A LÓGICA DO CORAÇÃO


      
      Uma das coisas que a solidão me ensinou foi a me relacionar com todo o tipo de gente.

      Não que a solidão seja um requisito nessa arte, mas no meu caso foi o casoTalvez, também, por eu nunca me enraizar em nenhum tipo de agrupamento, ambiente, crença, nível cultural ou socioeconômico. Fui uma nômade em todos os sentidos possíveis.

      Ter simples aceitação de tais coisas diversas não é a mesma coisa que CONVIVER diariamente com elas. Eu convivi... E penei, pra ser bem sincera. 

      Apesar de saber-me "estrangeira" em todos os casos, eu acreditava que precisava me igualar às pessoas em seus mundos e níveis de consciência. Não queria humilhá-las em suas limitações. 

      Deve ser por isso que demorei para assumir meu posicionamento na vida... Deve ser por isso que evitei de olhar-me no espelho.

      Mas aprendi a me colocar no lugar do outro. Há males que vem pra bem.

      Outro bem que ficou, foi conseguir transcender muitas vezes (não todas, claro) as opiniões divergentes das pessoas, sentindo carinho, respeito e admiração por elas. Não concordar com tudo o que os outros pensam é natural e até bastante saudável. O grande lance, no entanto, é saber separar conceitos das afinidades de alma.

      Posso enxergar, até mesmo, negatividade escancarada em alguém, mas sentir afeto por conseguir sentir o seu coração... Um tanto machucado, na realidade, só que grandioso. A minha maior benção e dor ao mesmo tempo é conseguir enxergar o personagem e a alma das pessoas. Benção por saber quem são sem as máscaras e os condicionamentos; dor por ver essas máscaras encobrirem sua pureza.

      É certo, que, hoje em dia, está quase impossível conviver com indivíduos de opinião contrária à nossa. Eu mesma sei disso. Mas há um outro nível de percepção que nos permite discernir aqueles que, apesar de contrários, estão apenas iludidos ou enganados por mentes mais astutas ou mesmo por suas próprias programações implantadas; daqueles que realmente possuem a intenção de criar caos, inversão de valores e controle.

      Não precisamos ser obrigados a nos relacionar com a pluralidade conceitual, contudo, é importante nesses dias de confusão e cegueira, saber primeiramente o que é apropriado ao espírito e depois ao personagem, e não o contrário. Isso evita que sejamos injustos ou ingratos com os outros. Muitas vezes podemos rejeitar alguém pelo o que ela pensa, sendo que em outras várias situações, esse mesmo alguém pode nos acrescentar coisas de grande valor. Essa é a diferença de discernir e peneirar informações; principalmente companhias.

      Uma postura ética e moral vale mais do que mil julgamentos mal refletidos... Uma ética e uma moral que não advêm de nenhum preceito religioso, e sim de uma conexão com a Verdade Maior. 

      O problema é que o Ego criou o mito de que uma mente aberta e liberal, que é contrária à tudo o que limita, é o que está mais perto da Verdade. Confundiu-se a libertação da alma com a liberação do personagem. Confundiu-se felicidade com o prazer custe o que custar. Sei que bato sempre nesta tecla, mas é preciso desprogramar as mentiras com a repetição insistente dessa verdade...

      Admiro, respeito e sinto carinho por muitas pessoas, porque há essa consciência nelas, e não porque suas opiniões são cem por cento as mesmas que as minhas.

      No entanto, alerto constantemente as pessoas ao apego ou à super-valorização da razão, pois é essa idolatria que fecha o coração para níveis de percepção mais altos. E quando digo isso, eu não estou CONTRA a razão, mas à favor de um equilíbrio com o coração, perdido à muito tempo.

      Fato é que, de tanto tempo nesse desequilíbrio, a humanidade já nem mais lembra o que é SER CORAÇÃO. E ser coração é querer e agir por um "mundo melhor", mas sem acreditar que medo, competição, autoridade, compensações farão dele melhor. O bebê precisa se apoiar em paredes para ficar em pé. Mas muitos deles cresceram. Já conseguem dar seus primeiros passos e não podem mais escorar-se nelas, mesmo que os outros bebês ainda não tenham habilidade. Quem evolui precisa ser exemplo aos outros e se insistimos nas paredes sabendo andar, toda uma espécie declina a engatinhar eternamente.

      Ser coração é entender, de uma vez, que o seu nível consciencial não pode basear-se na pobreza espiritual da maioria e querer que o mundo funcione à chineladas. Isso porque os avançados sofrerão injustiças e estarão condenados à um castigo ou a repetir indefinidamente de ano, sendo que não precisariam desse atrasoA base do Ser Coração é ter rigor quando necessário, sim, mas sem que nos agarremos à um campo de batalha e à torturas medievais. 
      
      Quem acha que o Coração é um bobalhão, é porque não atingiu o nível de compreensão Dele, pois, sim, ele pensa. 

      Pensa além das diferenças e coopera com as mesmas, portanto é um sujeito mais sensato do que o velho e respeitável intelecto. 
      
      A lógica do Coração precisa urgentemente ser reaprendida, porque a da razão...
      Bem, essa entende de estratégias, lutas e planejamentos... Mas que sozinha segue cega, dando voltas sem sair do lugar.

      Meu ecletismo não é uma tendência à hegemonia. 
      Ele é uma tendência a enxergar a essência no coração dos homens de bem e ver suas diferenças como grandes potenciais... Além de suas meras visões separatistas. 


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