos e coniventes do que um de posição firme e honesta.

      Não acho que as pessoas devam se ofender e julgar indiscriminadamente uns aos outros, mas o enganoso deve ser delatado e apontado se realmente queremos o bem de alguém. A pior das coisas é fingir que não se vê e deixar quieto, para não causar desgosto. 

      O mundo está carente de um posicionamento claro. Quem não se posiciona é levado pelas imagens e sensações prazerosas da mentira. 

      Ser honesto e fraterno, contudo, não é dizer ao próximo que "merece o sofrimento que está passando"; "que a culpa é toda dele"; "que ele está sofrendo porque quer", e coisas do tipo que já ouvi e ouço dos inquisidores espiritualistas. Tampouco passar a mão em sua cabeça e apoiar suas ilusões, como se fosse algo natural de se fazer. Ser honesto e fraterno é denunciar os ENGANOS, as distrações, os padrões inconscientes, os vícios em que as pessoas caem, por condicionamento, apegos mundanos ou traumas. Bem diferente de acusar, chutar e abandonar o "irmão" na sarjeta, quando este pede uma mão.

      Uma vez disse que, quando vejo e constato alguém sofrendo na rua da amargura e admitindo, eu procuro ser solidária e compassiva... Quando vejo alguém sofrendo, mas agindo de forma arrogante ou fingindo equilíbrio, felicidade e paz, eu sou dura e ácida sim. Porque um coração endurecido ou mascarado não pode ser tratado com amabilidade... Ele não dará valor algum a sua atenção e ainda a usará para se vangloriar. O amor, nesse caso, deve manifestar-se com honra e firmeza, não com condescendência.

      Portanto, antes de avaliar uma atitude, verifique a intenção por trás dela.
      Ela somente quer a sua aprovação ou quer o seu bem de verdade?


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