DEIXANDO A CONSCIÊNCIA ME LEVAR

   

      Uma grande ficha que me vem caindo é que, assim como a Bíblia, todos os ensinamentos religiosos ou espirituais podem ser distorcidos e usados como artifícios, pretextos e conveniências para justificarem os nossos caprichos e as nossas omissões. Um dos mais utilizados, na cultura do hedonismo, é o ensinamento do "viver aqui e agora", como desculpa para vivermos o momento presente sem medir as consequências, pois para o ego, o que importa, é vivenciar tudo o que nos é ofertado no momento... O resto é resto.

      Hoje, vejo o quanto me enganei e me deixei iludir com conceitos filosóficos orientais. No entanto, o problema não é tanto das filosofias e, sim, sua má interpretação. 

      É incrível a discrepância de um conceito com a atitude de um povo. 

      Por exemplo, o Taoismo, uma das filosofias mais profundas, sábias e integrativas, foi "interpretada" como um ensinamento amoral (diferente de imoral), por simplesmente nos ensinar sobre o Todo e a dualidade da Ilusão: nem certo e nem errado; é o que é. Claro que o que vivenciamos é uma ilusão, pelo fato disto ser apenas uma rápida passagem por aqui; e que a Verdade está além do dual... O problema é que as pessoas querem vivenciar essa filosofia ao pé da letra, sendo que TRANSCENDER a ilusão é bem diferente de enxergar e VIVER TUDO COMO "o que deve ser" ou "deixar a vida me levar". Conceitos, esses, bem parecidos com o do hinduísmo também. Mas em relação, essencialmente, com os chineses da antiguidade, vemos que seus maiores sábios não eram nem um pouco liberais ou complacentes; pelo contrário, vejo bastante rigor e atitude resoluta frente à várias situações.

      Basta investigar o I Ching e o Tao Te Ching. A própria "lenda" de Lao Tsé demonstra que ele "se encheu" do que via e foi embora para não mais voltar. Se fosse seguir o "aceite a vida como ela é e deixe acontecer", ele estaria lá até morrer. É bastante contraditório achar que justamente os orientais daquela época antiga tinham atitudes amorais e saíam dizendo "Faz parte". Não, não era esse o entendimento deles.

      O mesmo equívoco se dá com o conceito Wu Wei: a não-ação. Sabemos que ele não quer dizer não agir... Todos que entendem, em um grau maior, a espiritualidade oriental, sabe que a filosofia diz em "não forçar a barra", "agir com paciência", "confiar na Vida", etc. Isso é maravilhoso. Mas será que essas mesmas pessoas que entendem isso, sabem discernir o que é ser sereno e equilibrado de estar sendo omisso? Creio que noventa por cento desses, não saiba. É a velha tecla que eu venho batendo sobre a Verdade: Ela só pode ser alcançada de acordo com o que está diante dos meus olhos e não em meras associações correspondentes ou parecidas.

      O famoso "cada caso é um caso" deve ser seriamente refletido.    

      Forçar a barra não é o mesmo que tomar uma atitude e uma posição. Inclusive quem não toma uma posição fica à deriva aos caprichos alheios e é feito de marionete.

      É aqui aonde queria chegar...

      Viver de aparências nos leva a deixar que os outros nos manipulem. A sutileza da manipulação muitas vezes é tanta, que nem percebemos a corrupção que nos submetem. Lógico que, para que sejamos corrompidos é preciso apenas uma moral fraca e um caráter de se aceitar tudo o que a vida nos oferece, como sendo o que é necessário (e o mais conveniente). 

      Será que a aceitação das pessoas ditas espiritualizadas e imperturbáveis não seria OMISSÃO? Será que esse jeito zen não é uma forçação de barra, só que ao contrário? 

      Aceitar as coisas me faz ser o que eu não sou, ter amizades com quem não tenho afinidade, fazer o que eu não quero e viver uma artificialidade harmônica.

      "Diga-me com quem andas, que eu lhe digo quem tu és" ficaria mais correta caso fosse: "Diga-me com quem andas, que eu lhe digo quem não és". Não estou a pregar nenhuma atitude antissocial ou anticomunitária, mas estou a dizer que deixar as companhias nos levarem ao sabor do vento, com certeza nos levará ao abismo moral e consciencial.

      Eu compreendi de forma distorcida a filosofia do "Tudo é como deve ser". Deixei (permiti) que pessoas sem ética me desmoralizassem às escuras e me tirassem de cena para satisfazerem seus doentios anseios. Não, não é culpa dos outros, mas eu PERMITI que me prejudicassem e me jogassem no porão. Isso, porque eu não me posicionei na vida e sempre achei que os outros mereciam mais do que eu. Me baseava no termômetro do mérito que mede os merecedores pelo o que têm mais a oferecer... Mas o que é esse "mais a oferecer"? Status? Dinheiro? Respeitabilidade? Conforto? Aceitação? Sou mais do time da honestidade, honradez, lealdade, simplicidade e sabedoria... 

       Agora eu vejo que, apesar de não termos controle da Vida, há de se ter posição firme moral. E ter essa posição é não deixar que as más intenções ou desejos subversivos dos outros nos derrubem e nos façam desistir de nós mesmos e dos nossos verdadeiros amigos.

      Ficar à deriva é um erro, tanto quanto querer controlar as situações.

      Deve ser por isso que Buda nos alertou para o Caminho do Meio... Mesmo que as pessoas distorçam esse ensinamento também, acreditando que ser amoral - ao se aceitar o imoral - é estar condizente com a Verdade.

      Taoismo, Budismo, Hinduísmo... não podem ser entendidos pela razão como muitos ocidentais o fazem. É preciso Percepção Maior para compreender que não existe o certo e o errado como dizem essas filosofias, mas que, sim, há a Consciência e a ignorância... 

      E, esta, é que nos separa do Todo; assim como o seu, o meu e o nosso "tanto faz".

      

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